Visita do Papa: os primeiros balanços

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Declarações de tolerância em relação aos gays repercutem em todo o mundo. Gilson Caroni vê sagacidade do pontífice, na entrevista à Globo

Que uma modernização real da igreja católica, sob Papa Francisco, é altamente improvável, o filósofo Toni Negri já argumentou, com razões de sobra, ainda antes da eleição do pontífice. Talvez as análises sobre o papel de Jorge Mario Bergoglio não devam focar neste ponto, superado — e sim no que ele, como expressão de um poder ainda influente, na ordem geopolítica do mundo, pode representar. É o que sugerem, entre outros, Immanuel Wallerstein.

A partir deste prisma, é possível ver sinais positivos, na primeira viagem internacional importante de Francisco, concluída este fim de semana, no Brasil. Num momento em que as ameaças do fundamentalismo religioso são cada vez mais graves, tiveram enorme repercussão as palavras amenas do papa em relação aos homossexuais: “se alguém é gay e procura Deus de boa vontade, quem sou eu para julgar?”. Veja, por exemplo, as matérias de hoje no Página12, The Guardian, Le Monde, ElPaís e New York Times — todas destacando este aspecto da última entrevista concedida por Francisco.

Já o cientista político Gilson Caroni Filho preferiu destacar, em sua página no Facebook, outro aspecto: a fala exclusiva que o papa concedeu à Rede Globo, ao final de sua jornada. Suas observações, reproduzidas abaixo, destacam: jogando com habilidade, Francisco serviu-se da emissora dos Marinho para uma importante defesa do direito à Comunicação, e uma crítica contida (porém potente) das relações entre mídia e pensamento capitalista. Eis os pontos de Caroni:

“Por fim, algumas considerações finais sobre a entrevista que o Papa deu à Globo.

“1) Muitos disseram que ele privilegiou uma emissora monopolista. Vamos pensar? Não subestimem o a argúcia política da Igreja. Ele sabia que não poderia ter mais audiência do que falando para a emissora da família Marinho. E com um detalhe: se desse uma coletiva, poderia ter trechos suprimidos na edição. Com exclusividade, a TV Globo não seria louca de censurar a fala do Sumo Pontífice. Não, no horário nobre.

“2) E o que ele falou? Que a comunicação não pode ser parcial e o que os jovens não devem ser manipulados. Gerson Camarotti teve que engolir em seco. Quem discorda disso?

“3) Criticou a lógica do capital que assujeita a vida às finanças. E ao fazê-lo, enfatizou que, enquanto milhares de crianças morrem diariamente de fome, o silêncio é completo.Exatamente o contrário do alarido feito com qualquer oscilação da Bolsa. Querem maior pancada contra o pensamento único da mídia corporativa do que essa? Gerson Camarotti ficou pálido.

“4) Criticou um sistema que desemprega milhares de jovens e exclui, por inúteis para a acumulação, os velhos.Não foi econômico ao criticar a tirania do dinheiro. Não é exatamente o que falamos diariamente e Globo silencia?

“5) Reiterou que a Igreja não deve ser omissa no apoio a todos que lutam contra a fome. Bem diferente do clericalismo dos dois últimos pontificados, não acham? Este papa não é “pop”. É uma típica liderança carismática.

“6) Pregou a cultura do encontro entre as diversas religiões. O que há de intolerante nesse discurso?

“7) Vocês acham que a Globo aparelhou o Papa ou foi muito bem usada por quem tem um capital político multissecular? Quem mais, senão ele, poderia falar o que falou no monopólio? Ah, e é dele a responsabilidade sobre a inexistência de um marco regulatório no Brasil? Não, ele usou a estrutura existente para falar o que muitos de nós queríamos ouvir.

 “Hoje, após tomarem conhecimento da entrevista dada à imprensa, durante o voo que o levou volta á Itália, representantes de movimentos sociais e entidades de defesa dos direitos da população LGBT consideraram as declarações do papo um ” passo importante no combate à discriminação”. Contemplou ou não as reivindicações dos que lutam contra a homofobia?

“É bem verdade que não pregou luta armada contra o capitalismo. Mas se o fizesse não seria o Papa. Portanto, um pedido: deixem de besteira e aprendamos, com humildade, a fazer política. Lembrando que não tenho qualquer vínculo com a Igreja Católica, aceitem um grande abraço. E tenham uma boa noite.”

 

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