Violência (3): A mais radical das derrotas

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Excitados pela legítima revolta contra iniquidades e brutalidade estatal, certos manifestantes introjetaram a lógica do inimigo. Foram tomados pelo espírito que condenavam. São inimigos de si mesmos e cópias de quem combatiam

Por Luiz Eduardo Soares

A morte do cinegrafista da Band é uma tragédia e um ponto de inflexão no processo político em curso. Pela tragédia, me solidarizo com a dor de familiares e amigos. Quanto à política, esse episódio dramático é a gota d’água, ou a gota de sangue que muda a qualidade dos debates e das identidades em conflito.

Quebrar vitrines é prática equivocada, contraproducente e ingênua, mas compreensível como explosão indignada, ante tanta iniquidade e a rotineira violência estatal, naturalizadas pela mídia e por parte da sociedade. Mas tudo se complica quando atos agressivos deixam de corresponder à explosão circunstancial de emoções, cuja motivação é legítima. Tudo se transforma quando atos agressivos já não são momentâneos e se convertem em tática, autonomizando-se, tornando-se uma espécie de ritual repetitivo, performance previsível, dramaturgia redundante. 

Os atos agressivos passam a ser a celebração narcísica da própria força, uma teatralização paradoxalmente impotente do ódio. As cenas se sucedem de modo a espelhar a brutalidade policial, realimentando o circuito destrutivo e autodestrutivo da violência, cujo simbolismo afirma o avesso da solidariedade, da fraternidade e dos valores gregários –corroídos pelos mecanismo vigentes de exploração capitalista.

Ou seja, a ritualização da agressividade, por parte de manifestantes, ecoa, reflete e reproduz o que pretende combater. Atos guerreiros instauram nas ruas uma linguagem monossilábica e fetichista que é a réplica grotesca do espírito do capitalismo. O vocabulário de atos agressivos é exíguo e o repertório de imagens, muito pobre – mero decalque do imaginário conservador do entretenimento midiático.

A prática de cooptação do PT esvaziou os movimentos e degradou a política. No vácuo da despolitização, ignorando as mediações, excitados pela legítima revolta contra as iniquidades e a brutalidade estatal, estimulados pelas manifestações de massa que mudaram a face do país, os grupos que insistem em adotar como técnica e tática a encenação da violência estão drenando a energia transformadora, desprendida na sociedade. Estão em marcha batida para o isolamento político. Seu destino é o gueto, a repetição de um enredo triste, auto-destrutivo e desagregador, mais do que conhecido. Atraídos pela visão do inimigo, reificam a volúpia da guerra e caem na armadilha desse velho game do poder: tudo começou com nossa denúncia de que o Estado, via polícias (e o sistema de justiça criminal, em seu conjunto), adotando visão militar, trata o suspeito como inimigo, criminaliza a pobreza e faz a guerra ao Outro. Hoje, os jovens que investiram na linguagem da violência têm um cadáver a sepultar e um caminho a rever.

Eles estão militarizando o amor ao Outro e o sentido de fraternidade, que um dia entenderam como o avesso da ordem injusta que impera. Introjetaram a lógica do inimigo. Foram tomados pelo espírito que condenavam. São inimigos de si mesmos. São cópias do inimigo que combatiam. Nesse sentido, foram vencidos. E não há pior derrota, nem mais radical. Agora, repetem o horror que repudiavam, imitando os algozes que denunciavam. Atravessaram o espelho: com o rojão que mata em punho, aqueles que encenaram a violência converteram-se no avesso de si mesmos. São o outro, seus próprios inimigos.

Enquanto a história vira pelo avesso, O Globo comete um verdadeiro crime contra o jornalismo, procurando macular um dos homens públicos mais dignos e honrados de nosso país: Marcelo Freixo. Acusa-o, na capa, por interposta pessoa, e encerra o parágrafo com a indefectível sentença: “O deputado nega.” Isso não ocorreu por acaso: O Globo sabe perfeitamente que com a derrota dos grupos nas ruas e seu isolamento, com a desmoralização da linguagem da violência, o maior inimigo das iniquidades e da brutalidade estatal é a política, o espaço participativo em que as ruas e as instituições dialogam. Quem, no Rio, quiçá no Brasil, melhor do que Marcelo Freixo, hoje, representa essa via?

Tarefas que me atribuo: prestar solidariedade aos familiares da vítima fatal. Defender Freixo das calúnias e do cerco de que será vítima. Continuar dialogando com aqueles que ainda não se convenceram de que a energia precipitada em junho não pode perder-se no ralo dos guetos e da dramaturgia antiquada, previsível e essencialmente conservadora da violência. O ódio transformado em tática e técnica perde a legitimidade visceral de sua origem e se revela a mimetização especular do que há de mais nefasto na prática e na simbologia da “faca na caveira”, suprassumo da ideologia militar, autoritária e antipopular.

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3 comentários para "Violência (3): A mais radical das derrotas"

  1. André Ferreira disse:

    Esse malabarismo argumentativo do professor tá muito bonito, bem feito, mas, sinceramente, ficar deitado na rua como Gandhi, definitivamente não é o meio adequado que os jovens e o restante da sociedade terá para mudanças profundas que exigem o país.. Você acreditar na social democracia capitalista como via de mudanças profundas em uma sociedade profundamente desigual é um direito seu Luís Eduardo Soares, mas desqualificar e menosprezar aqueles que discordam de sua tática e análise – que foram derrotadas em sua passagem nos governos Garotinho e Lula – já é uma postura, no mínimo, prepotente e etnocêntrica.. Chamarmos os BB de imaturos e ultrapassados por serem anarquistas é não exercitar o olhar sociológico sobre a realidade presente.. Mas logo Vc professor???

  2. mrm disse:

    fraquinho. O LE Soares sempre foi simpático às boas lutas, um cara interessante do ponto de vista das instituições, mas nisso, como sociólogo, ele deveria ser mais sincero: deveria declarar abertamente sua base teórica weberiana, institucionalista, bem afim com certas tradições liberais, e, com isso, confessar suas credenciais muitas vezes apenas legalistas e moralistas, tomando partido do conservadorismo que subjaz a seu discurso. E nisso, ele tem mesmo tudo a ver com (parte d)o psol.

  3. Arnaldo Azevedo Marques disse:

    Dia da Resistência Não Violenta celebra-se a 20 de Fevereiro.
    Dia da Resistência Não Violenta pretende mostrar que se pode lutar pelo que se acredita sem recorrer à violência.
    Dia da Resistência Não Violenta
    De acordo com os defensores da resistência não violenta, a luta deve ser baseada no diálogo e em manifestações pacíficas. Nunca em circunstância alguma recorrer à violência.
    Como celebrar o Dia da Resistência Não Violenta
    Este é uma oportunidade para dialogar com os seus alunos acerca da violência, o que é, como se desenvolve, os diversos tipos de violência, quais as formas e mecanismos que a podem parar, etc. Dê especial ênfase ao bullying, algo que lhes pode ser mais familiar e compreensível.
    Proporcione debates, faça dinamica de grupo sobre este tema, promova jogos de cooperação e de trabalho em equipa.
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    As campanhas de ações não violentas têm sido parte da vida política há milênios, desafiando os abusos de autoridades, liderando reformas sociais, exigindo o fim do domínio colonial e protestando contra o militarismo e a discriminação.
    Mahatma Gandhi, da Índia, e Martin Luther King Jr., dos Estados Unidos, ambos brilhantes pensadores estratégicos, bem como grandes líderes morais, são provavelmente as lideranças mais conhecidas de tais movimentos. Não eram apenas comprometidos com a ação não violenta como o meio mais eficaz de travar suas respectivas lutas; também estavam profundamente ligados ao compromisso com a não violência como artigo de fé e princípio ético pessoal. No entanto, em muitos aspectos, Gandhi e Luther King tinham um comprometimento diferenciado em relação ao princípio da não violência, uma vez que a grande maioria dos movimentos não violentos e seus líderes não tem sido pacifista, tendo abraçado esse tipo de ação por considerá-la a melhor estratégia para fazer avançar suas lutas.
    De fato, nas últimas décadas, principalmente as lutas não violentas não só levaram a reformas sociais e políticas significativas, avançando a causa dos direitos humanos, mas também chegaram a derrubar regimes repressivos e forçar líderes a mudar a sua própria visão de governança. Em consequência, a resistência não violenta tem evoluído como estratégia com fim específico, associada a princípios religiosos ou éticos, para um método de luta reflexivo e mesmo institucionalizado.
    De fato, os últimos 30 anos testemunharam uma notável explosão de insurreições não violentas contra governos autocráticos. Antes de tudo, os movimentos não violentos de “poder popular” têm sido responsáveis por fazer avançar a mudança democrática em quase 60 países durante esse período, forçando transformações substanciais em muitos deles. Outras lutas, embora reprimidas no final, representaram, apesar disso, sérios desafios a outros déspotas.
    Em contraste com as lutas armadas, essas insurreições não violentas são movimentos organizados de resistência popular a autoridades governamentais que, seja conscientemente ou por necessidade, evitam o uso de armas da guerra moderna.
    Stephen Zunes (*). Stephen Zunes é professor de Política da Universidade de São Francisco. É o principal coeditor do livro Nonviolent Social Movements [Movimentos Sociais Não Violentos] (Blackwell, 1999) e preside o comitê de consultores acadêmicos do Centro Internacional sobre Conflito Não Violento.
    As revoltas armadas impõem grandes custos humanos. Os movimentos não violentos de “poder popular” souberam, com sucesso, chamar a atenção para a repressão oficial e conquistar o apoio dos indecisos.

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