Sindicatos espanhóis preparam novos protestos em 1º de Maio

Após greve geral com enorme adesão, dirigentes anunciam mobilização permanente contra pacotes de austeridade e procuram: “meios democráticos para tirar esses governantes do poder”

Depois da greve geral de 29 de março, que reuniu cerca de quatro milhões de pessoas em 110 manifestações por toda a Espanha, as centrais sindicais espanholas preparam para o Dia do Trabalho uma série de protestos contra a reforma trabalhista e os cortes orçamentários impulsionados pelo governo conservador de Mariano Rajoy.

“Queremos que no 1° de Maio haja uma mobilização generalizada para expressar nosso rechaço às reformas e exigir uma solução negociada à crise, em que a classe trabalhadora não seja a mais sacrificada”, anuncia Manuel Bonmati, secretário de Política Internacional da Unión General de Trabajadores (UGT).

Na Espanha, diz, aproximadamente 24% da população economicamente ativa está sem trabalho. E metade do desemprego recai sobre mulheres e jovens, que também sofrem mais diretamente com os cortes de verbas para saúde e educação.

Por isso, não só na Espanha, mas em toda Europa se vive uma campanha permanente de mobilização, coordenada pela Confederação Europeia de Sindicatos (CES). “Houve mais greves gerais no continente entre 2008 e 2012 do que desde a Segunda Guerra Mundial”, compara Javier Doz, secretário de Internacional da Confederación Nacional de Comisiones Obreras (CCOO).

Cabeça fria

Hoje, cerca de 5,5 milhões de espanhóis estão desocupados. Ainda assim, Manuel Bonmati acredita que as coisas vão piorar. “O próprio governo reconhece que, nos próximos dois anos, o desemprego vai atingir mais 630 mil pessoas devido aos cortes de gastos públicos”, lembra. “Portanto, o mais previsível é que continuaremos trilhando o caminho das manifestações para assegurar as conquistas sociais dos trabalhadores.”

Porém, apesar da disposição das centrais espanholas em tomar as ruas contra as reformas, os representantes da UGT e CCOO explicam que a estratégia sindical espanhola será diferente da grega. “Na Grécia foram realizadas 13 greves gerais nos últimos quatro anos”, conta Javier Doz. “Nós já fizemos uma paralisação bastante contundente, mas queremos dosificar as ações. Não faremos greves contínuas. Devemos esfriar a cabeça, pois estamos numa luta de longo prazo.”

O dirigente da UGT avalia que as políticas conduzidaspelo governo espanhol, sobretudo a reforma trabalhista, são medidas essencialmente ideológicas — e não têm nada a ver com ajustes técnicos. “Estão utilizando a crise como argumento, e aproveitando-se do medo gerado pela recessão, para levar a cabouma reforma ideológica que não resolverá o problema financeiro da Espanha nem reduzirá o desemprego dos espanhóis”, critica.

“A reforma trabalhista foi pensada para favorecer os empresários, pois afrouxa os direitos trabalhistas e acaba com os avanços sociais que obtivemos nos últimos 25 anos.”

Paz em risco

De acordo com o secretário da CCOO, os responsáveis pela crise — que saíram de seu nicho financeiro e cada vez mais estão assumindo funções de governo — possuem dois objetivos: impor aos países europeus políticas de ajuste que beneficiam a si mesmos enquanto sacrificam a maioria da população; e destruir o modelo europeu, que até então era socialmente muito avançado.

“Querem amentar as desigualdades e executar uma mudança de modelo que acabe com as instituições básicas do estado de bem-estar, privatizando e reduzindo os serviços sociais”, avalia. “Mas o grande problema é que esses governos parecem não saber que estão colocando em risco a existência do euro e, mais grave ainda, da própria União Europeia. Agora, não parece muito vatajoso fazer parte da UE, mas não podemos negar que se tratou do invento político mais importante do século 20.”

Javier Doz lembra que, antes da formação do bloco, a Europa havia produzido os maiores horrores que a humanidade jamais viu: duas guerras mundiais e o holocausto. Em grande medida, analisa, a UE foi uma resposta conjunta para evitar novas “hecatombes” e construir um continente de paz e prosperidade. “Eis o verdadeiro espírito da União Europeia, e é isso que estão destruindo. Deveríamos encontrar meios democráticos para tirá-los do poder.” —@tadeubreda

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Um comentario para "Sindicatos espanhóis preparam novos protestos em 1º de Maio"

  1. egle e siquera disse:

    Tadeu
    Vou compartilhar no Face.Muito bom.
    Abrs,
    Egle

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