Câncer: quando o trem escapa a seu destino

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Dados demonstram: diante da doenças, alimentação e atitude têm enorme potência para alterar qualidade e expectativa de vida

Mauro LopesSylvia Lopes*, no blog HojeTem

“… não existe na natureza nenhuma regra fixa

que se aplique igualmente a todos.

A variação é a própria essência da natureza.

Na natureza, a mediana é uma abstração,

uma ‘lei’ que o espirito humano procura aplicar

sobre a abundância dos casos individuais”

David Servan-Schreiber,

em Anticâncer, prevenir e vencer usando nossas defesas naturais

Há um poema que narra a viagem de um trem que uma manhã saiu da estação com destino à cidade de Omaha, no Estado do Nebraska, EUA. Em algum momento, o maquinista perde o controle e o trem lança-se a toda velocidade cortando as pradarias do oeste americano. O narrador, no poema, sabe que o fim será a morte para as pessoas e o ferro-velho para o trem. Ele pergunta ao vizinho para onde ele vai. O homem responde: para Omaha, como todo mundo. Mas o outro sabe que o destino final não seria Omaha.

A verdade é que estamos todos no mesmo trem, a caminho do mesmo fim — e não é Omaha. O fato de uns terem um diagnóstico que anuncia seu fim não quer dizer que os outros terão destino diferente. Mas aqueles que não têm o diagnóstico em geral pensam que a morte está tão longe que não é seu destino. As previsões e estatísticas sobre as pessoas acometidas pelos mais diversos tipos de câncer costumam funcionar como um timer para o fim da vida. Ao receber um diagnóstico tão angustiante, as pessoas desejam saber quanto tempo ainda lhes resta, e para ter uma resposta real é preciso olhar para si e para o cenário completo, sabendo qual é o destino final, mas sem se render ao timer.

Tomemos como exemplo um tipo de câncer no qual a sobrevida determinada pela mediana seja de um ano. Isto significa que metade das pessoas devem morrer antes de de um ano, mas também significa, obrigatoriamente, que a outra metade das pessoas morrerá depois de um ano. Há uma longa “curva direita”, que pode se prolongar muito além deste ano, e não há nada que destine a pessoa a estar do lado esquerdo da curva, condenada a um único ano.

Você é um ser único, a grande questão é decidir em qual lugar deseja estar, um lugar que lhe torna próximo de todos, especialmente de todos que estão acometidos da mesma doença que você, mas ao mesmo tempo é só seu, dentro do leque das variações em torno da mediana!

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É possível fazer algo? Tomar atitudes que nos levem para a “curva da direita”? Podemos fazer algo para ajudar nosso organismo a curar o câncer? Sim!

Em 2005 o Dr. Dean Ornish, médico precursor da medicina complementar, fundador do Instituto de Pesquisa Preventiva em Sausalito e professor de medicina na Universidade da Califórnia, publicou a primeira evidência concreta — na verdade a primeira prova — de que o estilo de vida interfere diretamente no prognóstico do câncer (1). A pesquisa foi feita com 93 homens portadores de câncer de próstata precocemente diagnosticados e que fizeram a opção, em conjunto com seus oncologistas, de não fazer intervenção cirúrgica, preferindo o controle da evolução do câncer através da evolução de resultados do PSA (sigla em inglês para Antígeno Prostático Específico). Esses homens escolheram não fazer nenhum tratamento convencional, por isso foi possível propor outro caminho e avaliar seus benefícios, independentemente de medicações.

O grupo foi dividido em dois: metade manteve seus hábitos e a outra metade seguiu um programa de saúde física e mental estabelecido por Ornish. Os homens participantes do programa de Ornish deveriam observar as seguintes orientações:

  • ter uma dieta estritamente vegetariana complementada por vitaminas E e C, selênio e ômega-3;
  • praticar atividade física 30 minutos por dia, 6 vezes por semana;
  • fazer exercícios de gestão do estresse como yoga e meditação;
  • participar por uma hora semanalmente de um grupo de apoio com outros pacientes do mesmo programa.

Um ano depois os homens foram reavaliados e os resultados comprovaram a hipótese de Ornish:

Daqueles que não mudaram seu estilo de vida:

  • 6 tiveram seu câncer agravado e precisaram fazer ablação da próstata, quimio e radioterapia.
  • houve no grupo um aumento médio de 6% nos resultados do PSA e precisaram deixar a pesquisa para tentar outros tratamentos para a doença.

Daqueles que participaram do programa:

  • nenhum precisou fazer oblação, quimio ou radioterapia
  • houve queda média de 4% nos resultados do PSA
  • num teste em laboratório ficou provado que o sangue desses homens, uma vez posto na presença de células cancerígenas apresentou sete vezes mais capacidade de inibir o desenvolvimento dessas células, se comparado com teste idêntico realizado com o outro grupo.
  • quanto mais os homens seguiram o programa, incorporando as prescrições às suas vidas diárias, mais seu sangue ficou ativo contra as células cancerígenas; em termos científicos, tiveram um ótimo “efeito dose-resposta”.

Para entender como o organismo se comportou, para evidenciar tamanha disparidade entre os grupos, Dean fez um outro experimento, publicado em 2008 (2). Foi colhida amostra de RNA de um grupo de controle antes da experiencia e outra foi colhida três meses depois. O resultado foi a alteração em mais de 500 genes em função da mudança do estilo de vida: o programa estimulou os genes que têm papel preventivo e inibiu aqueles que favorecem o desenvolvimento da doença.

Veja a seguir um breve documentário sobre a pesquisa e depoimentos dos médicos envolvidos. As descobertas feitas por Ornish são um marco na história da medicina.

Pra resumir: na mesma mediana com duas distintas curvas estão as pessoas que continuaram a se expor a fatores agravantes como a dieta ocidental típica combinada com vida estressada e sedentária, e pessoas que somaram ao tratamento médico tradicional novos padrões que fortaleceram seu organismo para batalhar contra a doença; mudaram seu hábitos respeitando regras simples:

  1. desintoxicação das substâncias carcinogênicas
  2. alimentação anticâncer
  3. pacificação do espírito
  4. atividade física

Cada um destes itens será detalhado nos próximos posts. Por hora sabemos que nenhuma abordagem natural é capaz de curar o câncer sozinha; também sabemos que não há destino fechado para ninguém!

(1) Ornish, D., G Weidner, W.R. Fair, et al., “Intensive Lifestyle Changes May Affect the Progression os Prostate Cancer” Jornal of Urology 174, no.3 (2005): 1065-69 discussão 9-70.

(2)Ornish, D., M.J. Magbanua, G. Weidner, et al., “Changes in Prostate Gene Expression

Fonte: Anticâncer, Prevenir e Vencer usando nossas defesas naturais – David Servan-Schreiber – 2009

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Um comentario para "Câncer: quando o trem escapa a seu destino"

  1. Vladimir Colli de Souza disse:

    Excelente reportagem.Parabéns pela oportunidade do tema.

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