Poesia e consciência na noite de Maun

Em Botswana, um país africano cada vez mais conhecido pela qualidade de sua poesia, relato de uma noite em que a palavra recitada convida a mudar o mundo

Por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Projeto Afreaka

Simultaneamente em 95 países, alguém se destacou em meio à multidão e todo o resto parou para admirar: uma poesia estava para ser declamada. ‘100 Mil Poetas para a Mudança’ é o nome do evento que no dia 29 de Setembro reuniu artistas dos cinco continentes em nome da mesma causa: mudar o mundo através da palavra recitada. E em Botswana, um país que começa a ser cada vez mais conhecido pela qualidade de sua poesia e de seus poetas, o assunto foi levado a sério. Na capital nacional e internacional do estilo, Maun, 20 dos melhores artistas do país se juntaram para ministrar uma noite memorável.

Na cidade, que é conhecida por ser o ponto de entrada e saída para a principal atração turística do país, o Delta Okavango, um mundo, que nada tem a ver com animais e safaris, acontece no jardim de um dos hotéis locais. Beirando um riacho, dez longas mesas cobertas de branco e vermelho estão posicionadas de frente para o palco e para dois telões que exibem fotos das recitações dos últimos eventos. Ao lado, um banner: “Esta noite é a sua noite e você vai mudar o mundo através da poesia”.

A organização Poetavango – Falando pela Poesia é quem está hospedando o festival e junto com a sociedade de Gaborone Poetry for Thought formam a principal corrente de poesia do país. Entre apresentações de seus membros e de outros convidados especiais, a noite vai tomando forma sob o comando interativo de Legoledile “Dredd X’, o apresentador da festa e também o fundador da Poetavango. Para ele o evento simboliza a criação de uma única unidade e de uma força conjunta para a promoção da palavra falada e para mudanças positivas no mundo. Afinal é esse o tema da noite e é sobre isso que todos os poetas seguem declamando.

Cada um traz o seu desejo para o palco, entre os mais aclamados está o intenso Goodwill, que combina em sua poesia citações das contradições do mundo e o refrão: “Why Us? Are we the lucky generation or are we the last generation? (Por que nós? Seremos a geração da sorte ou seremos a última das gerações?). Mais tarde sobe ao palco Leshie Lovesong, uma das mais esperadas pela plateia. Mesclando música e poemas em um ritmo envolvente, o público, que por nenhum momento da noite deixou de interagir delira com seu desempenho.

No intervalo, os espectadores são convidados a subir no palco e arriscarem uma performance. Entre os voluntários, uma ‘barbie girl’, que levanta e declama uma poesia para lá de ritmada defendendo o seu polêmico estilo de vida, onde tudo vale por uma Mercedes. Entre risadas e frases de inconformidade, a ousadia é um sucesso. Hoje, o que importa é a poesia. E ela o soube fazer.

Depois do intervalo, um dos destaques é a miúda Kefilwe Mathlo, que também é representante da segunda força poética do país “Poetry for Thought”. Ela recita duas poesias, a primeira sobre o problema territorial indígena do povo San e a segunda sobre violência sexual. Ambas tocam profundamente a plateia e assim que ela sai do palco muitos dos convidados fazem questão de cumprimentá-la. “A poesia é onde eu posso dizer o que está na minha mente, é onde eu posso dividir sentimentos, é onde eu começo incutir mudança e onde eu posso dar esperança. Você sabe, eu nunca na minha vida achei que iria longe, mas através da poesia eu aprendi muito. É um jeito de atravessar as minhas portas fechadas”, ilustrou a poetisa.

A noite vai caindo, o frio que vem do rio vai ficando cada vez mais intenso e os panos que antes cobriam as mesas agora são cobertores. Mesmo assim, o primeiro a ir embora só o faz depois da última poesia. A paixão pela palavra falada parece ter aquecido o sangue dos Tswanas, que aos poucos se despedem do evento. Os artistas têm todos sorrisos discretos nos rostos, a noite foi sucesso e eles sabem disso. Afinal, além da celebração ao poema declamado e às mudanças que estes podem incitar no mundo, a passagem também significou uma importe guinada para região do Okavango Delta, que deixa a certeza de não ser feita apenas de paisagens bonitas, mas de lugares, pessoas e eventos vibrantes no mundo da arte e da cultura.

Maun: Capital da Poesia from site AFREAKA on Vimeo.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

2 comentários para "Poesia e consciência na noite de Maun"

  1. pois é, em meus idos anos de adolecente, conhecia uma Africa onde a ideia era de filmes de tarzan (negros tribais-cara pintada) johny Weshysmüller, depois percebi com um poeta , Ele Semogue , que disse em um poema, em alusão a Africa, " um dia hei de visitar e beijar aquele chão, na certeza que vou me sentir em casa", voltei meus sentidos para aquele continete e hoje lá tem poesia, sei e com satisfação que a mama Africa , é minha origem e segunda pátria, de algum ponto do continente, mas vim dali. Aproveito o ensejo para dizer: somente a Nigéria como esta independente, tem um contigente de homens negros maior que o meu BRASIL, MINHA PÁTRIA AMADA….. " se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu t daria" ( Joaquim Jose da silva Xavier)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *