Os segredos da Europa Fortaleza

Dois projetos votados a toque de caixa podem tornar continente ainda mais inacessível para pobres e instalar novos sistemas de vigilância e controle sobre cidadãos

Por Antonio Martins

Chamam-se Eurosul e “Fronteiras Inteligentes”. Entrarão em debate no Parlamento Europeu no próximo dia 10, sem que os eurodeputados tenham muita margem de manobra para alterá-los. São os dois novos projetos que, desenvolvidos por tecnocratas da Frontex, (a agência europeia de vigilância das fronteiras, com sede em Varsóvia), pretendem tornar mais intransponíveis as fronteiras europeias — recorrendo para isso à coleta de dados pessoais dos viajantes e até ao uso de aviões teleguiados (drones). Uma reportagem sobre ambos, assinada por Frank Mulder, está disponível no site da rede PressEurope.

O primeiro projeto, Eurosul, deverá estar implantado em menos de um ano — até 1º de outubro de 2013. Ao custo estimado de 340 milhões de euros (analistas preveem que “aditivos” deverão duplicar ou triplicar este valor), estabelecerá padrões únicos de vigilância sobre todas as fronteiras do Velho Continente, obrigando os Estados a trocar permanentemente informações sobre os visitantes que chegam à Europa. Parece destinado a enquadrar nações que servem supostamente, por seus sistemas policiais antiquados, de “porta de entrada” para os imigrantes de regiões do mundo mais pobres. Os drones, por exemplo, serão utilizados para localizar africanos que tentam cruzar o Mediterrâneo.

A segunda iniciativa, ainda em fase inicial de implantação — e, por isso, mais suscetível a pressões sociais — é complementar ao Eurosul e viola claramente os direitos à privacidade. Sob proteção de um nome simpático (“Fronteiras Inteligentes”), as autoridades de segurança do Velho Continente pretendem submeter todos os visitantes não-europeus a coleta e armazenamento de um conjunto de dados. Cada pessoa que ingressar na Europa será fotografada, escaneada para coleta de dados biométricos (como impressão digital), inquirida sobre local de permanência e pessoas com quem fará contato.

Os mesmos dados serão colhidos na saída. Pretende-se, com a dupla coleta, verificar que pessoas permanecem na Europa de forma ilegal. Em teoria, o sistema também permite lançar buscas a todos os visitantes cujo período de estada no Velho Continente tiver expirado.

A multiplicação invasiva dos mecanismos de controle das fronteiras europeias já é tema de diversos estudos. O filósofo holandês Huub Dijstelbloem, por exemplo, é autor de Migration and the new technological borders of Europe [Migração e as novas fronteiras tecnológicas da Europa], disponível na internet (inclusive para leitura parcial gratuita). Para ele, o sentido das novas medidas é claro: “O controle das fronteiras converte-se numa máquina onipresente, imperceptível, que divide constantemente as pessoas entre desejáveis e indesjáveis (…) Estamos passando da Fortaleza da Europa a uma sociedade de vigilância”

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Um comentario para "Os segredos da Europa Fortaleza"

  1. sylvia olveira disse:

    O sistema é mais amplo do que parece e envolve uma trama de espionagem contra estrangeiros em geral.
    Buscarei explicar melhor como funciona. Existe de fato uma rede de bancos de dados gigantesca multibilionária, que coleta dados de todos os cidadãos e os relacionam com todos os tipos de informações. A iniciativa é compatível com o que foi feito antes da segunda guerra mundial com todos os ativistas políticos e outros grupos étnicos sendo perseguidos e humilhados sistematicamente. Seria melhor até dizer que o neo holocausto já está em andamento, mas de forma sutil e silenciosa aos olhos da mídia e das ongs quase todas falidas. Os danos morais à que eles denominam “culpas”ou ainda “dívida” se acumulam sejam os cidadãos legais ou não.
    O ataque é tão intenso que até pessoas alóctones casadas com locais estão sofrendo, incluindo seus familiares e até crianças nas ruas e nas escolas.
    Todo o sistema é bem protegido por “certos” locais que insistem em colocar, desde início de cada conversa ou reunião, “de onde você vem” seguido de um olhar de reprovação. Não importa de onde venha sempre ha algo de errado em se vir de outro lugar.
    Há também os ataques brutais dos “hooligans” que não se caracterizam sempre como o que esperado dos neo Nazis. Vai mais além e passa a ser generalizada a brutalidade. Passando por gente te dando informações erradas em órgão de defesa das minorias até violência gratuita pelas ruas. Em poucas palavras seria assim: você parece diferente mas quer fazer uma coisa que te agrada…na realidade atual, só pode se você se enquadrar dentro de um certo “conceito previamente estipulado”. Se sua aparência um qualquer insegurança não se enquadram, você é excluído na maior cara de pau.
    E indignado você procura um órgão de defesa como o ART1 aqui na Holanda e eles se incumbem de anotar sua reclamação e fica por aí mesmo.
    Eu já estou colecionando histórias de amigos e conhecidos me contam, dividindo comigo como se eu pudesse ajudá-los.
    Resumindo, os dados pessoais são armazenados e as pessoas se comportam como se nada mais fosse importante a não ser a si mesmas e suas fotinhos alegres no face book. Enquanto isso o fascismo é implementado de forma branda e gradativa sem para para repensar os direitos humanos que estão sendo atropelados.
    Direitos humanos é do que eu estou falando, está na constituição de cada país, mas este não mais vigorará. Isso já aconteceu na história e é supostamente algo superado.
    Por favor, vejam o que é noticia sobre a negação do holocausto por parte de políticos liberais e conservadores europeus.
    Uma mensagem de final de desabafo: Unam se e lutem por direitos humanos ou voltem para as ex colônias.
    Seria melhor até dizer que o néo holocausto já está em andamento com a nova ordem, mas de forma sutil e silenciosa aos olhos da mídia e das ongs quase todas falidas. Mas definitivamente danosas aos imigrantes, legais ou não.
    O ataque é tão intenso que até pessoas alóctones casadas com locais estão sofrendo, incluindo seus familiares e até crianças nas ruas e nas escolas.
    Todo o sistema é bem protegido por locais que insistem em colocar, desde início de cada conversa ou reunião, “de onde você vem” seguido de um olhar julgador.
    É este o nosso cotidiano e eu não estou feliz com isto.

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