"O sangue errou de veia e se perdeu"

Nos balanços do 11 de Setembro, sinais dos desencontros dos Estados Unidos — e de que Immanuel Wallerstein pode estar certo, quando fala em declínio estrutural do país

 

Entre as dezenas de balanços publicados nos últimos dias, dez anos após os atentados da Al-Qaeda contra as Torres Gêmeas e o Pentágono, dois ao menos merecem ser lidos atentamente. Vêm de origens distintas, mas são complementares. Quem os lê não pode deixar de recordar uma hipótese formulada quase solitariamente pelo sociólogo Immanuel Wallerstein, há cerca de dez anos. Segundo ele (veja, por exemplo, neste artigo recente), razões estruturais reduzirão progressivamente o papel e a influência internacional dos Estados Unidos; e tal processo não poderá ser detido por líderes esclarecidos.

O primeiro texto é um longo editorial da revista Economist. Ao longo de três páginas, ele traça um vasto panorama do que mudou no cenário internacional, ao longo da última década. Suas conclusões básicas são: a) do ponto de vista militar, os Estados Unidos estão vencendo a guerra contra os seguidores de Bin Laden. O assassinato do ícone da Al-Qaeda foi apenas um, entre uma série de episódios que debilitaram e desorganizaram a rede terrorista; b) no entanto, o objetivo político principal dos atentados de 11 de Setembro parece alcançado. Além de reconstruir o califado — sua contra-utopia regressiva — Bin Laden pretendia envolver Washington numa série de “guerras sangrantes” no mundo islâmico. Até o momento, ao menos, ele o conseguiu.

Economist demonstra que os ferimentos causados por estas guerras são muito profundos no mundo árabe, mas vão além. No Iraque, após sete anos de lutas extremamente desgastantes, os Estados Unidos estão à beira de uma retirada que deixará no poder um governo próximo a seu principal adversário estratégico na região, o Irã. Na Ásia Central, há o risco de um tropeço ainda mais grave. Washington deslocou o combate ao Talibã do Afeganistão para o Paquistão (onde aviões-robôs perseguem e matam supostos militantes da Al-Qaeda, e onde Bin Laden foi liquidado numa operação que humilhou governo e exército nacionais). Ao fazê-lo, está prestes a converter em inimigo um país muçulmano de 190 milhões de habitantes, de dificílima governabilidade e dotado de arsenal nuclear.

Estes dois fracassos tiveram ao menos três consequências globais devastadoras. Financeiramente, as guerras custaram cerca de 4 trilhões de dólares, multiplicando um déficit externo que enfraquece e paralisa politicamente os Estados Unidos. Do ponto de vista estratégico, esgarçaram capacidade de ação da OTAN, a principal aliança militar liderada por Washington. A recente vitória na Líbia, frisa a revista, é um fenômeno menor. Muito mais profundos são os sinais de desentendimentos entre os EUA e seus aliados europeus, presentes no Iraque e no chamado Af-Pak. O atoleiro em duas guerras coincidiu com o grande avanço da China. Um diálogo real ilustra este contraste. Certa vez, conta Economist, o então presidente Bush perguntou a seu colega Hu Jintao o que lhe tirava o sono. A resposta foi imediata. Enquanto o presidente chinês mobilizava-se para “criar 25 milhões de empregos por ano”, o chefe de Estado dos EUA tinha pesadelos com a hipótese de um novo ataque terrorista maciço…

Embora sem a mesma profundidade de Economist, editorial de Prospect, uma excelente publicação ligada ao universo da esquerda norte-americana, tem o mérito de mostrar que havia alternativas. Dez anos atrás, à época dos atentados, os Estados Unidos receberam solidariedade internacional generalizada. Seu supremacia era clara e seu prestígio ainda se alimentava da vitória na Guerra Fria.

Dominado pelos neocons — a ultradireita militarista norte-americana –, o governo Bush transformou rapidamente estes trunfos em desastres. Ele aproveitou-se do clima de unidade nacional gerado em 11 de Setembro para atacar o Iraque com base em mentiras (a suposta existência de um arsenal de armas de destruição em massa). Além disso, autorizou práticas (a tortura sistemática e a criação da prisão ilegal de Guantánamo) que lançaram na lama o prestígio internacional dos Estados Unidos. Barack Obama não foi capaz de levar adiante seu discurso de desmantelar esta herança maldita.

É neste ponto que o exame do 11 de Setembro convida a estudar mais a fundo Wallerstein. Porque não se trata apenas de um fracasso de Obama, mas de fenômenos profundos, nos Estados Unidos. A mobilização social intensa e inovadora, que derrotou o establishment dos dois grandes partidos em 2008, e permitiu a vitória de um presidente improvável refluiu logo após as eleições.

Nos últimos três anos, a sociedade foi galvanizada por um conjunto de ideias ultra-conservadoras — expressas por movimentos como o do Tea Party (foto acima). Individualismo. Desconfiança em relação às ações coletivas (e, portanto, ao Estado). Xenofobia (numa nação que se tornou forte graças à diversidade étnica e cultural). Indiferença diante das desigualdades crescentes (semana passada, Rick Perry, o candidato republicano mais forte à sucessão de Obama, declarou, num debate, que a seguridade social é “uma mentira monstruosa para nossas crianças”…)

Como frisa o próprio Wallerstein, nada disso é motivo de comemoração. O predomínio de ideias ultra-conservadoras, no país mais rico e poderoso do planeta, é um fator permanente de risco, num cenário internacional cheio de promessas — mas também de ameaças. Talvez seja, contudo, um dado da realidade. Como enfrantá-lo?

Wallerstein sugere deixar de lado uma ideia simplista, segundo a qual a decadência política de um país identificado com o que chamamos de imperialismo é, por si mesmo, algo útil. Ele propõe, como alternativa, “análises muito mais sóbrias e de longo prazo (…)   ação política muito mais efetiva no esforço de criar, nos próximos 20 ou 30 anos, um sistema-mundo melhor do que aquele em que estamos hoje enrascados.”

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Um comentario para ""O sangue errou de veia e se perdeu""

  1. Carlos Jara disse:

    El 9/11 aceleró el movimiento del tiempo. Los medios de comunicación lo transformaron en un evento global. Muy pocos pudieron escapar de sus imagenes macabras. No significo el principio de las mentiras imperiales, pero sí de las grandes falsedades, como las propias torres. Tanto dinero gastado en guerras, para sostener con sangre una hegemonía que, al contrario de lo buscado, se debilita, pierde credibilidad. Nos inyectaron por dentro el miedo al terror, que viene de todos lados. Hay una fabrica de mentiras organizadas que nos dispara indignidades. Me duele la muerte de los que cayeron el 9/11, tanto como los 50.000 que cayeron en los últimos meses en Lybia. Todo un poderío tecnocientifico al sevicio de la muerte, y la acumulación. No paramos de engordar la propia decadencia.

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