O poeta que abriu a universidade aos quadrinhos

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O marxista Cirne foi um dos primeiros a rejeitar equiparação das HQs a "mero entretenimento" (Foto: Kamilo Marinho)

O marxista Cirne foi um dos primeiros a rejeitar equiparação das HQs a “mero entretenimento” (Foto: Kamilo Marinho)

Apaixonado por cultura popular e revolução, Moacy Cirne desafiou acadêmicos a examinar gênero literário que muitos tratavam com desprezo. Sua “semiologia materialista” sugeria repensar papel do artista

Por Carolina Ito

Conhecido por ser um dos fundadores do poema/processo, o poeta potiguar Moacy Cirne consolidou uma carreira acadêmica na Universidade Federal Fluminense. Lá, converteu-se num dos maiores estudiosos de histórias em quadrinhos no Brasil. Sua obra voltada para a linguagem das HQs é diversificada, com publicações que vão desde os anos 1970 até os anos 2000. Faleceu em 2014, aos 69, e desde então vem recebendo homenagens nos meios acadêmicos por seu pioneirismo enquanto pesquisador deste gênero.

Nas décadas de 1970 e 1980, Moacy Cirne debruçou-se sobre a influência da ideologia na produção e distribuição de obras em quadrinhos, em consonância com os estudos de Comunicação da época. Era algo inovador. Muitos estudiosos relutavam em analisar a narrativa das HQs até a chegada de críticos especializados e o aumento do interesse acadêmico na área de Comunicação, envolvendo o tema da cultura de massa.

O domínio de publicações estrangeiras, principalmente norte-americanas, deve ser considerado um aspecto relevante para compreender as obras de Cirne. Eram essas HQs que influenciavam imaginário da maioria dos leitores brasileiros, por meio de personagens lançados pela Marvel e Disney, por exemplo. O pesquisador procurou valorizar em suas análises publicações nacionais como “O Pererê”, de Ziraldo, e os personagens de Maurício de Souza.

"Crepaxiana", poema/processo de Moacy Cirne

“Crepaxiana”, poema/processo de Moacy Cirne

Ele defendia que os quadrinhos e as produções artísticas, em geral, deveriam ter uma função social no sentido de transformar a realidade. Soma-se a isso o empenho de relacionar o fazer artístico com o materialismo histórico de Karl Marx.

No livro “A biblioteca de Caicó”, de 1983 (editora José Olympio), propôs a formulação do que chamou de “semiologia materialista”, que seria uma maneira de interpretar os aspectos estéticos e ideológicos de uma HQ, a partir de uma leitura marxista.

Para ele, a arte nunca esteve imune à ação da ideologia, portanto, era preciso repensar o papel do artista (incluindo roteiristas e desenhistas de quadrinhos) no sentido de se engajar em uma vanguarda pela transformação da realidade e contra a ideologia dominante.

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Cirne criticava o mercado “enlatado” dos quadrinhos populares da época

Ao mesmo tempo em que o pesquisador estava ligado às estrategias da esquerda da época, também estava preocupado com as mudanças culturais e as novas manifestações nas artes – e talvez daí tenha surgido o especial interesse pelas histórias em quadrinhos, uma vertente que seria “filha” da cultura de massas e que, por muitos anos, foi rejeitada no meio acadêmico e encarada como uma forma de comunicação voltada unicamente ao entretenimento.

Cirne teve uma contribuição muito importante se posicionando contra o preconceito de que os quadrinhos reproduzem um hábito de leitura superficial, que não desafiam o leitor por serem “mais fáceis de ler”. O aumento das prateleiras destinadas aos quadrinhos nas grandes livrarias, com publicações que adquirem cada vez mais qualidade, apenas concretiza a profecia de um pesquisador apaixonado pelas histórias em quadrinhos.

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