"Minha pátria é minha língua"

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A iniciativa do Projeto Rosetta para estudar, registrar e evitar que desapareçam milhares de idiomas ameaçados de extinção

Por Cibelih Hespanhol

No dia 11 de março de 1948, os céus se abriram para Frédéric Bruly Bouabré, costa-marfinense então com seus vinte e cinco anos: “sete sóis coloridos descreveram um círculo ao redor da Mãe-Sol”. Depois desta visão mística, Bouabré tornou-se Sheik Nadro, Aquele que Não Esquece, e dedicou-se a uma missão: salvar a cultura do povo Beté. Bouabré criou um alfabeto com 448 pictogramas (como o da imagem acima), traduzindo em fonemas e desenhos a cultura oral de seu povo, e é hoje conhecido nas principais mostras de arte contemporânea do mundo.

O esforço de Bouabré era uma iniciativa de preservar a língua Beté, em vias de extinção devido à colonização francesa. Hoje, o número de línguas extintas já chega às centenas. Especialistas estimam que mais de 3000 línguas estejam em perigo, o que equivale a 46% de todos os idiomas conhecidos na Terra.Frente a esta realidade, a organização Long Now Foundation criou o Projeto Rosetta, dedicando-se a um trabalho tão relevante para o planeta quanto era o de Bouabré para seu povo africano: construir uma colaboração a nível global, de especialistas e falantes de línguas nativas, com o propósito de estudar e arquivar 1500 idiomas. Em seu site (http://rosettaproject.org) o projeto define-se como uma coleção que os criadores gostariam de deixar para as gerações dos próximos séculos e milênios.

130815-RosettaComo arquivo de longo prazo, o projeto apresenta o Rosetta Disk, disco com três polegadas de diâmetro e 14 mil páginas de informações (acima), que, supõe-se, poderá ser lido daqui a milhares de anos, na melhor versão tecnológica da Pedra de Rosetta. “Uma pessoa pode ler em voz alta trechos da Declaração Universal dos Direitos Humanos em sueco ou em Tagalog, por exemplo, e ajudar os linguistas do século 30 a comparar as mesmas palavras em milhares de outras apresentações.”, escreve Michele Lent Hirsch em seu artigo “Can Crowdsourcing Help Save Dying Languages?”.

Em seu trabalho solitário, Bouabré dizia ser seu dever “organizar a sociedade, e assim criar condições para a discussão e a troca entre os que adquirem e os que criam”. O projeto colaborativo do Rosetta Project é um chamado para este dever – um chamado dirigido em escala planetária. Junto com as línguas nativas, culturas regionais de pequenos países são engolidas pela homogeneização disseminada da lógica globalizante. Em seu site, o projeto afirma “ajudar a inverter esta tendência, trabalhando para promover a diversidade cultural e linguística humana, bem como para se certificar de que nenhuma língua desapareça sem deixar vestígios”.

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