Literatura marginal, rotas rebeldes

 

Desprezada pelos acadêmicos empoeirados, ela resgata a vida e a fala das quebradas. Exige, denuncia, mobiliza — mas não perde o sonho, a graça, a busca do belo

@jeanmello12

Assim como a periferia, encontram-se à margem as produções dos militantes da Literatura Marginal. Apesar disso, 2011 foi ímpar para esses produtores de importantes conteúdos, que provocam intelectualmente e mobilizam. Não vem de hoje e nem vai acabar com o passar dos dias.

Desde a zona sul de São Paulo, com Sérgio Vaz e A Cooperifa, até a Zona Leste, com o Suburbano Convicto e os saraus literários articulados por Alessandro Buzo, houve inovações, cultura, manifestações contra os discursos e práticas hegemônicas — sem perder em nada a beleza poética e força das mensagens. Não podemos esquecer também do Ferréz, cujos livros serão tema de meu próximo texto.

“Literatura Marginal”, um termo com diversos empregos e significados, serve para classificar também as obras literárias produzidas e veiculadas à margem do corredor editorial. Não pertencem, ou que se opõem, aos cânones estabelecidos. Seus autores são originários de grupos sociais marginalizados. Ou, ainda, tematizam o que é peculiar aos sujeitos e espaços tidos como “marginais”.

Os que enxergavam o Rap como música de ladrão continuam vendo as obras de arte dos escritores à margem como apologia às drogas ou ao crime. Isso porque ambas têm reivindicações semelhantes. Balançam o sistema da mesma forma.

Literatura feita fora das dependências universitárias… Universo de exclusão…

Literatura Marginal é resistência. Nasce, muita vezes, nos cantos onde pessoas habitam as beiras dos córregos. Lá existem universidades livres. As salas de aula são botecos, em saraus que, além de tudo, geram renda para os comerciantes que moram nas comunidades, e procuram  parceria com iniciativas criativas. Apesar de terem a cada dia mais visibilidade, essas dinâmicas empreendedoras não são valorizadas como aquilo que nasce em outros espaços ditos culturais.

A cultura periférica desperta em ambientes rebeldes, totalmente distintos, por exemplo, das faculdades particulares — onde catracas e cartões discriminam quem não consegue pagar a mensalidade. Também não se afina com o ambiente da universidade pública, de onde as maiorias são afastadas por um processo de seleção arcaico — semana de provas em que não se afere conhecimento, mas fórmulas decoradas nos cursinhos.

Literatura Marginal e Hip-Hop, “Poucas Palavras”… 

Literatura Marginal está em sintonia com direitos humanos. Aqui mesmo, em Outras Palavras você pode acompanhar os ótimos posts assinados por Joseh, que narra a luta de ativistas para valorizar e transformar a vida nas quebradas, lugares em que as casas ainda são de madeira ou de alvenaria e as ruas são de terra.

Não é difícil relacionar a Literatura Marginal com o Hip-Hop. O grupo Inquérito quando lançou o clipe Poucas Palavras, junto com o livro do vocalista Renan, fez homenagem aos escritores e editores de literatura periférica, desabafando com a seguinte frase no refrão: “se a história é nossa deixa que ‘nóis’ escreve”.

Participam do clipe Sérgio Vaz, Ferréz, Alessandro Buzo, Toni C., Sacolinha, entre outros, além de artistas da cultura hip-hop que muito têm feito pela história do movimento, seja através da dança (como Nelson Triunfo), do conhecimento (como King Nino Brown), da comunicação (como Alexandre de Maio) ou da música e pelas telas da TV (como o MC Max BO).

Literatura Marginal, Hip-Hop e a Mídia do Dinheiro…

Recentemente entrevistei o Urbanista Concreto, escritor Germano Gonçalves. Ele traz algumas referências conhecidas de escritores que, com suas produções, herança do hip-hop e de outras formas de denunciar as desigualdades sociais e injustiças, estão abrindo novos espaços. São citados por intelectuais, influenciam aulas de educadores e pautas jornalísticas até mesmo da velha mídia. Esta já percebeu que quando alguém que nasceu em meio ao povo ocupa um lugar que pode ser observado pela massa, é público garantido. Não é a toa que o Roda Viva com o Mano Brown teve a maior audiência do ano, em 2007. Já leu a entrevista que o mesmo Mano Brown — disputado a tapas pela mídia do dinheiro — deu para Folha de São Paulo?

Já em publicações críticas e alternativas encontram-se quem brigue para multiplicar informação e reflexão sobre temas de favela — que não dizem respeito apenas aos que moram lá. Um exemplo é Caros Amigos, que publicou edições específicas sobre Literatura Marginal.

Intituladas “Caros Amigos/Literatura Marginal: a cultura da periferiaforam publicadas em 2001, 2002 e 2004. Reuniram 48 autores. Foi um espaço fundamental para disseminar autores que convivem diretamente com situações de marginalidade social e podem retratar de modo fidedigno o que acontece nas favelas do Brasil. Mesmo assim, ainda hoje, produções de extremo talento e ampla qualidade ainda estão jogadas à margem (social, editorial e jurídica).

Foi a partir dessas publicações que a Literatura Marginal passou a ter visibilidade fora dos antros da favela. Esses documentos serviram sistematicamente para demonstrar que a marginalidade em cada escrito nos aproxima dos guetos que se formam, da violência e desigualdades sociais em cada cidade brasileira. Em São Paulo o morador do Grajaú – um dos bairros mais pobres da cidade – quando pega um ônibus está em vinte minutos na Berrini, avenida de grandes prédios e empresas com faturamento de bilhões de dólares. Quer violência maior que essa?

E não adiantaria um escritor marginal usar em suas produções linguagem erudita. Com textos coloquiais, tenta-se estimular os que não costumam ler e “consumir” a literatura que tenta retratar a vida: o cara que pega o busão lotado, o trabalhador que sai cedo e chega tarde, o servente de pedreiro que carrega muito peso todos os dias para construir casas que ele sonha em um dia morar. Mas também o jovem que luta para entrar em uma universidade e mesmo assim é parado pela polícia a cem metros de sua moradia e insultado como vagabundo.

São várias histórias, grandes e pequenas, que refletem um Brasil com diversas fronteiras, mas que, aos poucos, vem mudando e tendo avanços. O caminho ainda é longo, porém outras versões dos olhares acerca das realidades sociais, culturais e políticas estão sendo colocadas em pauta.

@jeanmello12

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

7 comentários para "Literatura marginal, rotas rebeldes"

  1. É a realidade de quem é povo, somos povo para o povo até que o povo nos reconhece, obrigado por citar o O urbanista concreto, valeu!

  2. Incentivo a literatura marginal ainda é muito pequeno. Ainda não possuo nenhuma obra publicada, senão internet. É muito difícil encontrar patrocínio, mas o que me deixa contente, é que esse cenário está mudando no Brasil.
    (Graone de Matoz, poeta, dramaturgo e romancista brasileiro)

  3. Galila disse:

    Melhor escritor de literatura marginal, na minha opinião, é o Ferrez.
    Muito bons os livros dele, principalmente Capão Pecado

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *