Fliporto: Frei Betto fala de literatura, ditadura e religião

“Eu não nasci frei, mas nasci com fome de justiça e escritor”, diz ele à Feira Literária de Pernambuco, em Olinda

Deepak Chopra realizou ontem, 11 de novembro, em Olinda, a palestra de abertura da Feira Literária Internacional de Pernambuco, cujo tema foi “Cura, transformação e consciência”. O escritor e médico indo-americano defendeu que o poder do pensamento pode moldar a realidade, e que é necessário mudarmos a mentalidade negativista em relação às pessoas e às situações para mantermos o equilíbrio e melhorarmos o mundo.

Hoje, 12 de novembro, tiveram início os painéis da FLIPORTO e foi a vez de Frei Betto, religioso da ordem dos Dominicanos, jornalista, escritor e ativista de Direitos Humanos, falar sobre seu processo de criação literária, ditadura, suas relações com Fidel Castro e Cuba e espiritualidade.

Frei Betto começou sua vida de escritor e jornalista nas páginas da Revista Realidade, publicação progressista que sofreu lobby de censura, perdendo espaço e liberdade durante o período de ditadura. Em 82, ele ganhou o mais importante prêmio literário do país, o Jabuti, com seu livro Batismo de Sangue, posteriormente transformado em filme, uma espécie de autobiografia e relato sobre o período da ditadura militar e morte de Carlos Marighella. Sobre período em que esteve preso (69-73), Frei Betto comentou a dificuldade para obter livros, que eram objeto de censura do governo. Segundo ele, o critério dos militares para proibir uma obra era curioso. Certa vez proibiram um livro sobre “Cubismo” julgando inaceitáveis “livros sobre Cuba”.

Sobre seu processo de criação, Frei Betto compara a uma gravidez: “Geralmente de trigêmeos ou quadrigêmeos. E eu tenho que viver para dar conta dos meus filhos”. Ele conta que certa vez, devido ao hábito de se referir aos livros como prole, foi questionado em um restaurante por uma conhecida sobre a razão de não os ter trazido para jantar, ao que retrucou: “Meus filhos não comem, eles alimentam”.

Para os jovens, começando na carreira literária, Frei Betto ensina: “Se disciplinem para escrever. O dito de que sucesso é resultado de 10% de inspiração e 90% trabalho também vale para a Literatura”. O conselho é seguido pelo próprio escritor, que tem compromissos mensais com três jornais mineiros, uma revista, além de bimestrais com mais duas publicações, uma carioca e outra paulista, e ainda acha tempo para publicar em veículos internacionais. “É uma pressão muito grande escrever artigos, hoje já não faço mais por prazer, mas por dever”. Ele explica que é disciplinado e costuma reservar 120 dias por ano apenas para meditar e escrever.

Respondendo à perguntas do público, fez colocações: “O poder não muda ninguém, faz a pessoa se revelar”; “A razão é o aperfeiçoamento da inteligência”; “Cultura todo mundo tem e não há um cultura melhor que outra. Culturas são complementares”. Questionado acerca de sua religiosidade e relação com a Igreja e com os Dominicanos, acusados de perseguição durante a Inquisição, Frei Betto não se perturbou: “Em todas as instituições há gente íntegra e honesta, mas também há gente safada. A Igreja é uma instituição e como tal ela reflete as contradições da sociedade”.

Defensor da laicização do Estado, ele pontua: “O que está em crise são as religiões e não a fé. Religiões existem há apenas 8 mil anos, espiritualidade há mais de 200 mil.” Observa que a sociedade está vivendo um novo surto de emancipação e que religiões moralistas, restritivas e opressoras estão sendo rejeitadas e que há um problema quando as pessoas transferem sua auto-estima para uma instituição religiosa ou política.

Amigo de Fidel Castro, ele questionou a ausência de liberdade religiosa em Cuba. O líder cubano pediu ajuda no processo de reaproximação com a Igreja e, durante 10 anos, Frei Betto construiu a ponte entre religiosos e governo: “Hoje as relações são excelentes”.

Por fim, Frei Betto criticou o fato de o Brasil ser o único país que passou por ditadura na América Latina e nunca apurou os crimes de Estado cometidos nessa época: “A nação tem o direito de saber o que se passou”. Para ele a história precisa ser esclarecida e é necessário saber o que ocorreu com tantos desaparecidos, para que se possa enterrar os mortos.

Após o painel com Frei Betto, outros se seguiram, debatendo a obra e a pessoa de Gilberto Freyre. O dia acabou com a fala de Derek Walcott, escritor caribenho ganhador do Nobel de Literatura, que discorreu sobre seus poemas e seus conteúdos épicos, e a relação de escritores colonizados com a língua do colonizador – nacional da ilha antilhana de Santa Lúcia, Walcott escreve em inglês.

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2 comentários para "Fliporto: Frei Betto fala de literatura, ditadura e religião"

  1. Paulo disse:

    Uma excelente oportunidade de revisão da conjuntura através do olhar desses ilustres participantes ! Sucesso !!

  2. Ismael disse:

    “A religião institucionalizada está na UTI;ela respira artificialmente.”
    Ismael Gouvêa

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