Durban (III): aquecimento global é agora

As consequências não virão em décadas: estão diante de nós. E atingem principalmente países e populações mais pobres

Há muita mistificação em torno do aquecimento global. Alguns dizem que ele ameaça a vida no planeta, o que é um monumental exagero. Ao longo dos tempos, a temperatura da Terra oscilou muito mais que os 2ºC acima dos quais, supõe-se, poderá haver consequências sociais desastrosas. Mesmo o efeito mais dramático — a elevação do nível dos oceanos — será relativamente modesto, na métrica da biosfera.

Poderá variar entre alguns centímetros e, segundo as previsões mais graves, alguns metros. Mas estudos do geógrafo Aziz Ab’Saber, da Universidade de São Paulo, revelam, por exemplo, que, numa época em que populações humanas provavelmente já habitavam o que conhecemos por Brasil, há cerca de 12 mil anos, o Oceano Atlântico esteve 95 metros abaixo (!) de seu nível atual. A Baía de Guanabara era terra firme, cortada por rios. A natureza adaptou-se às mudanças.

O erro político mais grave, porém, é o de sentido oposto. Há quem julgue que o aquecimento global é ficção inventada por ONGs dos países ricos para constranger as nações “em desenvolvimento” a reduzir sua atividade econômica e perder oportunidades. Orientada por um desenvolvimentismo arcaico, esta visão fecha os olhos a fenômenos que estão em curso. Se não forem detidos a tempo, eles atingirão principalmente os países e populações mais pobres do planeta. Provocarão enormes desastres sociais, desorganizando a produção e desafiando a capacidade de pensar e construir o futuro coletivo.

Michael Greenstone, um economista do Massachussets Institute of Technology (MIT), por exemplo, demonstrou, após uma série de estudos de campo na Índia, que lá o aquecimento global realmente pesa — ao contrário do que ocorre nos escritórios refrigerados dos EUA e da Europa. Os principais atingidos são pequenos agricultores, sem capital para enfrentar secas e enchentes. Após anos de estudo de campo e modelos matemáticos, Greenstone chega a estabelecer uma correlação direta entre a mudança climática e o aumento da mortalidade.

Ainda mais impressionante é uma longa reportagem que acaba de ser escrita por John Vidal, o editor de Ambiente do Guardian. Ao invés de dedicar-se à abstração científica, ele mergulhou na realidade. Em seu trajeto de Londres a Durban (onde está, para cobrir a COP 17), John fez questão de visitar alguns dos ambientes africanos que estão sendo afetados pela mudança climática.

Ele relata, por exemplo, que 40% da população do Egito — exatamente os mais pobres, que habitam áreas vulneráveis no delta do rio Nilo — irão se converter em desabrigados sem-teto e sem-terra. São 31 milhões de pessoas, que já não poderão plantar nas áreas mais férteis do país.

A viagem de John prossegue pelo Sudão, onde as temperaturas chegaram a atingir 63ºC, nos últimos verões. Penetra na Somália, cujas secas, que ocorriam a cada década, agora são anuais, e muito mais devastadoras. Avança pelo Quênia e Etiópia, onde já não se pode plantar café em muitas das terras de onde a planta surgiu e se expandiu para o mundo. Termina na África do Sul, país cujo governo calcula que 100 milhões de pessoas enfrentarão falta e racionamento de água, em meados do século.

Para evitar tais tragédias, alguns estudiosos e ativistas estimam que seria necessário reduzir as emissões de CO2 muito acima do que almeja a COP 17: entre 40% e 50%, até 2020 (veja acima entrevista, em Durban, do embaixador da Bolívia na ONU, Pablo Solón). Não seria realista esperar algo assim dos governos: será preciso enorme mobilização, das sociedades, em todo o mundo. Mas fica fácil perceber, agora, porque mesmo alguns passos tímidos em Durban são tão importantes; e como a mídia comercial está perdendo mais uma oportunidade de oferecer, a seus leitores, uma visão abrangente dos problemas que enfrentamos.

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2 comentários para "Durban (III): aquecimento global é agora"

  1. Tadeu Breda disse:

    Nem é preciso ir até a África para verificar alguns efeitos do aquecimento global. Aqui mesmo, na América Latina, o desaparecimento das neves eternas da Cordilheira dos Andes vem se intensificando ano a ano. Se lembrarmos que os glaciares, como são chamados, garantem o abastecimento de água para as comunidades indígenas e camponesas que cultivam as terras da altitude; e que seu ciclo natural de derretimento e re-congelamento garante a existência de lagos e rios que correm montanha abaixo — veremos que estamos diante de um problema grave. E, como diz o post acima, os primeiros a sofrer são sempre os mais pobres.

  2. Pedro disse:

    A discussão em torno do aquecimento global ganhou força recentemente, mas ao mesmo tempo caiu no descrédito da opinião pública. Ficou uma conversa muito confusa. Principalmente quando começaram a aparecer especulações do tipo “ONGs norte-americanas estão financiando pesquisas” para tentar induzir determinados resultados. Não que esse tipo de coisa inexista, mas a questão climática, até do ponto de vista estritamente científico, é mais complexa.
    Brilhante a iniciativa do cara do The Guardian. Quando falamos em aquecimento global, parece que é algo abstrato, quando na realidade é bastante concreto. É bom que jornalistas como esse tragam exemplos do que está acontecendo em diferentes partes do mundo. Seria muito legal algo do gênero aqui na América Latina, não?
    Agora…com essa crise econômica global, quero ver quais governos estarão dispostos a bancar a necessidade de reduzir emissões. às vezes é trise porque a mudança de paradigma por parte dos que estão no alto escalão do poder parece estar muito, muito longe.

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