De que servem os golpes de Estado

A supporter of Xiomara Castro, presidential candidate of the Liberty and Refoundation party (LIBRE), holds up a poster with the word 'Fraud' written on it, as she demonstrates next to riot police officers standing guard during a protest against the results of the presidential election in Tegucigalpa December 1, 2013. REUTERS-Jorge Cabrera

Honduras: em meio a acusações de fraude eleitoral, relatório revela: elite que derrubou “populista” Zelaya apropriou-se de toda a nova riqueza, desde 2009 

Por Vinícius Gomes

Nada indica que serão bem-sucedidos os esforços das elites de Honduras para “limpar” a imagem do país, após o golpe de Estado de 2009. Sim, as novas eleições presidenciais, realizadas no último dia 24, deram vitória ao candidato governista, Juan Orlando Hernández. Mas multiplicam-se os sinais de fraude. Não partem apenas da candidata Xiomara Castro, esposa do presidente deposto, Manuel Zelaya, e postulante pelo Partido Libre (Liberdade e Refundação). São reforçadas por observadores internacionais como o jornalista austríaco Leo Gabriel, que apontou inúmeras irregularidades, algumas delas bizarras. “Houve pessoas que não puderam votar porque apareciam como mortas e houve mortos que votaram”…

Ainda mais revelador contudo, é um relatório divulgado, dias antes do pleito, pelo Centro para Pesquisa Ecomômica e Política (CEPR), um thinktank norte-americano progressista. Por meio de uma série de estatísticas, o texto ajuda a explicar por que as classes oligárquicas da América Latina odeiam os governos de esquerda, mesmo quando moderados. Elas não toleram as políticas redistributivas (ainda que tímidas) adotadas por tais governos – que rotulam como “populistas”. Quando voltam ao poder, as elites apressam-se em reverter as poucas conquistas sociais alcançadas pelas maiorias.

O caso de Honduras é exemplar. O estudo do CEPR revela que uma das primeiras providências dos golpistas, após derrubar Zelaya, foi promover uma redução do gastos sociais do Estado. No período do presidente deposto, eles haviam crescido progressivamente – de 10,4% do PIB (2005) para 13,3% (2009). A tendência reverteu-se instantaneamente, com os gastos sociais regredindo a 10,9%, já em 2012.

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Não pense que se trata de “austeridade” verdadeira. Em compensação, cresceram, no mesmo período, os desembolsos efetuados pelo mesmo Estado para… pagamento de juros. Ou seja, o dinheiro que faltou para itens como Saúde e Educação foi canalizado para um desembolso que favorece, tipicamente, quem tem dinheiro aplicado em títulos públicos.

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Ao contrário do que vem acontecendo em grande parte da América do Sul (e ocorria também em Honduras, no governo de Zelaya), os índices pobreza e miséria voltaram a subir – respectivamente, 13,2% e 26,3% –, após o golpe. A redução do consumo das maiorias acabou atingindo toda a economia. O Produto Interno Bruto, que avançava em média 5,7% ao ano, no período de Zelaya, passou a crescer 3,5% anuais, após sua derrubada.

As elites estriam conspirando contra si mesmo, ao final das contas? Não necessariamente. Um último dado – o da desigualdade, medida pelo Índice de Gini – é quase um retrato da luta de classes em Honduras, antes e depois do golpe. Sob Zelaya, o indicador caiu de 0,576 para 0,497 (cerca de 10%, em apenas quatro anos). Bastou que assumisse Porfírio Lobo, o governante indicado pelos golpistas, para reverter completamente o cenário, como mostram o gráfico abaixo. Em síntese, o relatório do CEPR demonstra: toda a riqueza nova criada, depois de 2009, foi abocanhada pelos 10% mais ricos.

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