Crônica de um desejo de cidade

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Por trás de um muro de estacionamento, em meio a árvores centenárias e protestos poéticos, São Paulo trama uma vitória contra a especulação imobiliária

Por Gabriela Leite

O último domingo seria abafado para quem caminha pela Rua Augusta, em São Paulo. Um passante desinformado talvez estranhasse a música, que vinha de trás de um muro de estacionamento. Causariam-lhe surpresa as diversas pessoas que entravam por um pequeno portão na vazia rua Marquês de Paranaguá. Aquele portão sempre esteve lá? Se resolvesse atravessá-lo, se assombraria ao perceber que o caminho o levaria a um parque com árvores centenárias. Mas maior que o espanto com o verde, surpreenderia esse visitante todos os outros tons que o coloriam: centenas de pessoas dançando, cantando, ouvindo música, subindo em árvores, balançando ou apenas sentadas, assistindo o domingo passar.

foto: Laurence Triller

foto: Laurence Triller

Ao dar uma caminhada mais atenta, este visitante encontraria ruínas, pedaços de escadas, caminhos que levam a uma pequena casa. Talvez ele não soubesse, mas décadas atrás aquele havia sido o endereço de uma escola francesa de elite — o majestoso prédio onde ela funcionava foi demolido para que não fosse tombado pela prefeitura, por isso tão poucos rastros. Provavelmente o visitante não tinha ideia de que, antes de ser demolido, o prédio fora um cursinho com intensa atividade cultural: palco de shows de grandes artistas como Gilberto Gil, durante a ditadura militar.

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Esta pessoa talvez não soubesse, mas todos aqueles que aproveitavam o domingo sob as árvores eram, na prática, invasores: afinal aquilo que parece um parque é, na verdade, uma área privada, propriedade de duas grandes incorporadoras que têm planos muito menos humanos para o local. O visitante  provavelmente perceberia, ao ver escrito em tantos cartazes e muros, que o que acontecia ali era mais que uma festa: era um protesto.

O visitante ficaria encantado com a quantidade de coisas que é possível fazer em meio a todas aquelas árvores: shows, karaokê, comida, cinema, grafite, jogos de cartas, xadrez, intervenções artísticas, piqueniques — além da alegria de tantos grupos de pessoas sentadas no chão, apenas conversando. Se este visitante fosse de São Paulo, saberia o quanto faltam espaços como estes para que os moradores da cidade possam se sentar e fazer nada.

Durante o último final de semana, todas estas cenas foram realidade — para passantes desavisados, moradores do bairro, frequentadores dos bares da rua Augusta, artistas, idosos, músicos ou crianças. Eram comuns os comentários como “sempre passo por aqui, mas nunca imaginei que houvesse um parque atrás desse muro!” A resistência construída ali por diversos grupos propõe uma cidade feita para seus cidadãos, e enfrenta a desmedida especulação imobiliária que está em vigor na cidade.

Dois acontecimentos importantes deflagraram a luta. Em primeiro lugar, a venda do terreno, que era do ex-banqueiro Armando Conde, para duas construtoras. Cyrela e Setin querem reduzir esse raro remanescente de Mata Atlântica no centro da metrópole a torres de apartamentos ou escritórios, conversíveis em reais — milhões de reais. Têm pela frente um obstáculo: a área verde do parque é tombada e deve ser preservada. Mas sabem como contorná-lo: construindo, em meio ao novo empreendimento, um parque de área muito menor. Talvez aberto, mas certamente privado… De forma, ao invés de bem comum da cidade, a floresta que vive no coração de São Paulo poderia, em breve, ser anunciada como diferencial num mercado imobiliário de intensa concorrência: “Área de Lazer com exclusivo trecho de Mata Atlântica”…

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É possível que, até há pouco, Cyrela e Setim não contassem com outro fator. São os coletivos que dedicam seus fins de semana a cruzar pequenos portões; caminhar por trilhas em meio a ruínas e restos de escadas; dançar, cantar e ouvir música; imaginar shows memoráveis; ou simplesmente  sentar-se à sombra de árvores centenárias para assistir o domingo passar — mas também trocar ideias e traçar planos.

Graças a tais coletivos, a seus protestos um tanto avoados e poéticos, ao fastio da cidade diante de cimento e ofertas imobiliárias, o cenário mudou, nas últimas semanas. Cresceu entre a sociedade uma ideia perigosa: a área de 24 mil metros quadrados vista pelas imobiliárias como sua pode converter-se no Parque Municipal Augusta. Em 27 de novembro, a Câmara Municipal aprovou, em segunda e definitiva votação, a louca proposta. Para ganhar vida, ela depende agora de uma assinatura — a sanção do prefeito Fernando Haddad.

foto: Laurence Triller

foto: Laurence Triller

foto: Laurence Triller

foto: Laurence Triller

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8 comentários para "Crônica de um desejo de cidade"

  1. Paulo Piza Machado disse:

    Assina logo esta porra,Fernando Haddad!!!Pelo menos vc. vai ganhar um tempo para respirar!

  2. Cleir Ferraz Freire disse:

    Caros, estive na festa e aprecio em demasiado espaços verdes.
    Lutei durante muitos anos por parques urbanos, quando trabalhava no Ministério das Cidades com projetos de urbanização de favelas. Mas, neste caso, a escolha é equivocada. Vou explicar minha opinião:
    A mata em questão é secundária em estágio intermediário, não é primária, portanto não pode ser caracterizada como preservação de Mata Atlântica.
    mas a principal questão são os 80 milhões mínimos para implantação deste parque, que beneficiaria número limitado de pessoas e provavelmente teria de ser fechado depois das seis da tarde. Além de valorizar ainda mais imóveis da região que já estão supervalorizados.
    O valor é equivalente a 1500 casas populares.
    A especulação imobiliária tem muitas faces, inclusive a de promover uma área verde nacionalmente para vendê-la a uns privilegiados posteriormente a preços exorbitantes.
    Os defensores do Parque estão na verdade promovendo o projeto de especulação imobiliária de graça para os especuladores ganharem ainda mais. Famosos inocentes úteis.

    • Léo disse:

      Mas a especulação imobiliária na região vai continuar agindo com ou sem o Parque Augusta existindo!
      Somente quando a prefeitura tiver leis rígidas de zoneamento nos bairros, feito com planejamento é que isso não acontecerá…no mais…continua o mesmo!

  3. marcio ramos disse:

    … mais um pq pra rico… antes pq do que predio… valeu a luta!!!
    … e pra periferia? shop shop…

  4. Parque é fundamental. Questão de saúde pública física e mental!
    Quem pode estar contra? O empreendedor – Construtoras que faturam bilhões vendendo verdadeiros caixotes para a população. Que multiplicam as áreas por andares e andares. 25 X a altura ou os seus parceiros, vendedores de imóveis.
    NINGUÉM, mas ninguém mesmo civilizado, culto e inteligente pode concordar com a perda do PARQUE AUGUSTA para a cidade de SP?
    Paris, Londres, NYC e grandes Capitais de alto padrão edificam, adensam mas deixam os respiros, as áres verdes e permeáveis conhecidas como PARQUES.
    A escolha agora é atender a população, ou um especulador?
    A demanda do Parque Augusta é INDISCUTÍVEL e a População, já decidiu. “PARQUE AUGUSTA JÁ! e, como “todo o poder emana do povo” O PARQUE SERÁ REALIDADE!
    CUSTO? Ínfimo em relação ao custo benefício.
    (Combate a enchentes, melhora da qualidade do ar, proteção de avifauna, melhoria da qualidade de vida para todos!)
    Quem afirmou que o Parque é para ricos Não deve conhecer o local ou não sabe o que é riqueza.
    PARQUE AUGUSTA: Direito do cidadão paulistano. Art. 225 da Constituição Federal!!!

    • Cleir Ferraz Freire disse:

      Célia, creio que vc está distorcendo palavras.
      Quando diz que Parque é fundamental, todo mundo concorda.
      O problema não é o Parque em si, mas a destinação de verbas públicas. O empreendedor também não é contra e deve mesmo fazer o parque, mas não nos moldes que a vizinhança quer.
      Provavelmente será um parque com entrada paga e serviços pagos. Se o problema é área verde, então estará resolvido.
      Constroem-se as torres, vendem-se os apartamentos por valores astronômicos, já que estão “dentro” do parque e se lucra bastante. Atende a população, que acha que serviços públicos devem ser privatizados e cobrados e faz a felicidade dos empreendedores.
      E a prefeitura não põe dinheirama pública.

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