África: quando ética e estética encontram-se na pintura

Inspirados num ritual do povo bemba, pintores do Zâmbia reagem à moda ocidentalizante criando quadros e objetos que chamam atenção pela cores e intenso sentido simbólico

Por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Projeto Afreaka

Entre as histórias que se atravessam e os caminhos que se cruzam, escolhidos mais pela vida do que qualquer outro quê, conheceram-se Lawrence e Agnes, enquanto cursavam a faculdade de arte. Do encontro, nasceu um casamento, uma ideia e uma escola de pintura, que viria a se tornar um dos símbolos da arte contemporânea da Zâmbia. Pertencentes ao grupo étnico Bemba, comum no norte do país, os jovens foram convencidos pelas mães a participar da cerimônia tradicional secreta Mbusa antes da união oficial. Terminaram a iniciação apaixonados pelo que tinham aprendido e decidiram trazer para dentro dos quadros tais valores. Assim nasceu a pintura Wayi Wayi, que hoje traduz um forte estilo estético da cultura nacional.

A Mbusa é uma escola ética que prepara jovens, ensinando valores para enfrentar a vida adulta, cuja missão é formar bons cidadãos, pacientes, tolerantes, amáveis, generosos e trabalhadores – tanto na vida a um quanto a dois. Lawrence e Agnes criaram um estilo que através de simbolismos representa as estimas aprendidas durante o processo de formação. Mais do que arte, para o casal, a pintura representa a preservação e identificação de toda uma cultura. “É uma forma de refletir e apreciar o presente e o futuro da arte africana e da Zâmbia, em particular”, explica Lawrence, “como artistas, temos um papel muito importante: lembrar as pessoas do valor de olhar para nós mesmos e de onde viemos. Nós temos valores ricos e importantes, que hoje se aplicados, podem ajudar muito a vida contemporânea”.

Com talento e técnica cheia de engenho, Lawrence Yombwe busca ir contra a onda da promoção da ocidentalização presente nas sociedades urbanas africanas. Voltando às suas raízes, o pintor enlaça um compromisso com a vida e história cultural do país. Os seus quadros, com ricos esquemas de cores e energia, são uma miríade de simbolismos e emblemas secretos – todos com significados camuflados sobre a vida. Um exemplo é o jarro de barro com duas bocas. Durante a Mbusa, o casal é chamado para assoprar uma das aberturas. Primeiro um, depois o outro. Quando assoprada uma boca, a outra libera um som suave. Quando assopradas as duas aberturas ao mesmo tempo, o barulho é desafinado e incômodo. Com o pincel, a simbologia é interpretada e o vaso de duas bocas fica recheado de significados cognitivos.

Na pintura Wayi Wayi riscos podem simbolizar amor, descanso ou cama; a forma da letra “v” simboliza crescimento, divisão ou cabelo; o triângulo é proteção, escudo ou teto. Uma mulher sem os braços significa a motivação para a criatividade e inovação. O raio é movimento, assim como é o rio. O anel pode ser presente, respeito ou ainda a negativa da escravidão. Além das formas, as cores também são envenenadas de significados. O preto é força ou firmeza. O branco é leveza ou presença. O vermelho é perigo. O verde é crescimento, é paz.

Como estilo, Lawrence mistura diferentes técnicas procurando a tradução perfeita da identidade zambiana. A utilização de sacos de armazenamento de grãos como tela é um dos seus pontos mais marcantes, trazendo a obra textura e suavidade únicas, uma vez que o artista realiza a pintura pela frente e a completa, dando os retoques finais, por trás da tela. A tonalidade bege do material é, para ele, outra característica efetiva da analogia buscada que, misturada com o efeito de dupla pintura e da seleção precisa de simbolismos, “consagram na obra todos os elementos necessários da arte”.

A possibilidade de reutilização de materiais também influenciou a escolha do artista, incentivado pela esposa, que trabalha extensivamente com materiais recicláveis, buscando pelas ruas as peças componentes de suas obras. Para deixar claro a originalidade do casal, o toque final da escola de pintura Wayi Wayi fica para o logo, representado por uma churrasqueira. O motivo? “Outras famílias assam carne, nós aqui assamos arte”, explica Lawrence em um tom de brincadeira séria, e finaliza: “a churrasqueira é também um sinal de esperança. Onde existe fogo, existe esperança, luz, um futuro brilhante – a esperança das artes visuais da Zâmbia”.

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