A Suécia ensaia a jornada de 6 horas de trabalho

Manifestação em favor dos imigrantes em Estocolmo (2015): versão igualitária e livre do Estado de bem-estar social deixou raízes na Suécia

Manifestação em favor dos imigrantes em Estocolmo (2015): versão igualitária e livre do Estado de bem-estar social deixou raízes na Suécia

Tapa na cara de quem acredita em “austeridade” e “sacrifícios”: até empresas concluem que trabalhar menos, mantendo o salário, amplia as horas de ócio sem reduzir a produtividade

Pela Redação de Outras Palavras

Símbolos, nos anos 1960 a 80, do Estado de Bem-Estar Social em sua versão mais igualitária, os países do Norte da Europa regrediram muito, neste século. A Suécia tem um governo conservador que colabora estreitamente com os EUA no esforço para manter Julian Assange encarcerado na minúscula embaixada do Equador em Londres. A Finlândia figurou, junto com a Alemanha, na linha de frente dos Estados que impuseram à Grécia, há meses, um recuo humilhante na negociação com seus credores. E, no entanto, algo da antiga tradição distributivista e anti-aristocrática resiste.

Um sinal são os crescentes acordos que estão reduzindo substancialmente, na Suécia, as jornadas de trabalho. Não se trata de mudanças cosméticas: as reduções do tempo laboral para 30 horas semanais (apenas 6 horas trabalhadas, de segunda a sexta) estão se tornando frequentes. Surpresa reveladora: em muitos casos, as empresas aceitam de bom grado a mudança. Ao fazê-lo, revelam na prática como são atrasadas as concepções segundo as quais é preciso “sacrificar-se” em tempos de crise.

Uma matéria publicada. há dias no Independent inglês explica a lógica. Tomando por base três empresas — uma transnacional da indústria com sede em Tóquio e planta em Estocolmo (Toyota), uma desenvolverdora de aplicativos para internet (Filimundus) e a adminstradora de uma casa de repouso para idosos (Svartedalens), o texto revela que as reduções de jornada estão se espalhando por todos os setores da economia sueca. As mudanças comportamentais decorrentes são notáveis e diversas. Mas uma conclusão geral se impõe: a ideia calvinista de que trabalhar mais horas resulta em maior bem-estar tornou-se, hoje, totalmente falsa.

Na Filimundus, inserida no setor emergente da Tecnologia de Informação, o próprio presidente, Linus Feldt, reconhece: “Queremos passar mais tempo com nossas famílias, aprender coisas novas ou nos exercitar mais. (…) Acho que a jornada de 8 horas não é tão efetiva quanto pensávamos”. A redução do tempo diário de trabalho, que foi adotada sem mexer nos salários, teve outro tipo de contrapartida. Recomendou-se, com sucesso (porém sem imposições), que os trabalhadores dispersassem menos tempo nas redes sociais. “Minha impressão é de que é mais fácil focar-se de modo mais intenso no trabalho se você sabe que terá energia quando sair da empresa”, diz Feldt.

Na filial sueca da Toyota, a jornada de 6 horas diárias já completou 13 anos. Os próprios administradores admitem que os trabalhadores estão mais felizes, há muito menos perdas com demissões e a empresa tornou-se capaz de atrair os jovens suecos mais habilidosos. O exemplo da Svartedalens com o cuidado de idosos parece igualmente notável. Ele já inspirou empreendimentos similares — um hospital ortopédico na Universidade de Gotemburgo e a enfermaria de dois hospitais no norte do país — a reduzir em duas horas o tempo diário de trabalho.

As experiências relatadas pelo Independent limitam-se às relações capitalistas. Em todos os casos, empresas cujo objetivo central é o lucro — e não a satisfação dos desejos humanos — ganharam, quando se afastaram da ortodoxia que comanda o sistema, onde ele é mais primitivo. Vale perguntar: até onde será possível chegar, se formos capazes de mudar de lógica, substituindo a expectativa banal do lucro pela busca, compartilhada e consciente, de novas formas de estar no mundo e transformá-lo?

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5 comentários para "A Suécia ensaia a jornada de 6 horas de trabalho"

  1. Saudações Amigos Tudo bem?
    A Minha pergunta
    é bem Básica como faz para fazer um intercâmbio cultural para ir para a suécia?
    Eu tenho uma grande vontade de conhecer os países nordicos e por sua rica cultura, e também vocês conhecem um site de relacionamentos de mulheres deste país?
    Eu fico aguardando a Resposta no meu Email Ok
    Muito Agradecido pelo Contato
    Até Breve
    André

    • Andréa Lopes disse:

      Incrível, André, me parece que você não conhece nada da nossa linda e rica Cultura Brasileira e já está procurando outra, cuidado, por experiência própria, a grama do vizinho não é mais verde que a nossa, o que já provei é mais dura, seca, marrom e amarga…
      Voltei emocionalmente machucada…

  2. Arthur Araujo disse:

    Essa é uma ideia bastante interessante e que tem mostrado bons resultados. Se cada vez mais vive-se avanços tecnológicos, entendo que as máquinas devam executar os trabalhos mais penosos e desgastantes, proporcionando aos trabalhadores menores jornadas de trabalho sem redução de salários ou redução de postos de trabalho. Porém, para que isso se concretize em nível mundial será preciso que haja muita mobilização dos trabalhadores e de suas organizações, bem como uma transformação radical no sistema econômico tendo como objetivo o estabelecimento de uma sociedade justa e igualitária.

  3. Luiz Michelazzo disse:

    Aqui as empresas exigem jornadas de 10 a doze horas de trabalho por dia. Muitos patrões ficam indignados quando a Justiça do Trabalho os obrigam a pagar horas extras efetivamente trabalhadas pelos empregados (que são obrigados a processá-los para receber direitos elementares como esses).

  4. Nil disse:

    http://nordic.businessinsider.com/swedens-latest-six-hour-work-day-experiment-was-a-complete-failure-2016-8
    Jornada de seis horas na Suécia é um completo fracasso.
    E já foi dementido por uma moradora na Suécia que é mentira, todos lá trabalham 8 horas….esse foi um teste que fizeram é não deu o resultado esperado, as baixas por doença, ao invés de diminuir, aumentaram, as pessoas tiveram tempo a mais pra fazer o que quiser, muitos ficaram no ócio sem saber o que fazer e as medidas de felicidade, são indescritíveis e imensuraveis, não tem como eu medir a felicidade de alguem, sendo que este é muito relativo e pessoal.

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