A rebeldia no coração do sistema

Manifestações contra ditadura das finanças crescem em Nova York, espalham-se pelos EUA e promovem encontros políticos que talvez sejam inspiradores em todo o mundo

É provocativo viver momentos que farão história, e tentar compreendê-los. Por suas inúmeras novidades, 2011 será lembrado durante muito tempo — e a partir de agora, há um motivo a mais. Occupy Wall Street, um movimento de contestação do sistema que nasceu com ousadia mas alcance limitado, em 17 de setembro, ganhou nos últimos dias novas dimensões. Inspirado pelas ideias da autonomia e contracultura — mas reforçado por jovens mais movidos pela defesa de seus interesses que pela ideologia anticapitalista –, espalhou-se, no fim-de-semana, por dezenas de cidades norte-americanas: do Texas ao Havaí; de Boston a Memphis. Na segunda-feira, recebeu a adesão de alguns dos maiores sindicatos norte-americanos. Ontem (5/10), já engrossado por este apoio, organizou uma marcha de 15 mil pessoas, em Manhattan.  Ao receber adesões e influências, está se convertendo, antopofagicamente, em algo muito distinto de todas as tendências que o compõem — anarquismo, hippíes, juventude desencantada, trabalhadores organizados. Talvez aí residam sua potência e sua capacidade de contribuir com a construção de uma nova cultura política — uma necessidade que também ficou mais clara que nunca este ano.

Um texto publicado hoje, em nossa revista virtual, ajuda a compreender as origens do movimento. Foi produzido para The Nation por Nathan Schneider, um ativista ligado à cultura de paz e à organização dos movimentos de base (grassroots, no jargão político norte-americano) [e traduzido pela rede Vila Vudu]. Revela que os preparativos para um acampamento próximo ao centro financeiro de Nova York e do mundo começaram em julho. Foram conduzidos por três pequenos coletivos: Adbusters (uma rede global anti-consumista, fundada no Canadá e presente em especial na América do Norte), Day of Rage (uma rede de grupos jovens cujos alvos parecem ser, como na Espanha, os banqueiros e políticos) e Anonymous (uma espécie de guerrilha digital em rede, que luta especialmente pela liberdade na internet).

Redigido na forma de perguntas e respostas, o breve texto de Nathan reconhece que o início foi difícil. Os organizadores esperavam reunir 20 mil pessoas em Wall Street, em 17 de setembro — um sábado. Mobilizaram um décimo disso. Os participantes enfrentaram a vida dura com coragem. Quase todos com menos de 25 anos, dormiram ao frio, em colchonetes finos, sobre o chão da Liberty Plaza (veja o mapa), próxima a pontos por onde trafegam trilhões de dólares todos os dias.

Mas tinham a seu favor dois fatores muito poderosos. Primeiro, o caráter simbólico do ato. Num país em que a direita domina o debate político, acua e coloca em xeque o próprio presidente e conquistou as ruas (por meio do Tea Party), o pequeno grupo de garotos e garotas foi capaz de fazer o que o establishment  progressista não conseguiu. Encarar a onda conservadora, produzir um fato político que revela audácia, convicção e atitude. Tocar simbolicamente, além disso, numa das grandes chagas da sociedade norte-americana: a imensa concentração de riquezas em favor do sistema financeiro, que está ameaçando inclusive os direitos básicos da maior parte da população.

O segundo fator que impulsionou o movimento está relacionado a isso, e é muito concreto. Ao questionar o mercado financeiro, os jovens acampados abriram diálogo com milhões de norte-americanos que estão angustiados com dívidas imobiliárias, junto aos cartões de crédito, ligadas ao financiamento de automóveis ao pagamento de mensalidades escolares e a um enorme feixe de contratos que se relacionam com a garantia da vida quotidiana. Estes milhões de endividados sofrem com a ausência de políticas que aliviem seus dramas, enquanto assistem, há pelo menos dois anos, aos anúncios de socorro público trilionário aos bancos e instituições que… provocaram a crise financeira. Como não se revoltar? “As coisas pioraram tanto que todo mundo quer participar”, contou a repórteres do Financial Times Ross Fuentes, uma garota acampada de 23 anos que integra o Partido do Socialismo Libertário — umas das organizações que se envolveram nos protestos desde a fase mais difícil.

A partir do final da semana passada, chegaram os sindicatos. Havia muitas razões para eles se envolverem, num cenário em que o desemprego ultrapassa 10%, os salários reais caem há anos, os trabalhadores estão muito endividados e não têm nenhuma certeza em relação a seu futuro? As necessidades comuns romperam barreiras. Há várias décadas, as relações entre sindicalismo e movimentos de contracultura são tensas — e conflituosas, na maior parte do tempo — nos Estados Unidos.

Reportagem de Tina Susman, no Los Angeles Times revela: um sinal de que é possível superar velhos traumas surgiu ontem, na passeata em Nova York. Entre as milhares de pessoas, encontraram-se, lado a lado, jovens anticapitalistas e enfermeiras em defesa do sistema de saúde. A fusão e diálogo entre os públicos, notou Tina, apareceu na diversidade das mensagens exibidas pelos participantes: “Havia cartazes protestando contra o racismo, o presidente Obama, os republicanos, os democratas, a fome, as guerras no Iraque e Afeganistão. Em contrapartida, defendia-se os direitos dos trabalhadores, os dos prisioneiros em greve de fome, mais impostos para os milionários e a reestruturação do sistema financeiro”.

Num sinal de que o movimento pode se enraizar, estavam presentes ícones da cultura norte-americana. A presença de Michael Moore (veja seu inspirado discurso acima) era de se esperar — assim como o apoio expresso há dias, ao movimento, por intelectuais de esquerda como Noam Chomsky e Tarik Ali. A novidade foi a participação, na marcha, de atores como Tim Robbins e Penn Badgley.

Se mantiverem esta amplitude, e o foco no sistema financeiro, as manifestações do Occupy Wall Street podem acrescentar um ingrediente novo, a um cenário marcado pelo atrelamento das elites dos países mais ricos a dogmas e por sua irresponsabilidade diante de problemas de enorme gravidade. Também nos Estados Unidos, há sinais de que a opinião pública prefere buscar o novo. A reportagem em que o New York Times registrou a difusão das manifestações revela que em Chicago, como inúmeras outras cidades, a paisagem dos acampamentos é marcada por mesas onde se oferece comida grátis — talvez um símbolo de que relações não-mercantis podem se espalhar. A ideia, que pode ter feito Milton Friedman revirar na tumba, está sendo bem aceita por seus concidadãos. Os gêneros são coletados junto à população. Na segunda-feira (3/2), os organizadores viram-se incapazes de consumir todo o alimento que lhes foi doado, e convidaram os sem-teto para compartilhar a refeição.

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8 comentários para "A rebeldia no coração do sistema"

  1. Nahman Armony disse:

    Fico enstusiasmado e um tanto esperançoso em ver que o povo está se movimentando. Há muito venho pensando que alguma coisa deveria ser feita para combater a injustiça da distribuição de renda. É absolutamente absurdo que os bancos, banqueiros e acólitos se arrisquem em negócios irregulares ou inseguros para a conta de seu fracasso recair sobre os ombros do povo que tem seus direitos sociais diminuídos e a caminho da eliminação. Realmente, é um estado de coisas que não poderia permanecer e que representa um risco não´só para os que não são ricos mas para os próprios ricos que na maioria não percebem o que há de suicídio na sua impiedade. Acho que este movimento é um movimento da humanidade defendendo a sua sobrevivência como civilização.

  2. Arnaldo Azevedo Marques disse:

    “O país a que chamamos Estados Unidos da America do Norte começou sua historia como um apêndice da Europa”. Burns
    O processo civilizatório americano carrega a marca daqueles que sempre almejaram independência, liberdade e auto realização. “Atrás desses ideais, podemos dizer, “fugiram” da Europa”. A liberdade para conquistar sucesso, riqueza sem coerção ou restrições resume o “sonho americano”. Temo que os ideais desses jovens, adbusters, anonymous e similares não serão aceitos pela maioria da sociedade americana. Esta geralmente desconfia de atitudes sociais que abale seu “ethos” como civilização. São muitos os episódios da historia dessa nação que revela a estranheza a comportamentos que fogem de seus padrões. A cinematografia americana está carregada de exemplos reveladores. Um filme que me impressionou até hoje de um simples episodio “Easy Readers” diz muito. A historia do sindicalismo americano como começou e acaba no “sonho americano”. Apesar do que dizem esses jovens sabem bem as causas da crise e o resto ainda “viaja na maionese”. Basta observar o apoio que têm os republicanos. Os guardiões do sonho que já virou pesadelo planetário.
    Arnaldo A. Marques

  3. egle e. siquera disse:

    Ventos da renovação, trazem a esperança de uma quebra no conservadorismo absurdo plantado pelo Tea Party.

  4. João Roberto Barbosa disse:

    É ótimo saber que o povo estadunidense finalmente está acordando e percebendo que a sua “democracia” não é tão democrática nada! É ótimo saber que muitos estadunidenses, especialmente os seus jovens, estão entendendo que eles carregam nas costas o peso da estrutura econômica do capitalismo, das guerras e tantas coisas mais, que beneficiam a um grupo de exploradores que enriquecem à custa deles. “Libertas quae sera tamen!” Liberdade, ainda que tardia! Ou seja: antes tarde do que nunca.

  5. Ley Soares disse:

    Chegou a hora da derrocada do “Capitalismo Selvagem”, que tanto mal fez à humanidade. Responsável por tantas mortes, tanta fome, tantas guerras em busca de poder, de terras, de petróleo, de riquezas diversas. Demorou muito até que os povos enxergassem a selvageria do Capialismo. Parece que agora estão enxergando e se despertando para reivindicar um novo mundo.
    O nosso mundo é pródigo e pode dar uma vida digna a uma população 2 ou 3 vezes maior que a atual. Então por que tanta miséria? Só a ganância do Capitalismo explica isto. Ela cega todo capitalista, que passa a não ver os esqueletos humanos da Etiópia, da Somália, do Sudão, que deprimem qualquer ser humano.
    A maioria dos países pobres da África, da América Latina, da Ásia, não são pobres, são mesmo muito ricos. Apenas estão pobres devido à exploração colonialista de que são vitimas há centenas de anos. E o colonialismo continua: hoje são as multinacionais, os bancos, o sistema financeiro.
    É hora de distribuir renda, ou melhor, de devolver as riquezas roubadas do 3º mundo. É hora de parar de fazer guerras. Elas são todas desnecessárias, desde que não queiramos roubar nada de ninguém.
    É hora de acabar com a ONU e de criar um outro organismo internacional onde todos os países do mundo tenham o mesmo poder. A ONU é uma entidade dominada apenas por 5 países, que têm o direito de veto. Se 200 países votarem a favor de uma medida, e um só votar contra, este único voto será o vitorioso, (se for de um país que tenha o direito de veto). Que belo exemplo de democracia!!!!

  6. Waldemar Branas disse:

    Lamentablemente no comparto vuestras alegrías. El poder mediático del del imperio a nivel nacional e internacional es enorme. La mayoría absoluta del pueblo americano es controlada y defiende el modo americano de vida. Por lo tanto es manipulada y consciente o inconscientemente apoya a sus lideres. El imperio esta sacudido por escándalos y extrañas guerras de saqueo y ocupación. Fuera del desastre ecológico. De todas maneras ….se necesita una crisis aún mayor y que la cleptocrácía sea impedida totalmente de gobernar. No es suficiente con el descontento popular. Necesario si, pero insuficiente.

  7. Sonia P. Laus disse:

    Por coincidência, eu estava lá na semana de 3 a 8 de outubro. No dia 5, quando havia 15 mil pessoas protestando, TODA a polícia estava nas ruas, com carros, cavalos, homens, helicópteros sobrevoando a cidade, o que a transformou em um caos, com o transito parado.
    O que se percebia era uma esquizofrenia de uma polícia preparada para o combate a algo desconhecido, temido por ser novo e inesperado, numa sociedade habituada a se acomodar na defesa de seu status quo e as TVs tratando o acontecimento com certo ar blasé, como se se tratasse de atos de irresponsáveis atrapalhando o transito como o pedreiro da música do Chico.
    Os cartazes davam conta da diversidade de adeptos do protesto, com inúmeras categorias berrando e escancarando seu mal estar. Enfermeiros, professores, bancários, estudantes, aposentados, jovens, velhos, enfim, uma catarse coletiva que falava do susto com o futuro que se avizinha sem perspectiva para os jovens e da indignação de quem pensava que já havia visto tudo. Frases como: “guerra também é terrorismo”; “os professores primários são analfabetos”, “não queremos cortes nos postos de trabalho”, entre outras, escancaravam a diversidade das questões que entraram na pauta com a crise.
    Trata-se de um movimento político? Todos os que estão na rua têm consciência do momento histórico do qual estão participando? Vamos aguardar e acreditar que sim.

  8. PENSADOR disse:

    OS BANQUEIROS BRINCAM DE BANCO IMOBILIÁRIO,COM DINHEIRO FALSO, E NO FINAL TEMOS DE PAGAR A DÍVIDA COM DINHEIRO VERDADEIRO.
    EM MEADOS DE 2008, O MERCADO DE DERIVATIVOS JÁ SOMAVA MAIS DE 500 TRI DE DÓLARES OU 11 VEZES O PIB DO MUNDO DE 45 TRILHÕES DE DOLARES.
    É interessante notar que OPORTAL DA TRANSPARENCIA, iniciativa já consagrada por aqui não tenha, ainda, gerado frutos no exterior.
    Dilma Roussef propôs na ONU a transparencia dos gastos públicos dos países, na NET, como se faz aqui, mas nã fez muitos ouvintes.
    LÁ, NÃO INTERESSA TAMBÉM O POVO SABER QUANTO GASTA COM OS BANCOS.
    Estive lendo,em inglês para mais fidedignidade da informação, um pouco mais sobre a Grécia e vi que seu gasto com funcionalismo é proporcionalmente, muito maior do que o nosso, cerca de 30% da arredadação. Como lá os benefícios de saúde, segurança e educação pública devem ser maiores do que aqui, talvez justifique.
    No entanto, no Brasil, o gasto com funcionalismo foi de R$186 BI ou 12,6% da arrecadação federal.
    Como os juros de até 12,7% não justifiquem os R$600 BI em serviço da dívida, provávelmente multas contratuais pesadíssimas para refinanciá-la corroborem o gasto de mais de R$300 BI somente com refinanciamento da dívida.
    Ora, quando refinancio uma dívida esta não pode ser colocada na aba despesa pois, refinanciar é pagar no futuro. Assim, não justificaria colocar como despesa hoje o que vou pagar amanhã.
    Os gastos brutos do serviço da nossa dívida estão maiores do que os juros do crediário de varejo das Casas Bahia, por ex.
    http://www.portaltransparencia.gov.br/PortalComprasDiretasEDDespesas.asp?Ano=2010&Valor=104495418392574
    No link acima some as nove primeiras parcelas até principal da dívida resgatado e encontrará o total de R$596 BILHOES DE REAIS.
    FAÇA A CONTA = SERVIÇO DA DIVIDA DE 596 BI DIVIDIDO POR 1,5 TRI DA ARRECADAÇÃO EM 2010 E ACHARÁ 39,7%AA DE ENCARGOS.
    Assim, passo-a-passo, também estamos no caminho da Grécia.
    PS. interessante notar que os países que mais crescem no mundo tem a menor carga tributária= INDIA, 12% do PIB e China, 20% do PIB.

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