Argentina e Brasil, juntos, confrontam FMI

 

Batista Jr.: pelas regras atuais, Luxemburgo tem, no Fundo, mais peso que Argentina ou África do Sul

Batista Jr. dispara: pelas regras atuais, Luxemburgo tem, no Fundo, mais peso que Argentina ou África do Sul

No Twitter, Cristina Kirchner associa Fundo a “abutres”. Em Washington, representante brasileiro critica resistência em democratizar organização e fala em “abismo de credibilidade”

Por Antonio Martins

Por algum motivo, você não verá nos jornais comerciais brasileiros destaque para os fatos a seguir — mas vale registrá-los. Brasil e Argentina estão travando juntos, nos bastidores do FMI, uma disputa crescente contra as lógicas e a estrutura de comando da instituição. O embate tornou-se especialmente árido a partir da última quinta (31/1), quando a diretoria [board] do Fundo lançou dois comunicados — que se transformaram imediatamente em polêmica.

Um deles foi uma censura pública à Argentina, pela imprecisão de suas estatísticas financeiras — em especial os índices de preços. A fragilidade dos dados platinos é conhecida há muito, mas a atitude do Fundo chamou atenção pela rispidez e por revelar duplo padrão. Nunca antes, desde que o FMI foi criado, em 1944, um país havia sido censurado. Além disso, o board estabeleceu um prazo constrangedor — setembro próximo — para correções no índice inflação argentino. E a diretora-geral da instituição, Christine Lagarde, chegou a lançar uma “advertência”, afirmando, em caso de descumprimento do ultimato, Buenos Aires pode chegar a ser expulsa do Fundo.

O ministério das Finanças argentino reagiu no mesmo dia, emitindo nota em que questiona diretamente a autoridade do FMI para fazer advertências. Nos anos 1990, frisa o documento, o Fundo qualificou de “exemplares” as políticas econômicas que quebraram o país. Mais recentemente, foi incapaz de enxergar os desajustes nas finanças internacionais que provocaram a crise iniciada em 2008. Em entrevista à Rádio Nacional, o ministro Hernán Lorenzino foi além, afirmando que a “censura” era, na verdade, uma tentativa de desqualificar quem pensa — e tem agido — em sentido oposto ao recomendado pelo FMI.

Um dia depois, foi a vez da presidente Cristina Kirchner entrar em cena. Na noite de sábado, fiel a seu estilo polêmico e informal, ela usou a própria conta no Twitter para levar adiante a polêmica. Postou trinta vezes, em vinte minutos. Questionou: “onde estava o FMI, que não foi capaz de prever nenhuma crise?”; “Alguém conhece alguma sanção contra os que enriqueceram e quebraram o mundo?”. Defendeu-se: “Sozinha, sem acesso aos mercados financeiros, a economia argentina cresceu 90% em dez anos, o melhor resultado da história”. Contra-atacou: “Esta é a verdadeira causa do desgosto do FMI. Argentina é uma má palavra para o sistema financeiro global de rapina e seus derivados”. Como arremate, ironizou: “FMI+FBI contra argentina. Não se assustem, FBI são os Fundos Abutres [Buitres] Internacionais”.

A Argentina não atuou sozinha. No próprio sábado, em atitude rara para os padrões do FMI, o representante do Brasil (e de mais dez nações) na instituição, Paulo Nogueira Batista Jr, tornou público seu voto contrário à moção de censura. Ela “não ajuda o diálogo”, porque “a Argentina teu seus próprios interesses e incentivos em trabalhar para encontrar o melhor índice de preços ao consumidor”, disse ele.

O próprio Nogueira Batista já havia chamado atenção, dois dias antes, para outro fracasso do FMI, agora referente à própria democracia interna. Na quinta-feira, depois de meses de procrastinação, o board admitiu que tem sido incapaz de formular uma proposta de nova arquitetura interna de poder, capaz de corrigir os atuais desequilíbrios. Reivindicada com insistência há dois anos, pelos países do Sul, a mudança deverá ser debatida, agora, apenas a partir de janeiro de 2014.

O representante brasileiro considerou o atraso inaceitável. Sob as regras atuais, frisou, a Holanda tem o mesmo peso do Brasil; a quota de Luxemburgo é maior que a da Argentina e da África do Sul — e três vezes superior à do Marrocos. Diante deste impasse e indecisão, concluiu Nogueira Batista em nota, “o FMI está se aproximando do que poderíamos chamar de um abismo de credibilidade”.

TEXTO-FIM

7 ideias sobre “Argentina e Brasil, juntos, confrontam FMI

  1. É realmente vergonhoso que o FMI continue existindo, depois dos desastres sociais e econômicos que provocou. É claro que isso não acontece porque há os poucos que ganharam e continuam ganhando com as políticas do FMI.

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