Diário: As táticas da polícia e as do MPL

Bombas, tiros e prisões: PM mostrou sua face bruta, diante do 2º protesto do Passe Livre em SP. Mas movimento segue de pé, ensaiou manobras desconcertantes e voltará às ruas

Crônica de Gavin Adams | Imagens: Jornalistas Livres

(16 de Janeiro de 2019) Saí da estação Consolação do metrô para o Segundo Ato do MPL contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo. Caminhei até a Praça do Ciclista, onde a Paulista encontra a Consolação. Eram quase 18h.

Logo deu para ver que o aparato policial era muito grande. No total, ao longo da manifestação e passeata, contei um efetivo visível de uns 200 policiais ou mais: umas 50 motocicletas, 50 soldados do CAEP, de escudo, gorro e atiradores, uns 200 PMs de jaleco verde, de escudo, mais pelo menos 15 viaturas.

Ouvi de longe a detonação de uma bomba, eu ainda na esquina da rua Haddock Lobo. Achei estranho, não era um ataque geral da polícia. Caminhei em direção à coluna de fumaça e perguntei o que tinha acontecido. Disseram que a PM tinha lançado o artefato contra os jornalistas, que tentavam registrar a negociação do MPL com os famigerados “mediadores” de jaleco azul. Um jornalista estava muito puto e falou que na manifestação da semana passada, os mediadores tinham se visto no meio de um bololô que registrava tudo o que diziam. Então, tentaram fazer um barreira de escudos, hoje forçaram a dispersão com bomba e já tinham os escudeiros à mão para formar a barreira. Mas vi um vídeo onde parecia que a bomba foi lançada para dispersar jornalistas que acompanhavam uma prisão.

Dei um giro e senti o clima: estava tenso. O companheiro E já tinha lembrado que, em anos passados, foi na Praça do Ciclista que a PM reprimiu violentamente o MPL. Usaram então o “caldeirão de Hamburgo”, que envolve o cercamento do povo dentro de um perímetro formado por homens armados, que atiram para dentro. A palavra aqui não é confronto, mas ataque inconstitucional. De fato, as duas principais forças – os “verdinhos” e os “encapuzados” do CAEP – ora fechavam, ora liberavam as vias de acesso à Praça. Teve gente que chegou e teve dificudade em passar pelas barreiras.

De fato, a tática policial para esta manifestação parecia ser a de conter, barrar e atrasar. Sem repressão geral e massiva, mas com violentas intervenções pontuais.

Achei que havia umas mil pessoas, o que achei pouco, pois esperava que tivesse crescido. Pensei que talvez haja uma ação da polícia nas redes, conforme o que declarou o general que é diretor da Secretaria da Comunicação do governo (Floriano Peixoto Vieira Neto), acerca de seu novo trabalho: “trata-se de uma guerra nas redes”.

A faixa de abertura do ato já estava aberta: “R$4,30 não dá!”. A faixa que fechava o ato trazia “Por uma vida sem catracas”. Vi as bandeiras do PCB, PSOL, PSTU, POR 4, Combate Sindical, UJR, LSR. Reconheci algumas faixas do ato passado, “Doria pornô não aumenta o meu metrô. Juventude Socialista do PDT”, “Estudante organizado perigo ao Estado. Resistência Popular Estudantil”, aquela faixona grande do “Liberdade e Luta”. Vi também os estandartes do RUA, AFRONTE.

Achei que a grande maioria de manifestantes tinha entre 20 e 25 anos. Pouca gente mais velha. Encontrei M e V, que me disseram que o MPL estava ainda em negociações com a PM. Passou A mas não me viu ou me ignorou. Vi também R e a moça que fazia o streaming do CMI. Fiquei muito feliz que a Fanfarra Clandestina estivesse lá com seus metais e batuques, fico sempre reconfortado com sua presença.

Achei que tinha a mesma separação entre os grupos “negros” e “vermelhos” – com sensibilidades mais anarquistas ou marxistas –, mas menos nítido desta vez.

Mas eu mesmo estava receoso e tenso. O Estadão de domingo já pedira a repressão ao movimento. Recordei que foi o editorial do OESP e da Folha, pedindo a violencia policial sobre a meninada em 2013, que deu abertura à mais selvagem das repressões policiais, que veio depois a virar todo o jogo e fazer do movimento um acontecimento de massas.

Admirei muito as moças e moços que, no corpo da manifestação, encaravam os policiais e suas armas. Mesmo depois das agressões, não baixaram sua voz, que ecoava pelo rua:

“Aqui está o povo sem medo, sem medo de lutar”

“Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar”

“Dória, cuzão, não anda de busão”

“Não vai ter aumento, vai ter luta”

Dois malucos que tinham feito um carro de papelão branco, completo com uma catraca em cima, desfilavam no espaço entre os soldados e os manifestantes. Vi uma trans que parecia ser da rua, e ela dançou ao som das palavras de ordem, longo cabelo tingido, macaquinho de jeans, sutiã à mostra e muita ginga.

Vi um grupo de uns 7 funcionários da prefeitura, de jaleco laranja, que bizarramente escoltaram através das barreiras policiais um carrinho de pipoca e outro de milho verde…

Vi depois uma foto que E mandou, feita partir de um drone, onde as barreiras policiais cercavam completamente todas as saídas da praça. Acompanhei um pouco das negociações e pude compreender o seguinte: a PM, através de seus “mediadores”, tentava atrasar a saída. Quanto mais tarde a saída, menor o impacto na cidade. Então a polícia protelava a sua “autorização”. Ao longo do caminho, fechava as vias, e depois as liberava pouco depois. Os mediadores insistiam em ficar longe da frente do ato, onde estava a tensão. Reparei que pelo menos dois deles tinham máquina fotográfica ao peito.

A tática principal da polícia é confundir, de propósito, a comunicação do trajeto e sua autorização. A lei comanda ao movimento comunicar à “autoridade competente” o trajeto da passeata. Ora, a PM se roga o direito inconstitucional de aceitar ou não a comunicação, impedindo ou liberando o caminho. Além disso, se o problema é organizar a cidade em termos de fluxo, a CET, engenharia de tráfego, é que é a autoridade competente.

Eu estava perto do bolo de negociação quando o ataque da PM ocorreu. Eram 18h25. O jogral estava sendo feito, e é o momento onde se decide o trajeto. A imprensa toda de costas para uma linha de 20 CAEPs que avançaram com seus escudos e cassetetes, e o povo todo sentado fazendo o jogral. Muitos jornalistas e fotógrafos tomaram cacete, o que não é comum, e contei pelo menos 8 detonações de bombas, de concussão e lacrimogênio. Foi totalmente sem provocação, realmente com o intuito de espalhar terror. O MPL falou depois em 15 detenções ao todo, além de ferimentos à bala, um deles no rosto.

De fato, vi um atirador disparar sua arma a menos de 5 metros dos corpos manifestantes. Os manuais de armas de tiro “não letais” garantem a não-letalidade apenas a mais de 20 metros entre o disparo e o alvo. Um fotógrafo que tinha recebido bordoadas, perguntou a seu agressor: “por que você fez isso?”. “É para sua proteção”, respondeu o policial.

Uma repórter de microfone profissa na mão, muito maquiada e de capacete azul, falou que eles alegaram que “os ânimos estavam muito exaltados e fizemos um prisão de averiguação”. O pessoal ficou muito puto, foi covarde mesmo. Deu uma espalhada na manifestação mas não se deu o ataque geral que teria sido um massacre. Mas o moço detido sofreu muito, uns 7 CAEPs em cima dele, agarrado à grade. Tomou soco na cara duas vezes e foi sufocado. Acabou que soltou da grade e foi conduzido dentro de um casco de escudos, à moda da antiga “tortuga” romana.

Contaram-me que na hora mais de 5 detenções foram realizadas naquele dia, incluindo um ciclista, um jovem do PT e um passante completamente desconectado do movimento.

Deu para ver que a relação da PM com a imprensa mudou.

Conseguiu-se abrir a faixa de novo na esquinda da Consolação, atrás da linha de PMs. O povo foi acorrendo aos poucos e deu uma enchida de novo. Toda a força policial se posicionando. Vi o fotógrafo R e conversamos.

Eram 18h25 e o povo reorganizado, agora uns 500 manifestantes em frente ao cine Belas Artes, encarando uma fieira de CAEPs um pouco mais acima da Consolação. Pareceu-me que eles tendem a não gostar de quando os atos vão para perto das marginais, e preferem conduzir manifestações para o centro vazio. Bons mesmos são os secundaristas, que fazem ato e passeata às 9h da manhã, causando enorme transtorno. Lembrei agora que os militaristas bloquearam a marginal em 2016 e não houve reperssão.

Um jogral foi improvisado no asfalto: “A polícia tentou acabar com o ato, mas não recuaremos!”.

Nessa hora reparei os cartazes “$3,20 que saudade!” e “Globo TV Lixo NEWS”. Vi a fotógrafa A. Vi também a ubíqua camisa do Juventus, que vejo bastante em manifestações, um milagre estatístico fora da rua Javari, considerando sua diminuta torcida. Desta vez, era uma moça que vestia a camisa vinho.

Eram 18h35 quando a manifestação começou a descer a Consolação em passeata, ao som dos gritos:

“Deixa passar, a revolta popular!”

“Você aí fardado, também é explorado!”

“São 30 anos sem ditadura, e a repressão ainda cintinua!”

“Sem violência!”

“Chega de tarifa, de político babaca, estamos lutando por uma vida sem catraca!”

“Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar”

Apesar de certo alívio por ter deixado a praça, a presença policial continuou forte, com duas colunas de “verdinhos”, uns 100 de cada lado. O CAEP ficou para trás temporariamente. Descemos toda a avenida, mas por duas vezes os verdinhos e CAEPs fecharam a avenida por alguns minutos.

Começamos meio desfalcados, mas ao final éramos os mesmos mil. Notei que as bandeiras tinham sumido, sendo a única presente uma do MTST. Já ouvi de autonomistas “os bandeira vão embora” toda vez que tem ação policial, referindo-se aos marxistas. Não soube dizer se isso tinha acontecido hoje. Sei que a polícia não gosta de bandeira por causa dos mastros, potenciais armas.

Descíamos por uma via da avenida Consolação, e a outra via, a de subida, ora tinha tráfego ora estava fechada. A PM vinha em duas colunas laterais de verdinhos, e os CAEPs faziam aparições pontuais.

Passamos ao lado dos Bombeiros, e o CHOQUE estava lá, posando com seus 25 soldados, escudos e atiradores, além de dois caveirões estacionados. O povo cantou: “Você aí fardado, também é explorado!”. A companheira A comentou que o custo de uma operação como esta deve ser enorme.

Vi uma moça atrás de uma grade de portão de prédio festejando muito os manifestantes, e também uma senhorinha numa janela, ainda antes da rua Maria Antonia. Um fotógrafo apontou a van estacionada na avenida, da polícia, onde se lia “Olho de Águia”. Notei um fotógrafo que se movimentava de skate onde aliás se lia “Passe Livre”.

O povo animado:

“Ai, aiaiia, aiaiaiaiaiaiai 4 e 30 é o carai!”

“Ai, aiaiia, aiaiaiaiaiaiai Bolsonaro é o carai!”

A PM filma manifestações faz tempo, mas parecia, desta vez, fazê-lo mais organizadamente. Eram duas equipes, e uma delas acompanhou toda a mediação. Testemunhei um “duelo mexicano” entre um moço fotógrafo e um cameraman da PM. Um filmava o outro a menos de um metro de distância. Ficaram assim por vários momentos, até que o policial virou a câmera e se foi.

A chamada “Ei, Dória, vai tomar no cu!” foi novamente respondida com “Ei, Dória, vai tomar polícia, pois, no cu, eu garanto, é uma delícia!”. Vi uma camisa do Corinthians. Passamos pela Casa Amarela, que é ocupada por artistas. Ao lado tem um cortiço, onde moram várias crianças. Sempre achava lindo quando elas respondiam às passeatas e festejavam os manifestantes. Mas fiquei amuado quando eu vi que, numa manifestação coxinha, elas igualmente fizeram festa.

Ao chegarmos quase na Maria Antonia, na altura do portão do Mackenzie, o povo cantou:

“Ei, burguês, vai tomar busão!”

“A verdade é dura, o Mackenzie apoiou a ditadura!”

Notei alguns rostos com leite de magnésia, contra o possível lacrimogênio. Duas vezes vieram checar se eu não era um P2, um policial infiltrado. Os P2s são bem o meu perfil: homem de 40-50, meio sozinho – fazendo notas no caderninho amarelo! Tem P2 de verdade que já me cumprimenta, achando que sou um deles.

O cruzamento da Maria Antonia foi feito sob os olhos de novo contingente policial, com seus atiradores e caras de mau. Nessa hora passou por mim outra trans, acho que também da rua, esta de vestido preto, descalça e segurando um balão vermelho, qual obediente mas disperso pet na coleira. Ela dançava e esteve conosco até o fim.

Chegando à Praça Roosevelt, ainda na Consolação, notei que o retrato de Marielle, grande, na parede externa de um edifício, fora tingido com duas manchas vermelhas, que escorriam como sangue.

Antes de alcançarmos a Igreja da Consolação, a PM rapidamente fechou a avenida e ficamos num impasse, parados no asfalto, cercados por todos os 300 soldados. O povo ainda animado, inclusive para saltar no “Quem não pula quer tarifa!”, e “Amanhã vai ser maior!”.

Acabou que fizemos um jogral de encerramento. “Hoje a polícia tentou impedir o segundo ato, mas nós seguimos em frente. Seguiremos nas ruas até a revogação”. Marcaram o 3º Grande Ato para o dia 22, na Praça da Sé.

“Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar!”.

Eram 19h30 e o ato oficialmente se encerrava. Mas as pessoas não saíam do meio da avenida, apesar de uma chuva mais grossa que nos vinha castigando desde o cemitério. Notei que moças do MPL e um grupo de autonomistas discutiam no asfalto. Depreendi depois que gente do bloco negro não queria acabar com o ato e planejava ir ficando. Rolou que a maioria foi indo embora, e a forte presença policial, depois de uma meia hora, começou a se recolocar de maneira menos acintosa. O grupo do bloco negro aproveitou e fez uma linha na via, uns 40 deles, chamando todos a se juntarem a eles. Depois de um pouco, muita gente acorreu e conseguiram estender a fieira de gente de mão dada até a outra via da avenida, a que sobe em direção à Paulista. Ficaram assim um bom tempo, helicóptero no ar, PMs em todo redor. Muito carro buzinando.

Um moço de uns 25 anos passou de bicicleta e gritou aos policiais “Mete a borracha, aí libera!”. Canalha! Os moços e moças do bloco negro hostilizaram os mediadores que chegaram lá, e não conversaram.

“Sou estudante, não sou ladrão, não vim pra rua pra sair de camburão!”

“É barricada, greve geral, é ação direta que derrota o capital!”

Por fim, a fileira se desfez e eles correram para a rua Amaral Gurgel, que escorre por baixo do Elevado João Goulart, o popular “Minhocão”. Corri com eles, e logo toda a tropa veio atrás, com seus escudos e atiradores. Eram 20h15.

A meninada fazia muito barulho, mas não mais do que isso. Vi lixo na via, mas foi só. Mas fizeram muita algazarra, e a perda de controle estratégico por parte da polícia ficou evidente: os corpos correndo entre os carros congestionados, a dificuldade de acesso por parte das motocicletas da ROCAM, o perigo que seria atirar balas e projéteis naquele pandemônio…

Virei à esquerda na rua General Jardim, pois entendi que eles iam para Santa Cecília por dentro. Buscava encontrá-los mais adiante e evitar o bololô. Virei na primeira à direita, que é a Cesário Mota, e, depois de um quarteirão, alcancei o grupo. Mas, atrás de mim, vinham 25 CAEPs muito mau-humorados, e à frente deles, barrando a Cesário na esquina da Santa Isabel, umas viaturas e alguns policiais.

Dava para ver que eles tinham sido encurralados. Os meninos e meninas, todos ao redor dos 20 anos, olharam para mim e para outros 3 profissionais da imprensa, que vínhamos chegando, implorando que nos juntássemos a eles e os protegêssemos. Meu coração apertou, pois não tive coragem de fazer isso. Mas prometi ficar e testemunhar o que acontecesse.

A rua era escura e tenebosa. Chegaram os CAEPs mas não barbarizaram. Trataram mal a imprensa e estavam dispostos a atacá-los. Eles puseram todos os moços e moças de costas à parede, e revistaram um a um. Também filmaram muito cuidadosamente todos os rostos.

Da janela do segundo andar, uma senhorinha tinha um aparato eletrônico às mãos e gritava “Viva a polícia!”. Teve certo bate-boca dela com o pessoal que ia chegando aqui em baixo. Além disso, um homem de uns 30 anos, bolsonarista, ficou irado com a situação toda e brigou com gente do nosso lado da calçada, logo ali na portaria da Santa Casa.

Eram 20h45 quando resolvi ir embora. Já começavam a liberar alguns deles e precisava escrever estas linhas. Busquei a estação República do metrô, Lá dentro, uns 15 seguranças estavam de pé atrás das catracas. Tinha também um grupo de 30 jovens periféricos ali parados. Não consegui ler o que se passava. O grupo desceu à linha vermelha e não pareceu perturbar os seguranças.

No trem, reconheci um fotógrafo que me disse que, na Cesário Mota, a polícia tinha feito uma prisão.

Tomei a linha amarela e fui para casa.

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