Diante do futebol-negócio, quem viu o Cariús jogar?

Em contraste com os jogos tediosos (e caríssimos) da Copa América, um jogador do humilde Ferroviário (CE) torna-se o maior artilheiro do ano, no Brasil. Desprezo pelo futebol local não enxerga que é ali onde ainda resiste a alegria do esporte

A Copa América finalmente terminou, aliás do mesmo jeito que começou: o que menos chamou atenção foi o futebol. De fato, faz tempo que a seleção deixou de ser uma unanimidade nacional, embora o interesse por ela continue grande. Os jogos, em sua maioria tediosos, passaram longe de gerar empolgação. Os duelos das séries C e D do brasileirão, que não pararam durante o torneio continental, empolgaram mais seus torcedores que a nossa seleção.

Se não foi o futebol que chamou mais atenção, o que foi então? Com certeza, muitas coisas; porém, a mais notória delas foi a confirmação da gentrificação do futebol. O processo de gentrificação dos estádios foi iniciado entre nós na Copa do Mundo de 2014, ganhando corpo no “padrão Fifa de torcer”. Enquanto esse tal padrão Fifa emprestou ares de modernização, a CBF continuou e continua repetindo velhas práticas.

No caso da Copa América deste ano, por exemplo, o alto custo dos ingressos gerou rendas milionárias em jogos de estádios ocupados pela metade: muitas cadeiras vazias, porém cofres cheios. O negócio continua cada vez mais lucrativo, embora cada vez mais as classes populares sejam alijadas.

Em um momento de grave crise econômica nacional, a Copa América serviu para mostrar que a ida aos estádios de Futebol já não faz mais parte, de fato, do cotidiano de tais classes. Isso já é uma realidade nos nossos campeonatos: é frequente, por exemplo, a queixa com o alto preço não só dos ingressos, mas também do preço dos serviços e da alimentação nos estádios. Quem quer ir ao estádio em um jogo de série A terá que abrir mão de no mínimo 50 reais, algo que na renda de quem ganha um salário mínimo já faz grande diferença.

Só quem teve em sua rotina de lazer o estádio, sabe como é ruim ter de acompanhar os jogos pela televisão; e isso, se tiver como pagar os canais de assinatura, porque senão só o velho pé de rádio para remediar. Verdade que depois da Copa de 2014, os rádios, que antes eram os companheiros inseparáveis de muitos torcedores, sumiram dos estádios. Se foi o tempo em que os torcedores discutiam com seus radinhos, tempo em que havia narradores favoritos que duplicavam a alegria do gol: nos fazendo ouvir aquilo que víamos.

Esses laços afetivos já não fazem mais parte da realidade dos estádios gentrificados. É cada vez mais comum vermos pessoas vibrando sozinhas na hora do gol, não há mais aquela sociabilidade comum que nos permitia abraçar desconhecidos simplesmente porque torcíamos pelo mesmo time. Hoje, enquanto um sujeito vibra sozinho, aquele que está do seu lado filma a si mesmo na hora do gol, já um outro revê pelo celular o lance que acabara de captar. Em muitos casos, os celulares são os verdadeiros espectadores. A gentrificação faz com que o estádio deixe de ser um espaço comum, compartilhado sentimentalmente, pois o torcedor se tornou um consumidor; e, no consumismo só importa a satisfação e o prazer individual.

Só havendo manifestações mais efusivas na hora do gol, o jeito de torcer tem se tornando cada vez mais uniformizado, fazendo do público de futebol uma plateia de ópera. Essa uniformização retira criatividade e espontaneidade, e ajuda a tornar os jogos cada vez mais entediantes, ainda mais quando o nível técnico não é dos melhores: foi o que aconteceu na Copa América deste ano.

A gentrificação também entrou em campo. Antonio Gomes, em um artigo republicado no blog do Juca Kfouri nos lembra que não há mais jogadores com apelidos na seleção, ou mesmo que associem seu nome ao seu estado ou cidade natal. Algo que até então era um dos traços populares deste esporte. Como não há mais apelidos, quando muito se passou a chamar algum jogador de “menino”, ou “garoto”, não em forma de carinho, ou para fazer referência a sua idade física, mas para atenuar a responsabilidade de seus atos.

Tal diz muito também sobre a gentrificação da nossa percepção da realidade do esporte que um dia foi um dos nossos raros elementos nacional-popular. Já temos times criados por multinacionais e que ostentam nomes-marca: como esquecer do red bull que disputa a primeira divisão do campeonato paulista? Times sem história e sem laços de afetividade: não é isto que a gentrificação apaga dos lugares?

Ora, justamente quando a gentrificação vai driblando o que restava de tradicional no futebol, o artilheiro do país, que ainda é um ilustre desconhecido do público nacional, se chama: Edson Cariús! Sim, Cariús, a pequena cidade do interior do Ceará! Atacante do Ferroviáro-Ce, o histórico clube da capital cearense, o heroico tubarão capaz de rivalizar com Ceará e Fortaleza, fundado por operários na periferia da cidade. Em tempos de clube de futebol que tem nome de energético, o clube que lidera a série c nacional tem nome de trabalhador.

Talvez neste momento do texto, algum leitor torcedor diga em tom de ironia: ah, mas é um time da terceira divisão! Eis mais uma típica característica da gentrificação no futebol: o desprezo pelo futebol local e por qualquer coisa que se afaste do modelo europeu.

Ora, é justamente este desprezo que faz pouco caso da tabelinha Edson Cariús-Ferroviário. Cariús é o atacante que mais marcou gols no Brasil até essa data. Enquanto a Copa América seguia com seus jogos gentrificados, ele continuava fazendo gols, e nos lembrando que nem só de gentrificação vive o futebol nacional.

Cariús traz, como o Ferroviário que saiu da segunda divisão estadual para um título nacional, a marca da resistência. Não foi o jogador empreendimento, que ainda garoto desperta o olhar cobiçoso dos empresários que administram tanto a vida, quanto a carreira dos jovens atletas para a procura cega do lucro; se profissionalizou tarde, e, enquanto lutava para seguir na carreira, ganhou a vida como vendedor.

Hoje ele faz alegria de torcedores do Ferroviário, como eu e meu pai que teima em brigar com o radinho dizendo que o comentarista aborda um “jogo que só ele viu”; mas Cariús faz também a alegria daqueles que sabem que é possível respirar futebol nacional além da gentrificação e dos jogadores publicidade. Por isso, cabe perguntar: de quantos “Ferroviários” e “Edsons Cariús” é feito o futebol brasileiro?

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2 comentários para "Diante do futebol-negócio, quem viu o Cariús jogar?"

  1. Pedro disse:

    Muito bom e oportuno este artigo. Apenas sugiro corrigir o nome do clube, pois, justo na hora de destacá-lo, escreveu-se FerroviÁRO, em vez de Ferroviário.

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