Luceno, de 14 anos, está desaparecido na floresta; quem contará a história de Luceno?

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Terra Indígena Tenharim Marmelos, no sul do Amazonas (Foto: Alceu Castilho)

Adolescente Tenharim está perdido na Terra Indígena; história está diretamente relacionada às tragédias ocorridas há dois anos, no sul do Amazonas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Luceno tem 14 anos. Está desaparecido na floresta amazônica desde o dia 9 de janeiro. Há 25 dias. Seus parentes, da etnia Tenharim, têm feito buscas pela mata densa. Ele sumiu logo após uma pescaria. Oitenta homens de todas as aldeias da região se mobilizaram para fazer um pente fino na Terra Indígena Tenharim, em Manicoré, no sul do Amazonas. Missão difícil: trata-se de floresta primária, densa. Luceno tem leve problema mental.

Foram encontrados sinais de vida: um chinelo, a cama de palha onde ele teria dormido. Os homens têm apoio da Funai e de amigos, que fornecem o combustível – para navegação no Rio Marmelos – e alimentação. A busca é feita com sol ou com chuva – a chuva da floresta equatorial. Por um período curto, o Exército também deu apoio. Foram percorridas centenas de quilômetros. Até agora a varredura não surtiu efeito. Os parentes não desistem.

Esta não é uma história de desaparecimento de jovens de classe média na Mata Atlântica, que motivam reportagens e torcida da imprensa por um final feliz. Ela guarda relação direta com os últimos acontecimentos relacionados à etnia, nos últimos anos. O pai de Luceno, Domiceno Tenharim, foi um dos indígenas presos no início de 2015, sob a acusação de assassinato de três não indígenas na Rodovia Transamazônica, onde os Tenharim cobravam pedágio para o trânsito em plena Terra Indígena.

Cinco deles foram acusados e presos – em meio a um processo kafkiano que, ocorresse com brancos do Sul, motivaria vasta indignação. Ninguém foi condenado, a rigor. Mas a prisão preventiva se estendeu por dois anos, inicialmente em Porto Velho, depois em Lábrea (AM). Em novembro, puderam voltar para as aldeias, ainda que com medidas restritivas. E aqui cabe um resumo dessa ópera da justiça branca, que só leva em conta a cultura indígena no momento de criminalizá-la.

HUMAITÁ EM CHAMAS

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Sede incendiada da Funai: coordenação do Madeira não foi reativada (Foto: Alceu Castilho)

Em dezembro de 2014, o cacique Ivan Tenharim morria, em acidente de moto na Transamazônica. Chovia. Foi levantada a hipótese de assassinato. Os Tenharim negam que tenham aventado essa hipótese. Dias depois, cinco não indígenas iam de Humaitá para Apuí (a Terra Indígena Tenharim fica entre as duas cidades) em um carro preto. Desapareceram. Os indígenas foram sumariamente acusados por boa parte da população local, insuflada por comerciantes e fazendeiros da região.

Resultado: em pleno dia de Natal, uma multidão enfurecida ateava fogo na sede regional da Funai, em Humaitá – até hoje simplesmente não restabelecida pela Fundação Nacional do Índio. Ateava fogo na sede da Secretaria Especial de Saúde Indígena, a Sesai, que ficou totalmente destruída. Atearam fogo em todos os carros e barcos que eram utilizados pelos indígenas. Não foi apenas um dia de fúria. Foi o ápice de um processo de discriminação – um entre vários que o Brasil prefere não reconhecer.

Estive em Humaitá naquela virada de ano e acompanhei tanto o ódio da população como os rastros da destruição. As pessoas falavam abertamente em matar índios. A história está relatada em dois textos veiculados na Agência Pública. Um deles, este: “A batalha de Humaitá“. O outro texto detalha o histórico de violência contra os Tenharim, seja durante a construção da Transamazônica, seja na pilhagem de madeira: “Matar um índio para pegar uma índia“.

O inquérito da PF sempre ficou escondido da imprensa. Boa parte das notícias sobre a investigação e era filtrada pelo advogado das vítimas, Carlos Terrinha – ele mesmo representante também dos pecuaristas da região. Um pajé foi invocado como motivo para o assassinato. Pois ele teria sonhado com um carro preto, a cor do carro que teria atropelado Ivan Tenharim. Por isso – é essa a linha investigativa principal – os indígenas teriam parado um carro preto e assassinado três pessoas. Detalhe: os Tenharim não têm pajé.

LUCENO TENHARIM

Talvez eu tenha visto Luceno, há dois anos. Não sei. Passei algumas horas na Terra Indígena Tenharim Marmelos e conversei com muita gente. Muitas crianças e adolescentes participaram da reunião, enquanto eu falava com os caciques e com os anciões da aldeia. O clima era de apreensão. Estávamos no fim de dezembro de 2014, dias após as cenas de barbárie em Humaitá e no próprio local – ainda deu para fotografar as cinzas dos postos de pedágio incendiados.

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Pedágio incendiado na Terra Indígena Tenharim Marmelos (Foto: Alceu Castilho)

Não longe da Terra Indígena fica o povoado conhecido como 180, ou Santo Antônio do Matupi. Era para ser um assentamento do Incra, de reforma agrária, mas se tornou uma vila de madeireiros e pecuaristas. Onde os fiscais do Incra não vão porque têm medo. Uma terra marcada pela ilegalidade. Teriam vindo dali os incendiários. Não há notícia sobre inquérito contra quem queimou equipamentos públicos ou ameaçou indígenas. Apenas estes são os investigados.

Nesse trecho da floresta amazônica, entre Humaitá e o 180, chama a atenção a altura das árvores em um trecho específico. Vemos pastos, vemos terras desmatadas e, exatamente nesse trecho, uma ampla extensão de floresta fechada. É preciso olhar bem para o alto para ver o topo das árvores. Não é por acaso que esse trecho preservado de floresta coincide exatamente com a Terra Indígena Tenharim, onde Luceno está desaparecido.

ECOS DO APARTHEID

O problema mental de Luceno foi agravado justamente após a prisão do pai. Ele manifestava certa deficiência desde criança, mas a prisão de Domiceno, em janeiro de 2014, agravou o quadro. Houve várias tentativas de tratamento, em Humaitá e em Porto Velho (Manaus fica bem mais distante), mas a ausência do pai agravou o problema. Ele tinha momentos particularmente introspectivos, e precisava ser vigiado pelos familiares.

À parte esses momentos de introspecção, o adolescente levava uma vida normal: jogava bola, tomava banho de rio, caçava, participava das atividades econômicas de seu povo – mas sempre com a presença de parentes, como nas idas ao roçado ou ao castanhal. Após uma pescaria, em um momento de distração, embrenhou-se na mata e sumiu.

O desaparecimento de Luceno Tenharim tem também a assinatura do Estado brasileiro. De uma Funai que vê seus recursos diminuírem, de uma Polícia Federal que faz investigação seletiva, de uma sociedade que aceita o apartheid contra um povo já dizimado. E de uma imprensa que não contará sua história.

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Terra Indígena Tenharim, em Manicoré, sul do Amazonas (Foto: Alceu Castilho)

Os parentes se revezam na esperança do reencontro. Para que Luceno resista, eles apostam na energia transmitida pelos espíritos dos antepassados.

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