Hiperevasão: o país que, como Moro, expõe e sentencia

Há 20 anos Kieslowski discutia no filme “Rouge” a compulsão de um juiz em espionar a vida alheia; era das redes sociais expandiu e radicalizou a exposição indevida

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Lembram-se quando o Brasil vivia na hiperinflação? Pois hoje vivemos no país da hiperevasão: essa evasão hipertrofiada e sem limites da privacidade alheia, sempre sob o signo das “melhores intenções”. A cada dia estamos vendo um punhado de gente sendo crucificada na internet por algo que disse, por um dia de fúria ou porque, supostamente, teria feito tal coisa no passado e isso precisa ser replicado – acreditam esses brasileiros – imediatamente. Para todos.

Estamos todos virando um grande Sérgio Moro. Um juiz que quebra o sigilo, expõe e depois vê – midiaticamente – no que dá. Claro que essas exposições são seletivas. Ninguém expõe seus pares, seus parceiros de causa. É preciso escolher um inimigo definido: “os corruptos”, “os machistas”, sempre algo absolutizado como o primeiro dos males do planeta, o pecado original. A partir daí a culpa pela superexposição do outro estará zerada – como se tivéssemos obtido um salvo conduto para o linchamento de cada dia.

Os exemplos se multiplicam. E talvez não sejam o que o leitor mais gostaria de ler. Pois pode ser algo que ele compartilhou, nos últimos dias, sentindo-se parte de um movimento inquestionável pela justiça, pelo desmascaramento ou algo parecido. Pode ser o caso do dramaturgo mineiro que fez um caco antipetista, tomou vaia e depois foi flagrado – indevidamente – esbravejando nos bastidores. Pode ser o email do último professor universitário que terá negado entrevista a algum jornal golpista e decidido expor a conversa (e, com ela, a interlocutora).

Em ambos os casos o leitor terá imaginado muitos senões. “Ah, mas neste caso isto. No outro caso aquilo”. E é aí que mora o problema. Conforme nossas conveniências, ou crenças, passamos a enxergar como normais exposições mais do que questionáveis. Mesmo em situações públicas já poderíamos respirar um pouco antes de decretar certas sentenças – como falamos aqui, por exemplo, em relação ao menino fantasiado de Abu no último carnaval. No campo privado, valeria meditar na Índia antes de efetuar o próximo disparo.

Sem falar nos vários pesos e medidas desses julgamentos impetuosos. Fica mais fácil entender as contradições observando as exposições envolvendo políticos. Fatura-se a denúncia contra o adversário (mesmo que fruto de uma ilegalidade) e se esconde a denúncia contra o aliado (que absurdo, onde já se viu, expor um documento secreto): essa lei de Ricupero-Gilmar Mendes. Mas a questão não é entender o mais fácil – ainda que isso seja bem difícil para fanáticos políticos. E sim de procurar entender o que se passa no nosso cotidiano, pensar duas vezes antes de clicar e trucidar alguém.

MARCAS PERENES

Pois quem pagará pelas consequências de uma exposição indevida? Outro dia um jovem conseguiu na Justiça que o Google apagasse todos os vídeos no YouTube de uma performance que ele fez em 2012, em comemoração a seu bar-mitzvá. O mundo da internet ainda ridicularizava abertamente crianças e adolescentes: desse menino judeu até a pequena atriz que parecia a Ana Paula Arósio. Muita gente hoje de esquerda e feminista embarcou nessa espécie de humor linchador. E o menino nem tinha feito nada de errado.

Mas, insisto, nem estou falando dos boçais que evadem vídeos íntimos, e de outros canalhas que os replicam como se a pessoa – geralmente uma mulher – tivesse feito ago condenável. E sim de brasileiros que julgam estar fazendo, naquele momento, o melhor e o mais justo. Sem perceber que participam de um linchamento coletivo. Que a condenação (sem necessidade de juízes) já terá sido desproporcional, que a reputação de alguém deveria estar acima de determinada conjuntura, determinado erro. Que, nos casos realmente graves, há fóruns mais adequados para se fazer justiça.

Também não estou falando somente da direita, portanto. De caça às bruxas feita por determinado colunista irrelevante, desses que a esquerda adora promover, com alguma lista macartista de pessoas-que-devem-ser-boicotadas. A fúria por boicotes e exclusões é mais ampla, não atinge apenas esses pobres coitados, desprovidos de talento e discernimento, que dependem do ódio para cultivar leitores. Quem tem algum repertório e formação a mais talvez possa pensar em se distanciar dessas tristes figuras e de suas práticas.

Banalizamos a noção de interesse público. Tornando absoluto cada instante de fúria ou frase mal colocada (ou escrota, ou machista), como se cada segundo de nossas vidas devesse motivar uma condenação perpétua, até que por essa lógica do bumerangue o sistema presidiário esteja repleto de heróis. Afinal, basta um clique e… pronto: eis que nos afirmamos como seres-melhores-que-os-demais, ao lançar uma lasca de madeira na fogueira mais próxima, com ares de quem está redimindo a humanidade. Sem perceber que podemos estar também matando a Joana D’Arc.

Eles querem que eu confesse

Mas eu nem sei o quê (…)

Ontem eu nem a vi

Sei que eu não tenho um álibi

Mas eu…

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