E não é que nos tornamos todos uns convenientes Árbitros de Vídeo?

A tecnologia e... os homens. (Foto: Divulgação/Conmebol)

Esquecemos que a tecnologia é gerida por… homens. (Foto: Divulgação/Conmebol)

Polêmica em torno do VAR na Copa ilustra nossa crença absoluta na tecnologia e nossa sede justiceira, enquanto enxugamos diariamente o gelo das injustiças

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Viramos todos Árbitros de Vídeo. Corajosíssimos. E não somente em relação à Copa do Mundo. Foi o que nos restou, neste mundo de violências e desigualdades brutais: julgar casos pontuais de cidadãos flagrados – diante de câmeras – dando cotoveladas, cometendo uma sequência de faltas machistas, impedindo uma criança de comer. A partir dessa crença inabalável na tecnologia, em uma Grande Verdade das Cenas Registradas, satisfazemos nossa sede de justiça, imaginando um combate adequado à Fome, ao Patriarcado e a cada lance profundamente injusto (ou que julgamos profundamente injustos) de um jogo de futebol.

Os alvos dessa sanha virtual representam o novo ápice da maldade imputável. Mesmo que o movimento de massa seja movido pela mesma lógica medieval das chibatadas imediatistas. A lógica é a de crucificar apenas o segurança que impediu a criança de comer (como se os patrões não o instruíssem a isso, e como se não houvesse previsão de aumento da mortalidade infantil por fome nos próximos anos), empalar o árbitro do jogo do Brasil em praça pública – todos subitamente muito entendidos em regras de futebol – e aguardar uma punição exemplar do Vladimir Putin em relação aos inglórios machistas brasileiros em Moscou. Continuar lendo

Um juiz, um desembargador, um ministro: três faces da Justiça brasileira

sergiodasilva

Sérgio da Silva, fotógrafo cego pela PM. Para a Justiça, “culpado exclusivo”

Juiz diz que fotógrafo baleado em protesto foi o culpado por ficar cego; desembargador boquirroto vendia sentenças; Moraes quer menos pesquisas, mais armamentos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vejamos três notícias.

A primeira: “Fotógrafo cego por PM em SP teve ‘culpa exclusiva’ diz juiz em sentença“.

Trata-se de Sérgio Andrade da Silva, que ficou cego do olho esquerdo ao ser baleado pela PM em junho de 2013, durante as manifestações por passe livre. Três anos após a bala de borracha, ele terá de pagar R$ 2 mil em honorários à Justiça, por ter perdido uma ação que movia contra o Estado. Vejamos a justificativa de Olavo Zampol Júnior, juiz da 10ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo:

– No caso, ao se colocar o autor entre os manifestantes e a polícia, permanecendo em linha de tiro, para fotografar, colocou-se em situação de risco, assumindo, com isso, as possíveis consequências do que pudesse acontecer, exsurgindo desse comportamento causa excludente de responsabilidade, onde, por culpa exclusiva do autor, ao se colocar na linha de confronto entre a polícia e os manifestantes, voluntária e conscientemente assumiu o risco de ser alvejado por alguns dos grupos em confronto.

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Hiperevasão: o país que, como Moro, expõe e sentencia

Há 20 anos Kieslowski discutia no filme “Rouge” a compulsão de um juiz em espionar a vida alheia; era das redes sociais expandiu e radicalizou a exposição indevida

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Lembram-se quando o Brasil vivia na hiperinflação? Pois hoje vivemos no país da hiperevasão: essa evasão hipertrofiada e sem limites da privacidade alheia, sempre sob o signo das “melhores intenções”. A cada dia estamos vendo um punhado de gente sendo crucificada na internet por algo que disse, por um dia de fúria ou porque, supostamente, teria feito tal coisa no passado e isso precisa ser replicado – acreditam esses brasileiros – imediatamente. Para todos.

Estamos todos virando um grande Sérgio Moro. Um juiz que quebra o sigilo, expõe e depois vê – midiaticamente – no que dá. Claro que essas exposições são seletivas. Ninguém expõe seus pares, seus parceiros de causa. É preciso escolher um inimigo definido: “os corruptos”, “os machistas”, sempre algo absolutizado como o primeiro dos males do planeta, o pecado original. A partir daí a culpa pela superexposição do outro estará zerada – como se tivéssemos obtido um salvo conduto para o linchamento de cada dia. Continuar lendo

Uma questão ética: Hicheur deve ser condenado eternamente por “terrorismo”?

adlenehicheur

Ministro da Educação diz que Brasil errou ao aceitar na UFRJ um físico de ponta, que foi julgado na França e cumpriu pena; quais as implicações dessa visão de Justiça?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Existem crimes imperdoáveis, em um país que rejeita a pena de morte e aposta na reabilitação dos criminosos? Para o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, sim: o físico francês (nascido na Argélia) Adlène Hicheur não deveria ter sido aceito no Brasil para trabalhar na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por causa de condenação anterior por “terrorismo”, na França. Ele trocou emails onde se falava de assassinato de lideranças. Cumpriu a pena.

Hicheur nega as acusações. Mas admitamos que elas sejam verdadeiras. Estará ele condenado a não mais exercer sua profissão, na qual ele é reconhecido internacionalmente, como um físico especialista em partículas elementares, pós-doutorado na Suíça? Se fosse um pedreiro, ele poderia trabalhar como pedreiro? Ele não pode trabalhar como pesquisador em uma universidade de ponta, sendo um pesquisador de ponta? Continuar lendo