Ennio Morricone nos fez ver pelo som

Falecido ontem, artista musicou mais de 500 filmes — de Sergio Leone a Tarantino. Foi sublime, dos faroestes ao cinema político. Suas trilhas, tão essenciais à narrativa quanto as imagens, mostram o poder da arte em produzir novos mundos

Quando Ennio Morricone recebeu o Oscar honorário pela carreira, em 2007, disse — ele falava com a voz embargada — que aquilo não representava um ponto de chegada, mas um ponto de partida.

“Para melhorar-me. Melhorar-me a serviço do cinema e também a serviço da minha estética pessoal na música aplicada”.

Ele tinha 78 anos.

Dedicou o prêmio a cada diretor com quem tinha trabalhado.

(Enumero alguns aqui: Bertolucci, Bellocchio, Leone, Pasolini, Pontecorvo, Lattuada, Petri, Comencini, Zurlini, Monicelli, Tornatore, Olmi, Argento, Lina, Paolo e Vittorio Taviani. Grandes entre os grandes do cinema italiano. E mais: Polanski, De Palma, Stone, Almodóvar, Tarantino.)

Trilhas para filmes de Tornatore e Tarantino, por exemplo, foram feitas depois desse discurso. Quando Morricone também dedicou o Oscar a cada artista com quem tinha trabalhado. E, por último mas não menos importante, para sua mulher, Maria.

A imagem dele estendendo a estatueta para ela sempre me impressionou muito. A humildade naquele homenzinho — o maior compositor da história do cinema — era algo tão marcante quanto sua produtividade, que nunca deixou de estar ligada à qualidade. Foram mais de 500 filmes.

Ao acordar, hoje, uma amiga tinha me marcado em notícia do G1. Foi assim que fiquei sabendo de sua morte. Minha filha ainda não acordou e não pude contar a ela. Ela e alguns poucos sabem o quanto significa para mim. (Fiquei com a mão no rosto por uns 15 minutos até criar coragem para ler a notícia e, em seguida, tentar escrever algo.)

***

Até poucos meses atrás ainda tinha remota esperança de ir para a Itália quase que somente para ver um show de Ennio Morricone. Com a pandemia (e diante do fato de que o último show tinha sido no início de 2019), já estava tentando me conformar com a impossibilidade, já estava processando um luto específico.

Quem me conhece minimamente sabe de minha paixão pelo cinema italiano, o quanto isso está umbilicalmente ligado à minha vida, às minhas percepções não somente estéticas, mas também políticas. (Esse homem musicou filmes de Petri, Montaldo, Damiani, Pontecorvo, ele musicou o cinema político.)

E ele fez a trilha de “Cinema Paradiso”, o filme que me abriu as portas para esse universo. Neste momento minhas emoções são também aquelas de Totó, o personagem do filme, ao ver a trilha sonora de suas paixões. A música do maestro convida qualquer saudosista (como no caso da minha pessoa) a desabar em lágrimas.

Morricone soube ser sublime em um gênero muito específico, o spaghetti western. Ao musicar as obras mais importantes de Sergio Leone. Penso aqui na chamada de celular do meu irmão, o assobio de “O Bom, o Mau e o Feio”, em todas as vezes que falamos do maestro em família. (Morricone, um consenso familiar.)

Penso em “The Ecstasy of Gold”, para sempre uma das minhas músicas preferidas de qualquer artista, certamente uma das que mais me tiram destes chãos sórdidos, que me levam a algum patamar utópico onde poderia haver alguma civilidade. (Eu, praticamente um misantropo.)

Escuto novamente a música e levo novamente as mãos ao rosto. Respiro fundo.

***

Naquela sequência de “Três nomes e um Destino” (gosto mais do nome “O Bom, o Mau e o Feio”), Tuco — o Feio — procura um túmulo onde haveria US$ 200 mil em ouro. A música é essencial na narrativa, Sergio Leone contou a história toda, até o trielo final, sabendo que a trilha era tão importante quanto as imagens. Em uma sequência sem diálogos.

Lembro-me da primeira vez em que assisti ao trielo — não era um duelo, chegava o momento de Bom, Mau e Feio se enfrentarem. Cheguei já no fim do filme, meu pai assistia na sala, meu pai amava os “faroestões”, como ele dizia. E eu fiquei me perguntando: gente, o que exatamente estou vendo? (Trata-se de uma das sequências mais incríveis da história do cinema.)

Quis o destino que o último filme a que assisti (devo ter revisto pela oitava vez, há duas semanas) fosse “A Classe Operária Vai ao Paraíso”, de Elio Petri, um filme de 1971. Uma obra-prima do cinema político e uma entre as tantas trilhas incríveis de Morricone.

Exatamente o último frame desse filme (a imagem congelada ainda fresca em minha memória) trazia a imagem de um homem, mais ou menos da minha idade atual, andando para trás, a bombar uma carregadeira, na fábrica onde aqueles trabalhadores não sabiam para quem produziam aquelas peças.

Deve ter sido lá pela quinta vez que assisti que finalmente percebi quem era aquele operário. Petri não escolhera aleatoriamente aquele que, do mundo dos sons ao mundo das imagens, encerraria sua visão pessimista do paraíso.

Aquele homem com uma boina era Ennio Morricone.

‡ (1928-2020)

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