Reflexões sobre corrupção “organizada” e “imprópria”

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Pensata de FHC precisa ser mais bem detalhada; reflitamos, então, sobre organicidade e acaso, e sobre as características centrais dessa palavra-fetiche, “corrupção”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O príncipe Fernando Henrique Cardoso admite que em seu governo a corrupção existia, mas não era “organizada“. À tentação de imaginar a Mancha Verde, a Gaviões da Fiel e a Jovem Fla como símbolos do que seria algo “organizado”, permito-me mais uma vez pesquisar a origem do termo. Ele vem de “orgânico”, “que possui órgãos cujo funcionamento determina a vida”. Desconhecíamos até então essa influência naturalista – biológica – na visão do sociólogo.

O Dicionário Houaiss descreve este sentido para a palavra organizado:

que constitui um conjunto definido, estruturado, fundamentado

E este para a palavra orgânico:

relativo ou pertencente à constituição ou estrutura (de qualquer conjunto, totalidade etc.); caracterizado pelo arranjo sistemático de suas partes; estrutural
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A chantagem política naturalizou-se; é hora de combater a chantagem política

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A disputa por um país melhor não pode passar pela demonização de apenas uma figura política mais nefasta; e sim pela construção de outros métodos possíveis

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Brasil se move há décadas sob o signo da chantagem. Para um sistema político mais sadio não adianta apenas combater este ou aquele parlamentar mais obsessivo-compulsivo, como se ele fosse a única encarnação desse método. Mas combater sua consolidação, sua aceitação e banalização, por governos de diferentes siglas, estrelas e plumas. O pragmatismo político naturalizou a chantagem, tornou todo o país sua refém. E se engana quem imagina uma política mais saudável enquanto essa for a lógica, essa for a linguagem política dominante, enquanto houver esse milagre da perpetuação de uma minoria voraz.

A chantagem tem uma etimologia controversa. Uma delas mais rústica. Segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, viria de chantar; plantar o chantão, aquela estaca em torno da qual surge nova árvore. Mas há outra versão mais poética – e que vai além da língua portuguesa. A palavra viria do francês “chanter” = cantar. Seria usada no sentido de obrigar alguém a cantar. A chantagem seria uma prima mercantil da cantada. De qualquer forma, o termo ganhou o sentido de se obter algo por meio de ameaça, extorsão, pressão ilícita. Na política, cargos, dinheiro – mas também, na prática, controle de políticas públicas. Os chantagistas não possuem a beleza de sermos eternos aprendizes; são exímios profissionais da estocada. Continuar lendo