Aos pais dos adolescentes de hoje

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Abram a seus filhos as portas da noite. É nesse mundo que eles se tornarão adultos vivos e sagazes — o oposto dos homens e mulheres bocós, que tanto abundam hoje

Por Maria Bitarello| Imagem: Susanne Vielmetter, Beijo no Bar (2011)

Convenhamos: a vida cotidiana de um humano de classe média, no século 21, em ambientes urbanos é, na maior parte do tempo, previsível e ordinária. Não estou aqui pleiteando que não haja glória nas pequenas alegrias do dia-a-dia. Sou uma entusiasta da hora de ir dormir lendo um livro, de sentir o cheiro do café de manhã (ou de tarde, dependendo da sua rotina), de ir à feira sob o sol de inverno, de andar de bicicleta na ciclovia da Paulista, de ouvir o barulho da rolha saindo da garrafa de vinho (suspiros). Mas e os momentos épicos? As reviravoltas na trama? O imprevisível e o improviso? As soluções engenhosas pra problemas inesperados?

Essas são as exceções de nossas vidas, as que viram histórias, contos, causas, crônicas, aventuras pra se contar pros amigos na mesa do bar. E a gente as cultiva com deleite nas gavetas mais luxuosas da memória. O dia que perdeu o voo e dormiu no aeroporto. Quando o pneu do carro furou na chuva, a gasolina acabou e a bateria arriou, ao mesmo tempo. O acidente de bicicleta. O assalto relâmpago. A caganeira na hora errada.

E nesse rol de acontecimentos, todo meu apreço vai pras façanhas noturnas. Pros perrengues passados nas madrugadas da vida, de bar em bar. De garrafa em garrafa. De cigarro em cigarro. De pessoas insólitas a situações absurdas. De coragens tiradas não sei de onde. De amassos bem-dados em banheiros imundos. De vômitos forçados. De encontros embriagados com a polícia. De faltas de alternativas pra voltar pra casa. De dinheiro que acaba, cartão que não passa, caixa eletrônico que não funciona. De surubas espontâneas. De sapato, celular e chave de casa perdidos. De xixis feitos na rua, atrás do carro. De transações escusas realizadas com sujeitos insuspeitos. De noites que viram dias que viram noites que viram dias. De carnavais, viradas culturais, segundas-feiras inconspícuas, etílicos réveillons e domingos salvadores da semana. De epifanias esquecidas no dia seguinte.

A riqueza da vida noturna depende, em parte, do tédio que move cada um. Pra quem cresceu numa cidade de porte pequeno pra médio no interior de Minas, como eu, motivos abundavam pra encher a cara e sonhar com dias mais gloriosos em cidades mais estimulantes onde, pensava eu, a vida noturna seria ainda mais promissora. E por um lado é mesmo. São Paulo, onde moro há alguns anos, tem uma noite daquelas bem danadas. Só que meus melhores companheiros de odisseias noturnas continuaram sendo os mineiros. Lá, constato, o tédio que movia minha etílica turminha mineira era maior. A fome, e a sede, eram maiores. E isso resultava em cachaçadas espetaculares. A gente não tinha onde gastar toda aquela energia juvenil. Era do bar pra casa de alguém, pra loja de conveniência do posto de gasolina, pra padaria, pra outro bar.

Boemia é coisa séria em Minas. Somos profissionais. Beber, pra nós, é um esporte de resistência. Uma maratona; nada de cem metros rasos. O importante é resistir e sobreviver às muitas curvas, aos altos e baixos do percurso, utilizando-se dos entorpecentes ou aditivos que estiverem à mão – da alegria à pinga. E a gente reconhece os comparsas à primeira vista, no primeiro copo de cerveja. Rola aquele brilho nos olhos ao perceber, no outro, o mesmo potencial pra bagaceira. Uma vocação pra lama, pro caos.

TEXTO-MEIO

Porque uma noite épica, sabemos, não pede glamour. Nem drinks chiques, boate bacanuda ou bandinha hype. Só entusiasmo. Gente animada a beber e a continuar bebendo. Gente disposta a encarar o que for – de pé quebrado a compra de drogas. Gente que adia o nascer do novo dia. As madrugadas são nossa selva contemporânea. O lugar onde vivem os monstros e também os espíritos encantados da floresta. Onde vivemos grandes descobertas; e horrores também. Amalgamados na criação da memória, eles viram uma parábola, geralmente cômica, em que rimos de nós mesmos.

Não sei como é crescer sem a ilíada noturna. Acredito verdadeiramente que esses ritos festivos são cruciais pra nossa formação. Pois é na noite – a terra de ninguém do temido “cidadão de bem”, o buraco escuro da família brasileira – que os problemas que só podem advir de quem frequenta a noite emergem e, consequentemente, onde se revela seu potencial criativo diante deles. Grandes amizades começam na madrugada. O verdadeiro caráter – e também a falta dele – se torna transparente uma vez que a dignidade é zerada pelo avançar das horas e o acúmulo de copos. E essa riqueza de experiências deve começar na adolescência a fim de alcançar seu potencial máximo.

Ali não tem pai nem mãe. Não tem professor, vizinho. Só a galera. E a alegria, o vigor e o tesão de viver que nascem dessa intimidade vivida em bando nas madrugadas equivalem, na minha cabeça urbana de século 21, aos ritos tribais tradicionais em que os meninos são levados pro meio do mato sozinhos pra matarem a fera à unha. Dá uma força danada. Viramos gente mais esperta, sagaz. Aguçamos e afiamos o street wise, a sabedoria de rua. E isso, minha gente, é muitíssimo importante. Sobretudo pra que não viremos adultos bocós.

No entanto, adulto bocó é o que não falta. Gente que não viveu isso na adolescência e juventude. Criança de apartamento, cheia de cuidados e proteção. Sobretudo nas cidades grandes. Uma moçada que não saiu sozinha, que frequentou mais shopping que bar. Galera que era sempre buscada pelos pais e que, portanto, nunca dormiu numa rodoviária de cidade pequena. Gente que não aprendeu a se virar. Se você for pai ou mãe, proponho que deixe sua cria recém-crescida se jogar e se estrepar por aí. Senão já viu. Adulto bocó ela será. E ninguém quer isso pra sua prole.

Hoje, contudo, preciso confessar: escrevo essas linhas às 23h30 de uma sexta-feira, de pijamas. Ouço a cidade rugir pela janela. A Praça Roosevelt está logo ali, quase ao alcance do olhar. Da desvairada pauliceia, só tenho mesmo as memórias daquela festa na Duque de Caxias ano passado e da última terça de carnaval. Mas como a gente até sai de Minas, mas Minas nunca da gente, não prometo nada. Tem mais uma garrafa de vinho embaixo da pia.

Moral da história: quem não bebe não vê o mundo girar.

TEXTO-FIM
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Maria Bitarello

Escritora, jornalista e tradutora. Mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro. Outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com