Snowden, o que fez e por que foge

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Ironia da História: está em Moscou, de passagem, ex-agente perseguido pelos EUA depois de denunciar mega-rede de vigilância sobre cidadãos

Por Caue Seginemartin Ameni

Enquanto nas principais metrópoles do mundo movimentos sociais se organizam pela internet, governos viralizam vigilância da rede. E desta vez não é paranoia.

Numa fuga típica de filme hoolywoodiano, o ex-especialista da CIA Edward Snowden encontra-se num hotel localizado na zona de trânsito do aeroporto de Sheremetievo-Moscou, a caminho do Equador. Snowden, que no início do mês vazou ao jornal britânico The Guardian documentos sobre o programa de espionagem PRISM, da Agência de Segurança Nacional norte-americana (NSA), obteve ontem (24 de junho), do governo de Rafael Correa, o status de refugiado político.

As revelações de Snowden incluem espionagem com grampos telefônicos e vigilância de atividades online, sem autorização judicial, com a colaboração dos gigantes da informática. Podem levá-lo a ser condenado a até dez anos de prisão por comunicação de informações de defesa nacional, revelação de informação confidencial e roubo de propriedade do governo. O jovem vem sendo duramente acusado de traidor por comentaristas da Fox News e pelo ex-vice-presidente Dick Cheney, a quem respondeu astutamente em entrevista a internautas do The Guardian: “Ser chamado de traidor por Dick Cheney é a maior honra que se pode dar a um americano”.

Recentemente o ex-agente somou a essa outra denúncia: a de que o Reino Unido seria responsável pelo que ele chama de “o maior programa de vigilância da história”, igualmente sem autorização judicial, e com monitoramento capaz de armazenar extenso volume de dados privados da internet e de ligações telefônicas em nível global. A denúncia foi destaque na edição de sábado (22/06) no The Guardian.

Conforme os documentos que apresentou, o programa de espionagem do setor de comunicações da agência de inteligência do Reino Unido, Government Communications Headquarters (GCHQ), seria “ainda pior” do que a americana NSA, tendo em vista que monitora através dos cabos de fibra ótica – que viabilizam o tráfico global da internet e ligações telefônicas, e passam em grande quantidade pelo território britânico, a caminho de outros países e continentes. O ex-agente disse ainda à reportagem que os dados são armazenados e analisados em parceria secreta pelas duas agências de inteligência. A operação do governo inglês, nomeada por Tempora, está rodando há 18 meses, e tem condições de armazenar informações por 30 dias.

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A agência britânica não comenta as informações, mas insiste que seu trabalho é legal e alega monitorar suspeitos de terrorismo, incluindo suas ligações telefônicas, conteúdo de emails, páginas no portal de relacionamento Facebook e histórico de acessos nos programas de navegação. Segundo levantamento do The Guardian, o documento revela que no último ano o GCHQ monitorou 600 milhões telefonemas por dia e mais de 200 cabos de fibra ótica. Cada cabo carrega 10 gigabites por segundo, o equivalente ao envio de todas as informações sobre todos os livros da Biblioteca Britânica, 192 vezes, a cada 24 horas.

Antes das primeiras denúncias serem veiculadas pelo jornal britânico, Snowden fugiu para China. As autoridades americanas o acusaram de espionagem e solicitaram a Hong Kong sua extradição, mas o governo da ilha chinesa alegou que o pedido dos Estados Unidos não atendia os critérios da lei local e solicitou mais informações. Snowden transferiu-se então para a Rússia, e o governo chinês informou os Estados Unidos que o jovem norte-americano “deixou Hong Kong para um terceiro país através de canais legais e normais”.

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Depois disso, tende a piorar o “conflito diplomático” que vem desde o ano passado, quando Washington e Pequim se acusaram mutuamente, por diversas vezes, de espionagem cibernética.  De acordo com a edição online de sábado (22 de junho) do South China Morning Post, Snowden também passou informações sobre espionagem digital na China. Ele teria dito ao jornal chinês que os Estados Unidos hackearam computadores em empresas chinesas de telefonia móvel, assim como sedes da Pacnet de Hong Kong – empresa proprietária da “maior rede de fibra ótica submarina da região”. Teria revelado também que a base de dados da Universidade de Tsinghua, uma das principais instituições de ensino superior da China, fora espionada. A China pediu explicações após a revelação dos programas do NSA.

Daniel Ellsberg, ex-analista militar responsável pelo vazamento dos Papeis do Pentágono em 1971, observou que, embora isso não signifique um Estado policial, a infraestrutura eletrônica e legislativa para instalá-la já está em funcionamento. Bastaria apenas um pretexto ou ameaça para autorizar os próximos passos. O caso foi destaque nas manchetes dos principais jornais. Segundo a Amazon, as vendas do romance 1984 de George Orwell – que fala de um estado totalitário em que ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão – aumentaram 7.000% após as revelações do inconfidente ex-especialista da CIA.

Três cenários parecem despontar no horizonte de Snowden. Um é parecido com o destino do fundador do Wikileaks, Julian Assange, há um ano exilado na embaixada equatoriana em Londres. Outro se assemelha ao do jovem Bradley Manning, processado perante uma corte militar por “colaborar com o inimigo” ao ter vazado ao Wikileaks informações secretas sobre irregularidades das Forças Armadas na guerra no Iraque. Ou um terceiro, mais otimista, parecido com o trajeto do ex-analista Daniel Ellsberg, que revelou detalhes sobre a situação na Guerra do Vietnã (1955-1975) e hoje é reconhecido como um herói.

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Subeditor do Outras Palavras, é formado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Operador da loja virtual Outros Livros, integra a equipe do De Olho nos Ruralistas. É editor da Autonomia Literária.