Os Condenados: 13º trecho da trilogia de Oswald

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“E corpos juvenis esmagavam-se docemente contra Jorge d’Alvelos, no aperto geral e risonho. Esbarravam nas suas, mãos suadas de moças, braços suados

Por Oswald de Andrade | Imagem Emil Nolde

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No âmbito da série “Oswald 60″, Outras Palavras publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados
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Na sequência anterior, Jorge d’Alvelos se move pelas ruas atravancadas. Recebe da Itália carta de Mary Beatriz. Sente-se arrasado para novos empreendimentos. O remorso volta. Jorge pensa na luta impotente que mantém contra o sexo. Milagre vai ao Palácio das Indústrias. Traz alguma coisa de Alma. Jorge olha para ela subitamente despertado. Carlos Bairão regressa do Rio e os dois freqüentam cabarés. Reinicia os trabalhos na estátua de Alma. Carlos promete levar um crítico de arte que atua em jornais. O escultor trabalha e a estátua sai do soterramento: Alma está ali, branca, de pé. Sobem pela escada o amigo e um senhor num fraque preto: é o crítico. Calam-se diante da escultura. O jornalista se fixa num exame atento. Diz afinal com desprezo: – Isso é futurismo! (Theotonio de Paiva, editor de Oswald 60)

TEXTO-MEIO

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Estava de novo só.

Até a arte lhe negavam! Conseguira até agora vender somente aos amigos. Com isso se mantivera. Uma tristeza cortante possuiu-o. Sentou-se, olhando para Alma rediviva no sudário de gesso.

Como todo artista, acalentava a confiança ingênua do seu valor. Consentira efusivo naquela visita. O espírito do poeta precisa de espectadores, mesmo que sejam búfalos, dissera Frederico Nietzsche.

Uma manhã, em Roma, fazendo uma grande estátua da Dor, no acabar festivo das mãos de greda, sentira uma imperiosa necessidade de apoteose para a obra terminada. A casa toda dormia: era um domingo. Saiu até a porta da rua. Um lixeiro varria as pedras. Chamou-o, fê-lo subir, respeitoso, pensando que era para retirar imundícies do interior. E o artista perguntou ao homem o que pensava da estátua.

A me, mi pare bene, signorino. Cosa rappresenta?

II Dolore.

É vero. Per questo ha le mane cosi… Sembra dolorata, sembra dolorata…

O lixeiro entendera, o crítico não.

– Oh! “war ich nie geboren!” – murmurou Jorge d’Alvelos.

Era a frase de Fausto. Sim, antes não tivesse nascido. Veio-lhe como que um ressentimento tardio de sua pouca fortuna. Outros haviam sempre tido casas, repousos entre árvores, conforto família… Ele que tinha sido até agora? Um va-nu-pied! As encomendas que tinha davam-lhe apenas para viver. Precisara emprestar dinheiro a Carlos Bairão para pagar as despesas ocasionadas pela morte de Alma. E negavam-lhe mesmo a arte!

Uma revolta fez estuar-lhe o sangue. Levantou-se, atirou uma martelada mortal ao elevado centro da estátua branca. Os braços caíram como asas.

Tinha terminado a devastação. Permanecera no soco, pondo para fora esbeiçamentos de estopa cor-de-ossos na junção alva dos joelhos, a parte movimentada das pernas, as pernas altas, de Alma.

O artista ficou ofegante. Sentia o rosto molhado, a boca repuxada de lágrimas. E ante a beleza que ficara naquelas linhas em ruína, teve o ímpeto de cair de joelhos e suplicar a misericórdia coletiva para a obra-prima mutilada.

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Jorge fizera uma desabalada corrida com sentinela à vista e resolvera parar, entregar-se.

Unha a consciência fatalizada dos condenados irremissíveis e monologava na sombra: entretanto, tua vida poderia ser boa. Tu a estragaste com uma pertinácia de doido, ela, a filha única! Vê como ficou tudo em cinza… Escuta os baques de desaterro que estrondam dentro da alma! São os últimos amparos do teu destino…

*-*-*-*-*

Recomeçara a trabalhar, num ódio súbito contra a cidade que parecia negá-lo, insensível, quando não hostil pela estupidez dos seus críticos. Planejara um imenso relevo, grande como as Portas do Inferno de Rodin, de que o Penseur era um simples detalhe. Faria O Limbo – um quadro gigantesco de aspirações contrariadas, de desejos inviáveis, de cóleras mortas no nascedouro, abortos de pensamento, de vida, de ação, de poesia.

Desenhara no chão do atelier o esboço marcando os grupos, as atitudes, as figuras.

Ia armar os primeiros elementos da maquete mas ergueu-se numa súbita perturbação. Foi lavar as mãos grudadas de greda a um dos baldes de água do canto. E pensou de novo no deserto em que o deixara a terrível aventura. A ausência da companheira acentuava-se com o tempo, trazia-lhe tristezas de horas inteiras, acabrunhamentos indizíveis, mortais.

– É impossível! É impossível!

*-*-*-*-*

Entretanto o atelier compusera-se de novo, com a imprevista chegada a Santos de dois grupos monumentais e um Retrato de Antepassado – talhado sobre um medalhão em planos de ferro. Eram trabalhos de Roma, que ele encarregara um amigo de mandar. A demora da vinda fizera-o esquecê-los.

Naquela manhã, Lino de Albuquerque que entrara num tumulto, extasiava-se ao lado de Torresvedras. O primeiro grupo era uma Vingança de Fauno, alta, construída em atitudes claras, lembrando a terra pré-homérica. O outro impressionava. O artista chamara-o Descida. Era uma sugestão de cena santa – Cristo desmantelando-se, de cabeça pendida, enorme, o pescoço esticado, a boca aberta e horrenda, os olhos apenas de uma serenidade amortecida. O grupo construía-se num grave rigor arquitetônico, unindo Virgem e catecúmenos, carne na carne, ao Deus morto que amparavam.

– Maravilha! – gritava Lino de Albuquerque – maravilha! Quando digo que São Paulo é estupendo! Ora vejam se um pernambucano podia fazer isto, entender isto!

Olhava rindo para Carlos Bairão que tinha a família originária de Pernambuco.

Palrador, incontido na sua efusão de vinte anos.

– E um delinquente! É mais que gênio!

E contou reminiscências de viagens, fez frases, anedotas.

Carlos Bairão agora insistia na ida de Jorge a Santos, com o grupo, a fim de festejarem Torresvedras, que obtivera pensão do governo, para estudar música em Paris.

– Ele dará um formidável concerto na Ilha Verde, onde o Claro tem casa.

Jorge acedeu com simpatia por Torresvedras. Este chegara-se a ele, interessado:

– Você está triste, homem!

– Esta vida anda durando muito… – respondeu o escultor, estirando os braços nervosos.

Os outros protestaram. Lino de Albuquerque exclamava:

– A vida é boa. Eu estico a minha como uma bala puxa-puxa. Outro dia, a Lolote quis assassinar-me com uma pua desconhecida no faqueiro da família. Fiz escândalo. Chamei o gendarme. Foi presa, naquela ambulância de presos.

Jorge aprontou-se e deixou o Palácio com os outros.

*-*-*-*-*

Hipocondríaco, quebrado de dores absurdas, o escultor saiu à toa pelas ruas. Não iria ao atelier aquela tarde. Sentia-se fraco; indisposto. Lembrou-se de que o diretor da Revista do Brasil mandara-lhe pedir por Carlos Bairão fotografias de trabalhos seus e notas biográficas. Subiria até lá, a ver o que desejavam fazer por ele.

Chegara ao Teatro Boa Vista, ia subir ao andar superior. Um homem estava parado na calçada: era ele, o desconhecido amante de Alma, na sua imperturbável mocidade. Tinha um feltro claro, o colarinho alto, um water-proof elegantemente enrolado no braço.

Invadiu Jorge uma vaga vontade de destruí-lo, estava armado…

Depois, como estacasse, teve medo de ser percebido pelo outro. Escondeu-se à entrada do teatro, com cartazes na porta. E ficou ali, olhando para o homem, como para qualquer coisa de enorme na sua vida, qualquer prodígio funesto e invencível, contra o qual nem pudera lutar. Era como um raio, um castigo supremo, uma força obscura da natureza ou do destino.

Na sua análise angustiada, o escultor percebeu que ele era belo.

Teve uma vontade enorme de fazer parar os transeuntes, apontá-lo, discuti-lo, indagar se os outros achavam nele alguma coisa de sobrenatural que lhe desse o direito de amontoar ruínas assim.

O homem despegou as pernas balouçantes, finas, na calça cinza; andou indiferente, dobrou a esquina da Rua do Rosário.

Jorge seguiu pensando como encontraria o outro, o assassino, Mauro Glade.

*-*-*-*-*

Na garoa vermelha, acesa em focos irregulares nos bicos de luz dos combustores, o artista caminhava.

Trabalhara o dia todo, saindo apenas uma vez para comer num hotel das vizinhanças da Estação do Braz.

Desde a tragédia máxima de sua vida, não tivera um dia de tão grave labuta material. Haviam-no forçado a mudar de sala, por causa da exposição anual no Palácio.

Começara cedo o trabalho brutal da transposição das estátuas e dos cavaletes para o pavilhão superior, o mesmo onde destruíra a estátua de Alma.

Interrompera tudo com o cair funerário da noite sobre a Várzea. E no crepe gelado daquele bastidor de inverno extemporâneo, fora olhar, do alto torreão, as luzes encarvoadas dos bairros intérminos e, por cima, o paredão encasarado do centro, com mil janelas baças.

Permanecera em repouso no divã do atelier improvisado até mais de dez horas. Saíra com frio no agasalho fraco do seu velho capote de Roma.

Não encontrou ninguém na Várzea. Mas subindo, no desconforto do cenário pobre de casas baixas de uma ladeira, passou por ele, soluçando alto num lenço, um vulto magro, de casquete. Parecia um vagabundo adolescente de estampa.

Jorge parou, voltou-se interessado, vendo-o abrandar os passos.

Era um pequeno de grandes olhos e rosto moreno. Tinha um braço em tipóia, duro e enrolado. Obstinava-se no choro falso que começara:

– O soldado não quer que eu peça esmola… Disse que me prende…

No claro, Jorge percebeu-lhe a boca polpuda e vermelha de mulher, recortada sobre dentes alvos e grandes, os olhos pestanudos e canalhas:

– E esse braço?

– Foi meu pai que me deu uma paulada, eu caí… Estive na Santa Çasa.

– Venha comigo.

O rapazola de casquete e o artista subiram. Um grupo de homens encontrou-os e todos os olhos se fixaram no adolescente imundo. Jorge sentia, iniludível, crescente, vitoriosa dentro dele, uma presciência de diabólica ventura. Trancara todas as portas do cérebro aos raciocínios. E caminhava ao lado do mendigo como se levasse para o primeiro encontro uma mulher amada.

Na Rua do Carmo, um tipo de barriga e bigodes, num sobretudo castanho, fitou-os num espanto cínico.

Jorge afrouxou a marcha. Veio-lhe um absurdo terror de se ver denunciado do ato que meditava. Passos ressoavam atrás dele. O homem de barriga e bigodes, no sobretudo, passou, olhou numa verificação cheia de desaforos. Acreditara talvez ser uma mulher disfarçada o maltrapilho lindo sob a casquete. Parou entre árvores, à entrada do Largo da Sé, por onde eles iam, para ver novamente. Jorge adivinhou-lhe todos os pensamentos. E a sua volúpia cresceu.

Atravessaram o Triângulo distanciados.

O homem partira. Estavam em frente ao Conservatório. Jorge abriu a porta pesada. E sem dizer palavra o vagabundo entrou.

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Amanhecia.

Fê-lo calçar velhos sapatos, trazidos da Europa. Ele embrulhou os outros, amarelos, de elásticos, escarnados nas pontas. E partiu.

O escultor deitou-se pensando em começar bem cedo, na manhã gelada do novo atelier, a estátua monumental do seu Santo Sátiro que projetara uma vez em Roma, nos bons tempos idos. Depois… o vagabundo voltaria, seria o seu modelo. Ele abrandar-lhe-ia a carne áspera, lavá-lo-ia, fá-lo-ia seu…

*-*-*-*-*

Na noite seguinte, mordido de remorsos inúteis, Jorge deixou o Palácio mais cedo, para não encontrar o mendigo cínico.

E ele lá estava na ladeira, agora cortada de transeuntes, sentado a uma soleira de porta confusa. Vendera decerto os sapatos do escultor, pois tinha escarrapachados sobre a lama da calçada, os mesmos pés amarelos e rasgados da véspera. Baixou repentinamente a cabeça aos joelhos unidos, escondendo, sob o escudo da casquete, o rosto lindo e o braço partido.

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Jorge d’Alvelos sentara-se ao fundo da barca trepidante que conduzia os convidados para a Ilha Verde, na noite rumorosa de estrelas.

Claro Dutra ficara em terra para levar as mulheres em outra lancha. E além dele e dos homens do motor, iam naquela embarcação, Carlos Bairão, Torresvedras, Lino de Albuquerque e Bruno de Alfenas.

A praia, em círculo de areia, despejava lâminas de claridade sobre o mar encrespado.

Havia milhares de estrelas, algumas enormes, ardentes, irregulares.

Os rapazes riam, cantavam. Apenas Jorge d’Alvelos olhava num humor negro a fosforescência das águas moles que iam recortando.

A costa esquivava-se ao longe com massas de árvores.

E até o silencioso Torresvedras se deixara empolgar pela magia da noite cênica. Na sua voz de barítono, lamuriosa, cantante, trauteava uma canção do Brasil que compusera. Cessou. Houve um tumulto de risos. Bruno tinha feito uma partida a Lino de Albuquerque, que protestava. Este agora lançara com a voz anasalada, saudosa, uma cantiga gaúcha.

Para Jorge d’Alvelos, humilhado, recurvo, amarfanhado no seu canto, tudo amargava. Olhou o amplo céu e viu uma estrela vacilar, cair sobre as águas. Tinha uma alma de losna: todas as fontes da vida estavam envenenadas para ele. Sobre o mar, a voz de Lino cantava.

*-*-*-*-*

O carnaval chegara com guinchos, pandemônios de cornetas e bombos.

Pelas ruas, começavam os atravancamentos de veículos adornados, anormais, a impor a festa que o calendário marcava.

No domingo, Jorge saiu ao léu, de capa sob o braço, receando a chuva que o céu indeciso anunciava. Desceu ao Palácio das Indústrias, encontrando pelo caminho sujeitos pingados de alvaiade, com nariz postiço, flores berrantes de papel na botoeira, e sérios, casmurros, fechados, num andar de quem não admite brincadeiras.

Era o Carnaval de São Paulo.

Por toda a cidade, havia de pairar qualquer coisa de heroico, de solene. Os préstitos saíam como procissões, com devotos a seguir os carros, numa convicção tenebrosa, segurando fios coloridos de serpentinas como fitas bentas de andores.

Isso fizera Alma dizer-lhe no ano anterior:

– O carnaval aqui é sério, quem rir vai preso…

O escultor teve os olhos obscurecidos de água e seguiu.

Deixara momentaneamente todo trabalho. No atelier apenas se comprazia em ver, completar, afirmar a maquete iniciada do relevo. Subiu as escadas, fechou-se.

Lá fora, na rua chuvosa e festiva, passavam às vezes sons idiotas de cornetas.

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Na noite caída, veio pela Várzea com bondes iluminados e gente aos grupos. Pierrots lamentosos passavam. Um sujeito de barbas postiças mostrou-lhe uma enorme bengala de papelão da plataforma de um bonde. Um apache sem máscara deu um pincho desgracioso para o lado dele e acendeu-lhe uma luz no rosto. Um menino com a cara suja de rolha estendeu-lhe na mão três serpentinas utilizadas e pediu-lhe um tostão.

*-*-*-*-*

A população na Ladeira João Alfredo adensava-se. O artista desviou-se do Triângulo: entrou para comer alguma coisa num restaurante do Largo do Palácio. Serviram-lhe demoradamente um menu brasileiro. Pedira o melhor vinho da casa: trouxeram-lhe uma garrafa de Bordeaux. Desabituado pela longa abstinência, achou azedo o vinho no primeiro gole; depois com a comida seca, foi mudando de paladar; e agora, num súbito conforto físico, olhava a vida.

A sala do restaurante estava quase deserta. Garçons portugueses de bigodeiras passavam, serviam. Ele notara, instalado a uma mesa da entrada, um homem conversando com um dominó amarelo. Tinham acabado de jantar e o dominó baixara a máscara. E parecera-lhe que o não perdia de vista. Devia ser um homem alto. Se fosse Mauro Glade?

Jorge, logo depois da morte de Alma, pensara na possibilidade de um encontro funesto com o assassino. Mas a hipótese perdera-se com a normalidade quotidiana da vida do escultor.

O mascarado olhava-o sempre. Seria o bandido? O bandido…

Jorge d’Alvelos constatou que tinha no bolso da calça o pequeno revólver Browning, trazido da Bélgica. Sete balas!

O dominó pediu licor; bebeu suspendendo cautelosamente a máscara. Não era. O companheiro pagou, saíram.

Jorge ficara só, na sala, onde as mesas vazias punham a sua nota de toalhas brancas. Pelo chão, havia confete, destroços de serpentinas. Lá fora, o carnaval rodava.

Viu a nota, liquidou-a e foi também para a rua.

Esquecera-se de tomar um licor. A língua guardava um travo do vinho que o café ralo, servido numa grande xícara, não apagara. Estava no tumulto da Rua 15 de Novembro. As carruagens, regressadas do corso, sucediam-se devagar, parando, indo em cortejo, no estreito corredor que a multidão acotovelada lhes deixava.

Um mascarado ruivo, gingando, interpelou Jorge:

– Você me conhece, palheta!

E o escultor incorporado insensivelmente ao batuque coletivo, na mesma marcha automática de cem mil pessoas andando, na zanzarra desencontrada, informe e constante, foi pensando.

Automóveis de luxúria e carros altos, inflamados, paravam na glória das luzes e das trompas. Mulheres encarapetavam-se aos grupos, revelando pernas elegantes, a dizer, a contar que, naquela hora, um toldo de táxi valia um trono e um loup divinizava.

E corpos juvenis esmagavam-se docemente contra Jorge d’Alvelos, no aperto geral e risonho. Esbarravam nas suas, mãos suadas de moças, braços suados; sob as saias, iam pernas suadas tropeçando…

Continuou aos esfregamentos, às atracadelas. E foi envolvendo-o, persuasiva como uma revelação, a volúpia premeditada e conseguida que ia ali, nos carros sensuais, com nus quase despidos, nádegas curvas, aberturas desenvoltas de pernas. O mesmo frêmito passava nas bocas rubras, nos seios entrevistos por inteiro, no cheiro adivinhado das axilas. Carroções uniformizados atravancavam a artéria urbana. Deles saíam cantos de vozes femininas. E Jorge só viu pares unidos, enlaçados, promessas de beijos e contatos.

Encontrou uma confeitaria ruidosa, entrou.

E enquanto esperava o garçon a uma mesa do fundo, um pierrot cor-de-ouro, palaciano, com oito voltas de tule negro ao pescoço e pompons fartos nos punhos, veio para o seu lado, flexuoso, sorrindo com dentes alvos pela boca vermelha. Dois olhos interessados olharam-no pelas aberturas do loup. Seguiam-no um outro pierrot sem máscara, baixo, desengonçado, cor-de-rapadura na barba malfeita, e um rapaz inexpressivo e loiro. Sentaram-se ali, a outra mesa. Mas o pierrot cor-de-ouro gritou-lhe:

– Boa-noite! Está triste?

E numa ofensiva risonha, convidativa, levantou-se e perfumou-o longamente com o jorro frio de éter. Ele defendeu-se; depois, como ela persistia, correu, saiu tocado de esperança. Comprou adiante um lança-perfume. Ia voltar. O pierrot saiu sozinho para comprar também. Num tumulto íntimo, Jorge atirou-se, conteve-a. Ela reconheceu-o e ficaram ali um minuto, na multidão ululante, longe da vida, num pleno e recolhido letargo de perfumes trocados, persuasivos.

– Queres vir comigo, pierrot de ouro? Procuravam-na os dois homens deixados no bar.

Jorge insistiu:

– Vem!

E ela murmurou, numa risonha promessa:

– Depois…

Ele ia segui-la, vingar-se de todas as tristezas da terra, ter aquela boca, aquele corpo flexuoso, que lhe lembrava os modelos de outrora…

Ela atravessara correndo acompanhada de um bando novo de máscaras. A multidão tumultuava. Jorge quis passar. Mas, no turbilhão de um préstito, com a alta voz dos clarins, o incêndio fantástico dos fachos, as patas dos cavalos, viu-se contido, agarrado, preso ao carnaval monstruoso dos outros.

(Continua na próxima semana)

TEXTO-FIM
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Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos modernistas, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Oswald realizou, ao lado de outroas artistas, a Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Em ocasião dos 60 anos de sua morte, Outras Palavras faz série especial em sua homenagem.