Os Condenados: oitavo trecho da trilogia de Oswald

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“Ao sentar-se com Jorge, Alma disse num sussurro: – Que olhos lindos ele tem! O escultor calara-se numa agitação lancinante. Alma não deixaria nunca de amar esse homem”

Por Oswald de Andrade | Imagem: Edvard Munch

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No âmbito da série “Oswald 60″, Outras Palavras publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados.
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A partir de hoje, passamos a publicar “A Estrela de Absinto”, segunda parte da trilogia do romance “Os Condenados”, de Oswald de Andrade.

II
A Estrela de Absinto

E o terceiro anjo tocou a tuba e caiu do céu uma grande estrela,
ardente como um facho,
e caiu na terceira parte dos rios e nas fontes das águas;
E o nome da estrela era de Absinto
e a terceira parte das águas se fez de Absinto,
e muitos homens morreram das águas
que se tinham tornado amargas.
Apocalipse de S. João — C. 8.

TEXTO-MEIO

 

– Que pensas dos homens?

– Uns canalhas…

– E das mulheres?

– Também.

Na luz medida do atelier de escultura, cerrado ao meio por um biombo, recoberto em azul, Jorge d’Alvelos movia-se sem trabalhar.

Sentia-se alegre aquela manhã na sua pátria, de onde partira em busca de vitórias com dezoito anos. Voltara ao Brasil, artista ignorado, quando longo tempo fazia já do seu embarque, com o avô que o levara até o porto de Santos.

Jorge d’Alvelos fixava obstinadamente aquele rosto readquirido de sua gente: uma mulher quieta e grande, sob o capacete cor-de-cobre dos cabelos.

Estavam sentados junto à porta fenestrada que apanhava, por cima do claustro, as montanhas lisas, empastadas em massa tênue-roxo dos fundos de São Paulo.

O vime rangeu sob o estofado de cretone, com flores rubras, enormes. Jorge deitara-se aconchegando ao rosto uma almofada esférica de seda. Perto de ambos, no chão, uma pequena esfinge de doze mamas estacava.

– Uns canalhas…

Fazia uma santa manhã lá fora.

Era no Palácio das Indústrias, onde o escultor armara atelier na parte já terminada do pavilhão central. Haviam-no deixado montar aí casa de doido, com desenhos ciclópicos tirados a carvão no soalho e baldes e greda e formas de fragmentos e estátuas.

Ele ficara a princípio seduzido pela mudança de céu e de ambiente, depois subitamente horrorizado com artistas e críticos que conhecera, agora contente com a reaparição de Alma.

Ela estava de novo ao seu lado ali… e ele repetia-lhe mentalmente o nome, olhando-a sem ver.

Parecia-lhe que fora numa missa de Natal, em Areias, a última vez que a vira, antes da viagem. Ela conservara-se na frente dele, num vestido curto de étamine, de onde emergia a forte carnadura sob os cabelos. Não havia padre. E no coro, um trio instrumental com vozerio que parecia vir de tubas, eternizava Dominus Vobiscums em escalas de Marselhesa. O povo esperava, bestificado, cheirando a areia, como quem espera milagres.

A parte fatigada de terra que fica nos limites do Rio, cemitério de cem quilômetros com cruzes de cidades. Tinham ambos, ele e ela, na vinda do Amazonas, corrido o início da vida, por lugarejos parados e seculares, entre as tentações distantes das grandes capitais: em pleno dia, aldeias, onde se ouvia a roçada das formigas, sob um céu voraz, feito de milhões de asas de insetos.

Ele sentia isso numa repercussão. Haviam parado ali somente um ano e o país sáfaro parecia tê-los marcado. Ele era como os rapazes da região que, estalada a puberdade, migram, deixando o mulherio ficar numa prévia viuvez, de coxas ardentes e semiabertas, como para depoimentos, e calores eternos, sonhando casamentos absurdos e prostituições impossíveis. Partira no chamado da sua eleição. E a família ficara se desarvorando.

*-*-*-*-*

Mary Beatriz tinha permanecido na Itália, estudando.

Não quisera reatar na partida. Os olhos sérios, morena, nas toilettes americanas. Jorge revia-a, diversa das burguesinhas usadas que viera encontrar em São Paulo.

Alma, no entanto, com os seus vinte e cinco anos augurais, repunha dentro dele a personagem de guignol que dormia, séculos, quem sabe, desde a invasão do grande rio pelos seus avós, que, retirados do bulício dissolvente das civilizações peninsulares, se tinham honrado na conquista de Mazagão em África, e depois varado o Amazonas até as suas cabeceiras de febre.

Mary Beatriz… ter-se-ia mesmo casado com ela, se ficasse em Roma. Começara tudo na surpresa de Jorge por vê-la conversar em português com a mãe, numa cauda de teatro. Escrevera-lhe cartas. Pintava giestas e papoulas, numa eclosão do temperamento. A descoberta do amor pusera uma floração de colorido em pequenos quadros, que manchavam de luz o atelier, no chão, nos muros, nos móveis. E do busto frágil, de seios em pera, o escultor tinha inacabado uma estátua.

Alma saíra.

O artista permanecia no cretone, num mergulho pelo passado.

Suas tendências para a escultura tinham-se revelado na obsessão infantil dos bonequinhos de lama com que vivia sujando as mãos e a casa do avô negociante, em cujo escritório o puseram para começar a vida.

Seu pai, quase paralítico, estacionara ao lado do velho Lucas, em Areias, numa última tentativa de enriquecer, como criador de gado. Depois viera definitivamente para São Paulo.

Mano Antero, com a barba redonda dos antepassados, seguira a tradição de investida contra o mato, da raça passada para a América no começo do último século. O pai de Jorge, depois dele, deixara também uma manhã o porto de lenha barrento do Amazonas, onde perdera a mulher e a primogênita, Carolina.

Na vinda para Areias, Jorge entrava na adolescência.

O Amazonas reaparecia ao escultor. Via-se numa rede, num quarto enorme, à noite. No cacaual, lá fora, sobre as folhas caídas, começava a ronda das onças. Lembrava-se da descida pelo estuário, com a família dizimada, numa barca que tinha um toldo de esteira. A floresta conversava desde manhã com o rio. Os barqueiros, torrados e suarentos, mergulhavam n’água, num salto, para tomar de novo os remos tapuios, ao sol. Noite caída, havia paradas soturnas nas brechas da terra e o apelo dos homens chamando.

Depois, o mar, a cidade branca de Fortaleza, o Rio de Janeiro entre montanhas, o exílio de Areias, São Paulo e os primeiros bondes elétricos, o avô vacilante na casa de louças e brinquedos. Depois da morte do pai, fora passar demorados meses no Seminário dos monges brancos em Pirapora.

Tio Antero propusera levá-lo, como fizera depois inutilmente com Alma — rumo da fazenda de Nova Olímpia, centro das suas culturas crescentes, na entrada do sertão de Iacanga. Lá, ele se incorporaria ao país, sob o céu propício da América. Casar-se-ia, fundaria novas plantações, prosseguindo, a cavalo, às quatro horas, na posse brutal da terra prometida e achada.

E não teria tido a vida que tivera na Europa.

Jorge d’Alvelos levantou-se de um salto. Se Alma quisesse ser sua… Na América das cidades de acampamento, ele armaria barraca à parte. Se Alma fosse morar com ele!

E por que não quereria e por que não viria, se era tudo o que lhe restava?

Jorge d’Alvelos passou com força as mãos aspalmadas sobre os olhos, estirou-se num bocejo e andou passos até junto do grande grupo em gesso de As Amazonas e o Cavalo, teve ímpetos de mandar um soco ao focinho arreganhado, ossudo e vivo do imenso animal, tal o vigor que lhe pulava da boca, dos olhos, dos membros distendidos. Ao lado, as Amazonas, de seios em escudo, dominavam o bicho processional.

*-*-*-*-*

Haviam deixado o atelier, num deslumbrado carinho, o loiro Carlos Bairão e Mário de Alfenas, únicos amigos reavidos, em São Paulo, por Jorge d’Alvelos, na sua volta.

Sozinho, o escultor obstinava-se na modelagem da figura central de sua A Fonte da Vida. Na blusa, sobre uma escada aberta, no silêncio mudo, marcava agora os cabelos arquitetônicos.

Alma surgiu inesperadamente, num tailleur folgado de lã clara, setentrional sob um largo feltro branco.

O artista descido imobilizara-se. Ela pisava o atelier com o seu passo lépido e sólido, clarificada na luz do estúdio. Em silêncio, no canapé, tirou o chapéu, descalçou uma luva. Abriu num voluntário desastre o casaco felpudo e revelou, sob rendas, alvos começos de seios.

Depois, empilhando almofadões, depositou as pernas, na seda esticada das meias, sobre o cretone. E Jorge surpreendeu, entre linhos, promessas de sua nudez de pelos fulvos. Achegou-se numa persuasão.

Quis prender-lhe num beijo a boca carminada. Ela teve um refugo do rosto pálido e ardente.

– Resolveste posar?

– Sim – respondeu ela pelos dentes.

Embolara-se, fugindo, como um animal no cretone.

Jorge encostou a cabeça de cabelos fartos e enormes sobre as suas coxas violentas e quis prender-lhe a cinta nos braços. Ela teve uma ondulação flexuosa de defesa. E fixava-o, os lábios entreabertos, vermelhos, molhados.

Ele buscou-a numa apaixonada força. Ela retirou-se, risonha, elétrica. Na luta, os dedos de modelador tinham seguro um seio destacado e pequeno. Ela pode desferir-lhe ainda um tapa certeiro e frouxo nas pálpebras…

Deixara-o prostrado de felicidade no divã. Recompusera-se, buscou o feltro e as luvas. E, ante um minúsculo espelho que retirou da bolsa de miçangas, avermelhou os lábios fanados.

– Adeus!

Saíra. Os seus passos amorteciam-se lá fora na escadaria lateral do Palácio. Onde iria?

Jorge d’Alvelos sentiu que aventurava tudo nesse amor.

Alma trazia-lhe no escuro passado, no presente inquieto, minutos seculares de angústia, de humilhação e de prazer. O seu aparecimento fora um aviso de devastações. E ele ofertava-se ao romance pressentido numa dadivosa ambição vitimal.

O dia caminhava azul lá fora, festivo e calmo. Vinham de longe ruídos de pedra trabalhada, de bondes que passavam, de carroções que estouravam o calçamento.

*-*-*-*-*

Jorge d’AlveIos, de costas, nas almofadas do divã, cerrou os olhos. Revia a imagem adorada. Ela já estaria longe, onde? Na direção do Braz, do bairro confuso que habitava com o outro, o amante confuso. E o seu coração fechou-se, vagarosamente.

*-*-*-*-*

Jorge d’Alvelos passou o olhar pela esfinge atarracada ao lado de Alma, pelas estátuas cansadas de ouvi-los na tarde caída.

As estátuas dobravam mais seus gestos mudos, abriam mais a boca inerte. E vitórias e bruscos torsos punham na sombra inicial cambalhotas irônicas.

*-*-*-*-*

Encontraram-se sem dificuldade no tumulto cowboy que, àquelas horas de partida e chegada de comboios à noite, enchia a gare achatada da Sorocabana.

De longe, Jorge adivinhara, sob jorros elétricos, a silhueta vigorosa, num gorro de viagem, uma valise minúscula na mão enluvada. Um carregador acompanhou-os e ele comprou dois bilhetes de ida e volta.

– Dois?

– Querias ir só?

– Pensava que sim.

Tomando-lhe a valise, Jorge seguiu-a até a plataforma onde o trem formado chiava. Por toda a extensão havia grupos de pessoas e nos wagons uma malta de gente.

Alojaram-se num banco defrontado por dois rapazes loiros. Passavam carregadores com malas e viajantes atarantados à procura de lugar. Uma campainha retiniu longamente. A plataforma teve um minuto de atenção. A máquina longínqua apitou e o trem partiu devagar.

Alma conservava-se impassível e extática no seu canto. Houve uma curta parada. Ela levantou-se e saiu na direção do carro da frente.

Só, no assento de palha, o escultor continuou o sonho em que ia perdido. O trem deslocou-se de novo. Saiu de uma pequena estação com quintalejos, bananeiras e luzes. Alma demorava-se, Jorge levantou-se impaciente. Ela não tardou a apontar ao fundo do corredor. Vinha segurando-se às paredes do carro. Atravessou num esbelto gesto os bancos ocupados e fez Jorge sentar-se.

– Sabes quem está aí?

– Quem?

– Ele.

O escultor recusou-se a compreender. Houve uma longa pausa. Depois interrogou-a.

– Quem?

– Não sabes?

– Não.

– Mauro.

Jorge sorriu sem crer.

– Queres vê-lo?

– Para que?

– Tens medo… – fez ela emudecendo de novo.

Jorge conservava-se incrédulo. A ideia desse encontro que ele previra e desejara com o homem de Alma, agora, naquela viagem improvisada a chamado de Camila que se achava doente em Barueri, parecia-lhe absurda.

– Encontraste-o onde?

– No outro carro.

– Falou-te?

– Conversamos…

Jorge sentia-se tomado de uma surpresa que o varava. Esboçava-se-lhe vagamente no cérebro, no peito, uma perturbação lamentosa de homem que se ludibria.

– Tinhas combinado o encontro? – perguntou.

– Não. Mas talvez ele descobrisse…

– Sem que tu o dissesses…

– Ou tu!

– Não creio – terminou Jorge impaciente.

– Tens medo de ir vê-lo fez ela.

– Talvez.

Calaram-se. O trem ia deixando para trás campinas escuras entre rolos de fumaça. Jorge não se conteve muito tempo.

– Vamos!

Ela ergueu-se e atravessou o wagon. Ele seguiu-a. O trem agora amortecia a marcha. Quando eles pretendiam passar para o outro carro, uma onda de passageiros que desembarcava os conteve. O comboio parara numa pequenina estação animada. Jorge mantinha Alma pela cinta. Depois de um velho magro de capote – carregando jornais na mão, vinha um rapaz forte, de chapéu coco, sob uma larga capa preta. Passou sem fitar ninguém. Alma apontou-o:

– É esse…

O pequeno estribo do carro esvaziara-se. Na plataforma batida de luzes, guardas e viajantes passavam. Jorge desceu e procurou o homem que Alma indicara. Ele conversava num grupo ali perto. Encararam-se. O homem tinha um olhar cor-de-cinza por sobre o nariz quebrado de águia. A boca entrava-lhe bruscamente num ríctus perene.

Sem hesitar, Jorge enfrentou-o. Depois, vendo que ele se desviava para conversar, pôs-se a andar. E quase roçou no homem que pareceu não o perceber. Ao voltar para junto do estribo, onde Alma permanecia, grande, sozinha, ela levou a mão à boca num gesto de quem suplica. Mas nada disse e sorriu. Jorge voltou de novo. Estacou a dois passos do outro. Ele tinha a voz metálica e lenta. Um apito cortou a estação. Uma lanterna verde oscilara. O trem ia sair. Vagaroso, sem perder Mauro Glade com os olhos, Jorge subiu ao primeiro degrau do carro. Alma, segura a um balaústre, deixara de sorrir. O trem moveu-se, passou pelo grupo, onde o homem de capa preta esperava. Ele e Alma trocaram olhares iguais, fortes. Jorge teve ímpetos inúteis de obstar que ela o fitasse. Houve um segundo trágico. E o trem rolou de novo, por campos escuros.

*-*-*-*-*

Ao sentar-se com Jorge, Alma disse num sussurro: – Que olhos lindos ele tem!

O escultor calara-se numa agitação lancinante. Alma não deixaria nunca de amar esse homem.

Aparecia-lhe agora, ali, naquela estação pequena de hinterland brasileiro, pela primeira vez. Não se perturbara um instante; nem por um instante deixara a sua linha sinistra e glacial.

E Jorge sentira o olhar vendido de Alma, na partida.

– Encontraste-o por acaso?

– Não sei.

– Mandaste-lhe dizer que ias só.

– Não tive por quem mandar dizer…

– Que importa? É um covarde.

Calaram-se. Os moços loiros conversavam em inglês. O trem corria.

– Que vem ele fazer aí?

– Tem amigos.

– Nunca anda só.

– Medo de ti…

– Não tive dele. Provoquei-o, esbarrei-me nele. Estava acompanhado, podia atacar-me.

– Quem sabe se nos acompanha?

– Melhor! Verei até a próxima estação. Quis levantar-se. Alma reteve-o com força.

– Não quero, Jorge.

– Dizes que tenho medo.

– Exijo que fiques.

– Mas por que?

– Porque te amo.

– Jura que o não avisaste da viagem.

– Juro.

– Por quem?

– Pelo Senhor de Pirapora.

– És capaz de ir jurar no santuário?

– Irei. Não vim para ver Camila. Quero cumprir uma promessa que fiz…

E acrescentou:

– Na festa de amanhã…

Jorge recordou pensativo e incrédulo a romaria de agosto em Pirapora.

Levantou-se. Foi até ao fundo do comboio. Nos ajuntamentos, nos carros, até os dormitórios fechados, procurou inutilmente a silhueta encapotada de Mauro Glade. Voltou. Alma esperava-o de pé, no estribo do carro.

– Creio que ficou…

Ela, então, num persuasivo silêncio fê-lo ceder. Iriam pela manhã a Pirapora.

Tinham chegado a Barueri. Desceram. O trem partiu fazendo vacilar a lanterna vermelha do último carro, pela escuridão da linha. Jorge examinou detidamente os passageiros desembarcados na plataforma minúscula.

Para dormir, pediram informações. Um menino grande e sujo acompanhou-os longe, pela vila noturna plantada na brutalidade.

Havia uma casa aberta, numa estrada ladeirosa. Deram-lhes um quarto ao fundo, abrindo duas janelas acima de um paredão a pique. Para lá do quintalejo, embaixo, começava o vale negro até bater no rio, léguas além. Havia lua no céu distante, uma lua amorfa, entre nuvens esfarrapadas. Do astro doente, caíam reflexos na terra morta.

Alma fechara a luz. Perdido à janela, Jorge d’Alvelos contemplava fora a noite mágica.

A serrania invisível e crestada parecia constituir na distância infinita um fundo de palco. A lua sobre ela despencava teatralmente. Apagaram-se um a um os reflexos. Uma coruja gargalhou, voando perto da casa, no escuro. Lá embaixo, um trem desenvolveu-se, passou, desapareceu, trecho rascante da terra desacordada. E ficou tudo imenso e cor-de-nanquim.

*-*-*-*-*

As rodas do trole mordiam o tijuco da estrada. Aquele morro calvo e negro, ele já o vira, com emoção, quando o tinham trazido para o colégio. E o rio, matinal e sagrado, como outrora, sobre as pedras vivas, junto à ponte. Era uma grande ponte, outrora…

Um ajuntamento colorido de feira gralhava na lama extensa da rua principal. Mulheres mascaradas de gesso, prostitutas de São Paulo, famílias ingênuas, negras de trunfa. E o batuque guerreiro na sombra do samba media, por cima de tudo, o tambor seco, igual, com o caracaxá e o ribombo longínquo do bombo. Era Pirapora.

E como Alma quisesse regressar, Jorge teve ímpetos de matá-la na agitação rumorosa do hotel.

– Fizeste esta viagem, então, para que? Para vê-lo somente, para encontrá-lo?

– E desejo voltar porque não quero vê-lo, não quero encontrá-lo.

– Ele combinou vir até cá!…

Ela não disse nada. Jorge ergueu-se do leito numa rápida suspeita. Mauro era audacioso. Se tivesse chegado agora no automóvel que acabava de cortar, sob a janela, a rua álacre…

Deixou o quarto. Dirigiu-se para a sala de entrada. À porta, um empregado encostava-se molemente. Sentou-se a uma cadeira de balanço, abriu um jornal e dirigindo-se ao homem:

– Novos hóspedes?

– Não senhor.

Passaram-se minutos longos. Jorge foi ver a rua. Barracas de turcos, onde camelots enrouqueciam, punham nos balcões e nas tendas velas de cera, rosários, quadros, ex-votos. Um cavaleiro festivo passou por entre gritos exagerados da turba.

Jorge d’Alvelos sentou-se numa crescente ansiedade. Um automóvel estacara em frente ao hotel. O empregado agitou-se. Desceram malas. E sereno, bem instalado, numa roupa de brim subiu os dois degraus de entrada, um fazendeiro de barbicha e corrente de ouro no colete.

– Bom dia!

– Bom dia!

O homem foi-se com o empregado. Mauro podia estar em outro hotel. Jorge veio ler maquinalmente o jornal, dobrou-o num gesto. Na sala, havia um espelho ao centro da parede, ladeado por pantomimas oleográficas com índios e portugueses.

Foi tomar o chapéu no quarto, onde Alma permanecia, recurva no leito, lendo um volume rasgado.

Andara na multidão. Penetrou de repente na Sala de Graças, em frente à igreja. Toda a humanidade como que se fotografara para encher aquelas paredes enormes.

Tomou o caminho do Barracão dos Romeiros. Era o mesmo antigo hangar de caliça, com olhos furados de janelas. Entrou esbarrando num negro cowboy, hercúleo e risonho, que levava nos ombros uma criança linda.

Gente cafuza espalhava-se no chão por cobertores vermelhos e pálidas esteiras, rodeando os pilares quadrados. Um pandeiro invisível batia um frêmito de asas metálicas. Uma dançarina preta, de olhos cerrados, atravancava a passagem numa roda estabelecida por um grande bombo reteso. Ao lado, um aleijado de cavanhaque sustido em muletas, tinia o caracaxá. Ela ia e vinha, de passos miúdos, de gala e de oferta.

No andar de cima, misteriosa e inflexível, desconexa e rápida, passava a luxúria religiosa, esganiçando-se em bandos lúbricos, em bandos ardentes, em bandos triunfais. E súbito, o artista descobriu, no clamor, um anão de ébano grudado a uma menina branca e caolha, num remeximento descompassado de cópula, para o onanismo sensacional de redor.

(Continua na próxima semana)

TEXTO-FIM
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Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos modernistas, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Oswald realizou, ao lado de outroas artistas, a Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Em ocasião dos 60 anos de sua morte, Outras Palavras faz série especial em sua homenagem.