Meirelles e Temer, casamento ameaçado

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A política econômica de um arrasa a popularidade do outro. Como eleger, em 2018, um sucessor? Nesse cenário, avançam Lula e Bolsonaro

Por Paulo Kliass, no Vermelho

Em 2016 os motivos estavam associados à incerteza generalizada percebida pelo ambiente diplomático internacional quanto à natureza do “golpeachment” que vinha de ter sido implantado em nossas terras. Naquele momento, em Nova York, Temer mal conseguia esconder o profundo abismo que separava o seu discurso a respeito de uma suposta normalidade político-institucional e a evidência da natureza inconstitucional do golpe jurídico-político-midiático que o havia recém conduzido ao Palácio do Planalto.

Passado um ano, percebe-se uma crescente frustração de grande parcela das forças políticas que apostaram nele. A estratégia de promover o impedimento de uma Presidenta eleita sem provas como solução para nossa crise revelou-se uma aventura irresponsável. De lá para cá, ao contrário das promessas ecoadas pelos gigantes dos meios de comunicação, a situação geral só fez se agravar. As denúncias de corrupção atingiram o núcleo duro de sua equipe de governo, de forma que boa parte de seus companheiros mais próximos estão presos, processados, denunciados e/ou acusados.

Temer tentava se ancorar em dois pilares, lutando arduamente contra a instabilidade gritante de sua própria pinguela para travessar o precipício em turbulência. Ao perceber que os sonhos dourados constantes no documento “Ponte para o futuro” não passavam de balela para boi dormir, resumiu a essência de seu governo ao seguinte binômio: i) aprovar as reformas estruturais que contribuíssem para o desmonte do Estado brasileiro; e ii) recuperar a credibilidade da política econômica por meio da indicação do time dos sonhos do financismo para ocupar os cargos de comando na área.

A nomeação da duplinha dinâmica do sistema financeiro para o Ministério da Fazenda e para o Banco Central parecia coroar um processo que – assim lhe asseguravam os conselheiros de plantão – não tinha como dar errado. Afinal, Meirelles e Goldfajn sempre foram banqueiros, com relevantes serviços prestados ao processo de acumulação de capital ao longo das últimas décadas. Investidos daquela famosa “capacidade técnica” e da “competência reconhecida entre seus pares da elite tupiniquim, eles formavam o par perfeito para dar sequência à desastrada operação do austericídio levada a cabo por Joaquim Levy ainda na gestão de Dilma.

No entanto, a empreitada não foi marcada por aquela facilidade com que os usurpadores do poder contavam até então. A liberdade que Meirelles exigiu para tocar os assuntos da política econômica começou a apresentar dificuldades de toda ordem. A obsessão em seguir o manual de juros nas alturas combinado com cortes drásticos nas despesas orçamentárias aumentou o grau de insatisfação da maioria da população com o novo governo. O desemprego seguiu crescendo de forma exponencial, as falências das empresas se acumulavam, a recessão insistia em ocupar a cena.

A contrapartida desse tipo de estratégia do grupo dirigente traduziu-se em dificuldades crescentes no Congresso Nacional. Dentre um sem número de promessas, o foco era aprovar a reforma considerada essencial – a previdenciária. Apesar da votação da Emenda Constitucional nº 95 que congelava os gastos orçamentários por longos vinte anos e da alteração regressiva na CLT, tudo indica que a chamada “mãe de todas as reformas” não vai mesmo sair do papel. O governo pode até tentar uma votação simbólica de alguma alteração cosmética no sistema da previdência social para tentar salvar sua imagem na fotografia, mas muito pouco daquilo que vendeu esse tempo todo ao sistema financeiro.

O agravamento da crise político-institucional só tem provocado ameaças de fraturas no interior de sua base aliada. As denúncias apresentadas pela Procuradoria Geral da República contra o Presidente abalam a frágil sustentação parlamentar e elevam as despesas orçamentárias a cada nova votação na sopa de letrinhas dos partidos nanicos do fisiologismo. Ao perceberem a aproximação do calendário eleitoral antes longínquo, os deputados, senadores e demais dirigentes políticos abandonam a passividade e começam a jogar de forma mais ativa no tabuleiro sucessório.

Assim, aquele suposto casamento perfeito entre Temer e Meirelles começa a oferecer sinais de esgarçamento. Afinal, não são poucos os atores embarcados na nau golpista que começam a se sentir incomodados com a companhia de Temer. Uma parcela dos tucanos não se cansa de apregoar abertamente o abandono dos cargos do PSDB e assumir maior distância em relação ao governo. Ah, mas e as reformas? – ponderam alguns. Sim, esse é realmente um dos dilemas que afligem o coração de Alckmin & cia. Como sempre, na dúvida, optam pelo muro.

O prefeito de São Paulo tenta abrir caminho próprio e deve encontrar dificuldades no partido que acabou de acolhê-lo, com todo o apoio do governador paulista para elegê-lo em outubro passado. Bolsonaro vai seguindo com seu discurso carregado de ódio e autoritarismo, comendo pelas beiradas no prato da intolerância – que foi tão cuidadosamente preparado pelas forças do conservadorismo e que agora se dizem – oh! – tão surpresas pelo radicalismo apresentado pelo coronel.

Entre Meirelles e Temer surge, de forma inesperada, a antecipação de 2018. Assim é que outro ministro de Temer, Gilberto Kassab, avança o sinal e ousa lançar Meirelles como candidato de seu partido (PSD) à sucessão presidencial. Aquele que sonhava em surgir como o candidato natural e consensual das forças conservadoras vê-se agora meio sem jeito com a situação inusitada. Meirelles não entregou o dever de casa que dele se esperava, por mais que os colunistas da grande imprensa tentem isentá-lo de qualquer responsabilidade pelo fracasso da política econômica. Pelo contrário, apostam tudo no contorcionismo numérico para tentar dourar a pílula a cada nova informação a respeito do desempenho da economia. Em prol do banqueiro, jornais e tevês se unem em torno da palavra de ordem “parou de piorar!”.

Mas Meirelles sabe que a tarefa é muito mais complicada do que um simples desejo de se candidatar. Assim, parece ter abandonado a busca inglória pela fadinha das expectativas. Agora parece ter jogado a toalha e começa a apelar para as forças divinas, em sua tentativa de obter na economia aquilo que sua pretendida competência técnica não conseguiu produzir. Combinando o discurso dos salões das elites endinheiradas com a necessária busca de algum contato com o povo, Meirelles lançou-se pela trilha das igrejas evangélicas. E fez circular um vídeo onde pede a todos uma oração para colocar a economia no lugar (sic). O ex presidente internacional do Bank of Boston reconhece sua incapacidade na condução da política econômica e pede a Deus uma ajuda nessa tarefa. Ao confessar que não conseguiu resolver os problemas que havia prometido, o ministro desqualifica outra entidade divinizada pelos liberalóides de nossas terras. Sim, uma entidade tão venerada quanto um verdadeiro “deus ex machina” – o mercado.

Ente Meirelles e Temer caiu também a bomba de mais uma pesquisa de opinião realizada pela CNT/MDA. Para além dos resultados relativos à permanência isolada de Lula na liderança e a subida perigosamente inquietante de Bolsonaro no segundo lugar, as informações a respeito da popularidade do presidente devem incomodar – e muito ! – qualquer ocupante de cargo no atual governo. Temer bateu todos os recordes até então registrados no quesito impopularidade. Apenas 3,4% da população avaliam seu governo como ótimo ou bom.

O governo está muito mal avaliado e Temer apresenta-se como o pior governante desde que a pesquisa começou a ser efetuada em 2012. Meirelles não conseguiu cumprir a missão que a ele havia sido conferida, haja vista o exército de quase 14 milhões de desempregados e o aprofundamento da gravidade da crise social. É claro que daqui para frente cada novo dado estatístico de eventual “despiora” na economia será comemorado como uma grande vitória de sua gestão à frente da Fazenda. Só falta combinar com a maioria da população que a tragédia que o Brasil atravessa não tem nada a ver com sua receita neoliberal draconiana.

Entre Meirelles e Temer despontam alguns obstáculos que podem incomodar: uma pesquisa de opinião, uma prece ao todo-poderoso e uma eleição no ano que vem. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.


* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.

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Antonio Martins

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