Francisco avança: conservadores desalojados do controle da Cúria romana

O Papa, Müller e Pell: o Vaticano muda como nunca

Em menos de uma semana, Francisco avançou celeremente para desalojar os conservadores do comando da Cúria romana e reafirmar sua liderança sobre o Vaticano e a Igreja. Demitiu nesta sexta (30) o cardeal alemã Gerhard Müller da superpoderosa Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Inquisição ou Santo Ofício); antes, havia aceitado o pedido de licença (leave of absence) do cardeal George Pell da Secretaria para a Economia para que ele vá à Austrália defender-se de pesadas acusações de pedofilia. No caso de Pell, ninguém em Roma acredita que ele retomará o posto.

A relação entre o Papa e os conservadores pode ser definida pelo ditado: “os cães ladram e a caravana passa”. Francisco até hoje não reclamou, não respondeu, não retrucou publicamente a um dos seguidos e estrepitosos ataques dos conservadores rebelados contra seu papado. Em silêncio, move as peças do tabuleiro, como um refinado enxadrista jesuíta. O cardeal alemão foi afastado também  da presidência da Pontifícia Ecclesia Dei (responsável pelas relações com os ultraconservadores lefrevianos), da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional.

É um jesuíta o sucessor de Müller na Congregação da Fé: o cardeal espanhol Luis Ladaria Ferrer, atual secretário da congregação –seu nome foi anunciado na manhã deste sábado (1) oficialmente pelo  Vaticano.  Ladaria, sucessor de Müller, está longe de ser um dos cardeais progressistas do círculo mais íntimo de Bergoglio, mas não se admite no Vaticano que ele possa manter a Congregação como um bastião conservador em Roma. Ao contrário, espera-se fidelidade de Ladaria a Francisco e o fim dos tempos da Congregação para a Doutrina da Fé como “polícia” da Igreja, apoio às ações contra os abusos de crianças e jovens e abertura ao protagonismo feminino.

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CNBB: nunca houve tamanha retirada de direitos; Igreja de Jesus trabalhador quer “sociedade que espelhe o Reino definitivo”

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz, ao falar sobre o 1º de Maio em nome da CNBB, em entrevista coletiva realizada na tarde deste Dia do Trabalhador, afirmou que “nunca se assistiu no Brasil tamanha retirada de direitos”. O bispo que é também presidente da Pastoral da Saúde, falou em Aparecida (SP), onde acontece a 55ª Assembleia Geral da CNBB: “Este 1º de Maio no Brasil é celebrado no contexto de um recuo sem precedentes nos direitos, de retirada dos direitos; o Estado esqueceu sua tarefa de mediador dos conflitos entre capital e trabalho para voltar-se contra os trabalhadores”; para ele o governo Temer “segue à risca a agenda neoliberal e, ao impor as ‘reformas’, usou uma palavra -reforma- que dá impressão de avanço, mas é uma ação para recuar ao capitalismo selvagem”.

O pronunciamento de dom Ferrería Paz foi extremamente contundente. Ele disse que “ao longo da história do Brasil os trabalhadores sempre estiveram na vanguarda das lutas democráticas” a garantiu que “os trabalhadores podem contar sempre com a Igreja Católica como companhia de caminho rumo a uma sociedade mais justa, mais fraterna que espelhe o Reino definitivo”.  Ele explicou que essa opção da Igreja prende-se à sua origem: “Estamos com a classe trabalhadora e não poderia ser de outra forma, pois Jesus foi um trabalhador”.

O bispo de Campos mencionou três iniciativas do governo Temer que concretizam a agressão aos trabalhadores: a terceirização das relações de trabalho, a reforma trabalhista e a PEC 287, “que praticamente elimina o sistema de Previdência Social no país”; dom Ferrería Paz . Ele reafirmou o apoio e incentivo da CNBB às mobilizações contra a reforma, afirmando que “diante da precarização das leis trabalhistas, nossa palavra é de encorajamento e de estímulo às mobilizações justas, democráticas e pacíficas para gerar uma cultura do trabalho decente, justo e solidário”.

No espírito do ensinamento do Papa Francisco, dom Ferrería Paz convocou os católicos e os democratas do país: “Temos que responder à globalização do descarte, da exclusão e da indiferença com a globalização da solidariedade, da comunhão e da justiça”

[Mauro Lopes]

Em nota para o 1º de Maio, CNBB acusa governo e Congresso e diz que reformas são inaceitáveis

Na Zona Leste de São Paulo, o clamor do povo na Greve Geral. Foto: Mídia Ninja

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou na noite de quarta (27), véspera da greve geral, uma nota endereçada aos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. Os bispos brasileiros, reunidos em Assembleia Geral em Aparecida (SP) encorajam a organização e mobilização do povo e acusam “os Poderes Executivo e Legislativo”, governo Temer e Congresso, de atuarem segundo a “lógica perversa do mercado”.

A CNBB atacou a terceirização, e as mudanças pretendidas pelo governo nas relações trabalhista e na Previdência, considerando “inaceitável” que “decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade.”

Na nota, os bispos conclamam: “nenhum trabalhador sem direitos!” e mencionam o discurso do Papa Francisco no Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em julho de 2015: “Juntamente com a Terra e o Teto, o Trabalho é um direito sagrado, pelo qual vale a pena lutar.”

Na manhã desta sexta, 28, IBGE anunciou que o desemprego atinge agora mais de 14 milhões de pessoas no país, algo sem precedentes (aqui).

Veja a íntegra da nota aqui ou abaixo:

AOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS DO BRASIL

MENSAGEM DA CNBB

“Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho” (Jo 5,17)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, reunida, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida – SP, em sua 55ª Assembleia Geral Ordinária, se une aos trabalhadores e às trabalhadoras, da cidade e do campo, por ocasião do dia 1º de maio. Brota do nosso coração de pastores um grito de solidariedade em defesa de seus direitos, particularmente dos 13 milhões de desempregados.

O trabalho é fundamental para a dignidade da pessoa, constitui uma dimensão da existência humana sobre a terra. Pelo trabalho, a pessoa participa da obra da criação, contribui para a construção de uma sociedade justa, tornando-se, assim, semelhante a Deus que trabalha sempre. O trabalhador não é mercadoria, por isso, não pode ser coisificado. Ele é sujeito e tem direito à justa remuneração, que não se mede apenas pelo custo da força de trabalho, mas também pelo direito à qualidade de vida digna.

Ao longo da nossa história, as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras pela conquista de direitos contribuíram para a construção de uma nação com ideais republicanos e democráticos. O dia do trabalhador e da trabalhadora é celebrado, neste ano de 2017, em meio a um ataque sistemático e ostensivo aos direitos conquistados, precarizando as condições de vida, enfraquecendo o Estado e absolutizando o Mercado. Diante disso, dizemos não ao “conceito economicista da sociedade, que procura o lucro egoísta, fora dos parâmetros da justiça social” (Papa Francisco, Audiência Geral, 1º. de maio de 2013).

Nessa lógica perversa do mercado, os Poderes Executivo e Legislativo reduzem o dever do Estado de mediar a relação entre capital e trabalho, e de garantir a proteção social. Exemplos disso são os Projetos de Lei 4302/98 (Lei das Terceirizações) e 6787/16 (Reforma Trabalhista), bem como a Proposta de Emenda à Constituição 287/16 (Reforma da Previdência). É inaceitável que decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade.

Irmãos e irmãs, trabalhadores e trabalhadoras, diante da precarização, flexibilização das leis do trabalho e demais perdas oriundas das “reformas”, nossa palavra é de esperança e de fé: nenhum trabalhador sem direitos! Juntamente com a Terra e o Teto, o Trabalho é um direito sagrado, pelo qual vale a pena lutar (Cf. Papa Francisco, Discurso aos Movimentos Populares, 9 de julho de 2015).

Encorajamos a organização democrática e mobilizações pacíficas, em defesa da dignidade e dos direitos de todos os trabalhadores e trabalhadoras, com especial atenção aos mais pobres.

Por intercessão de São José Operário, invocamos a benção de Deus para cada trabalhador e trabalhadora e suas famílias.

Aparecida, 27 de abril de 2017.

CNBB e quase 100 bispos convocam população para a greve geral

A Igreja no Brasil acerta o passo com o Papa. Na foto, Francisco com o povo no Rio, em 2013

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – aqui) e 98 arcebispos e bispos de um universo de 308 na ativa neste momento no país lançaram convocações à população para a greve geral contra as reformas do governo Temer e a política de massacre dos pobres do país iniciada depois do golpe de Estado. É uma mobilização eclesial na direção dos pobres não vista desde o fim do regime militar no Brasil, sob o impacto da mudança de rumos que o Papa Francisco lidera na Igreja em todo o mundo.

[nota: na primeira versão desta reportagem, ao fim da manhã da quarta, 26, eram no total 42 bispos e arcebispos, mas a mobilização eclesial continua a crescer]

É significativo o silêncio dos cardeais de São Paulo (dom Odilo Pedro Scherer) e do Rio (dom Orani Tempesta), que tornam suas arquidioceses em bastiões do conservadorismo católico no país em oposição ao Papa Francisco.

[Nota: No começo da tarde de quarta, o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, rompeu o silêncio e falou. Um vexame que envergonhou a Igreja. Escalado para a entrevista coletiva da primeira tarde da Assembleia Geral da CNBB, pouco depois das 15h, o cardeal foi encarregado de falar sobre os temas sociais do país. Ao apresentar a agenda da Assembleia, ele ignorou a greve geral, apesar do posicionamento oficial da CNBB. Questionado por um jornalista, dom Odilo deu razão a todos os que o acusam de aderir ao regime do golpe. Disse secamente que “o povo tem direito de se manifestar”, disse que espera que a reforma da Previdência seja boa (?) e arrematou: “dizer que somos a favor ou contra é muito simplista”.
Apresentou uma posição “neutra” quanto à reforma da Previdência e quanto à reforma trabalhista e à terceirização –neutralidade que é o desejo maior de Temer neste momento em que o governo está isolado na sociedade.
Como o personagem bíblico, o cardeal lavou as mãos: “Quanto aos bispos que conclamaram a greve, bem, cada bispo é livre para fazer o que quiser.
Candidato a Papa da Cúria romana no último conclave, derrotado por Francisco, o cardeal de São Paulo deixa toda a Igreja-Povo de Deus com enormes saudades dos tempos de dom Cláudio Hummes e especialmente dom Paulo Evaristo Arns.]

Veja a lista dos arcebispos e bispos que se manifestaram e, ao final, vários dos vídeos espalhados nas redes sociais –é uma lista parcial do que foi possível levantar a partir da “garimpagem” e partilha de muitas pessoas.

[Mauro Lopes]

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Temer e Doria tentam usar o Papa para seus projetos, com apoio da Globo e mídias auxiliares

 

Um beijo de farsa e constrangimento

Michel Temer e João Doria tentaram usar a figura do Francisco, querido em todo o mundo e por milhões de brasileiros e brasileiras, para seus projetos de poder. Com apoio das Organizações Globo e mídias auxiliares distorceram o conteúdo de uma carta de Francisco a Temer e, no caso de Doria, tentaram transformar encontro rápido na Praça São Pedro em “audiência” e uma cena constrangedora em momento de “intimidade e empatia”. Foram duas operações de relações públicas/pós-jornalismo nos últimos dois dias, ambas destinadas a engambelar as pessoas.

Francisco respondeu dias atrás uma carta de Temer na qual era convidado a vir ao Brasil. Como tratou-se de correspondência privada, a Santa Sé não divulgou o conteúdo. Mas o colunista global Gerson Camarotti, um dos queridinhos do Palácio do Planalto, recebeu trechos da correspondência e postou reportagem na qual tentou vender ao país uma suposta “neutralidade” de Francisco diante da situação do Brasil -desmentida até mesmo pelos trechos pinçados por Camarotti e suas fontes. O título da nota, verdadeiro press release oficial: “Em carta, Papa diz a Temer que crise no Brasil não é de fácil solução”.

O Papa foi duro com Temer e as reformas que ele e o capital financeiro tentam aprovar, com apoio da Globo: “não posso deixar de pensar em tantas pessoas, sobretudo nos mais pobres, que muitas vezes se veem completamente abandonados e costumam ser aqueles que pagam o preço mais amargo e dilacerante de algumas soluções fáceis e superficiais para crises que vão muito além da esfera meramente financeira”. O Papa escreveu que o Brasil vive “um momento triste”. Estes são os trechos vazados da carta, que não autorizam “neutralidade” ou “simpatia” do Papa com regime do golpe.

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As igrejas católica e luterana veem o país e confrontam governo Temer

O país do povo que resiste ao jugo do turbocapitalismo. Foto: MTST

As igrejas, no ritmo do Evangelho do cego de nascença (Jo 9, 1-41) que católicos e católicas escutam nas missas deste domingo (26) começam a “ver o país”.

 

A opção preferencial pelos ricos e a política de terra arrasada contra os pobres do governo Temer está levando as igrejas católica e luterana para um confronto que começa a lembrar a dicotomia existente no período da ditadura militar no país. É impressionante a sequência de pronunciamentos de algumas das mais expressivas lideranças das duas igrejas que foi claramente pautada pela agenda dos movimentos sociais: o primeiro foi no Dia Internacional da Mulher, depois houve uma onda impulsionada pelo Dia Nacional de Paralisação e Luta em 15 de março e o momento culminante aconteceu na quinta-feira (23) com uma dura nota da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) contra a reforma da Previdência Social, considerando-a uma escolha “pelo caminho da exclusão social” (aqui).

O fato é que a emenda constitucional que restringe os gastos públicos, a aprovação da terceirização selvagem das relações de trabalho e a tentativa de liquidação da Previdência Social compõem o centro do governo nascido com o golpe contra uma presidente eleita e rompem os dois grandes pilares do pacto social brasileiro, a CLT e a Constituição de 1988.

O primeiro pronunciamento, no Dia Internacional da Mulher, foi da Conferência dos Religiosos do Brasil, que reúne mais de 35 mil religiosos e religiosas de congregações –mulheres, em sua imensa maioria. Sua presidente, irmã Maria Inês Vieira Ribeiro, distribuiu uma carta na qual se expressou “com o coração entristecido por, mais uma vez, ver os interesses de poucos solaparem os direitos de muitos, especialmente das crianças e jovens mais pobres e vulneráveis. Literalmente querem nos tirar as migalhas.” A freira convocou a mobilização de todos os religiosos e religiosas: “Ou nós nos mobilizamos e defendemos o direito das nossas instituições e dos pobres, ou mais uma vez pagaremos a conta dos desmandos palacianos”.

No Dia de Lutas, em 15 de março, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas em todo o país, os franciscanos e os jesuítas divulgaram notas contundentes, enquanto comunidades de base da Igreja Católica acorreram às manifestações.

Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM, superior da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, que reúne mais de 400 franciscanos nos Estados de SP, Rio, ES, PR e SC, lançou uma nota logo na manhã de quarta (15) na qual anunciou um “posicionamento frontalmente contrário à Reforma da Previdência Social”.  O posicionamento, segundo Vanboemmel, é “baseado na realidade que nossos confrades encontram nos ambientes onde vivem e convivem e no compromisso com a Justiça, exigência irrenunciável do Evangelho”. Ele qualificou a emenda da Previdência de “ato de covardia com os mais pobres”.

A Companhia de Jesus, ordem a que pertence o Papa Francisco e que reúne mais de 16 mil jesuítas ao redor do mundo, emitiu um comunicado em nome de todos os seus líderes que estavam reunidos no dia 15 em São Leopoldo (RS) afirmou olhar com “esperança de que mobilizações como a de hoje ajudem a sensibilizar os nossos governantes e congressistas a rever seus posicionamentos”.

No mesmo dia, o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) distribuiu um parecer de sua assessoria jurídica apontando a inconstitucionalidade e perversidade dos efeitos da reforma contra os povos originários do país (aqui).

A seguir, os luteranos da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) pronunciaram-se numa carta que historia os posicionamentos corajosos de seus pastores no último ano e “admoesta as autoridades diante do quadro brasileiro com a Palavra do Senhor: Executai o direito e a justiça e livrai o oprimido das mãos do opressor; não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar (Jeremias 22.3)”.

Dois dias depois, em 17 de março, Dom Francisco Biasin, bispo da diocese de Volta Redonda (RJ) publicou uma nota confrontando diretamente no novo eixo de poder do país: “É escandalosa a ascensão ao poder de pessoas de duvidosa reputação, sob suspeita de corrupcão ou em adiantado processo de investigação, para ocupar cargos de alta responsabilidade no Legislativo, no Judiciário e no Executivo.”

Não é coincidência a harmonia de movimentos dos católicos e luteranos no país simultaneamente a uma aproximação sem precedentes entre as duas Igrejas liderada pelo Papa Francisco e pelo presidente da Federação Luterana Mundial, bispo Munib Younan –sob oposição cerrada do conservadorismo católico.

O reitor da PUC-MG e bispo auxiliar de Belo Horizonte, Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, numa entrevista ao site italiano Settimana News advertiu: “Os brasileiros precisamos ter a consciência da gravidade do momento político, social, econômico e moral que vivemos nos últimos meses.”

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Governo Temer: os ricos querem arrancar dos pobres mais de 6% do PIB

O documento-síntese do estudo sobre a demolição da Previdência Social; texto completo estará disponível em alguns dias

Estive na noite desta terça (14) numa apresentação do economista Eduardo Fagnani sobre o documento-síntese do estudo Previdência: reformar para excluir? a um grupo de jornalistas do site Previdência, Mitos e Verdades e da CTB. Saí muito impactado. A explicação deveria ser apresentada às escolas, nas favelas, no Congresso, nas ruas. O texto completo sairá à luz nos próximos dias e o Previdência, Mitos e Verdades irá apresentá-lo em capítulos, de maneira didática e atraente, em textos e vídeos.

O que está por trás da reforma da Previdência e da Lei do Teto dos Gastos Públicos e outras medidas do governo Temer? Elas não guardam qualquer relação com a saúde financeira do Estado, como alardeiam os porta-vozes do governo golpista.

O que está em jogo é simples assim: desde a Constituição de 1988 e de maneira expressiva nos governos do PT, os gastos federais com a Previdência Social e programas sociais superaram 10% do PIB. Este patamar foi garantido por decisões políticas quanto à alocação dos recursos, pelo programa de valorização do salário mínimo dos governos petistas e pelo crescimento econômico.  Ora, qual era o percentual do PIB destinado aos mais pobres antes de 1988? 3% a 4% do PIB!

Para que se tenha uma ideia ainda que muito parcial do impacto destas políticas desde a Constituição de 1988, elas significaram que 82% dos velhos no país recebem benefício da Previdência, enquanto no resto da América Latina este percentual não ultrapassa 40% e há países em que é 10%. É para onde vamos se o governo Temer conseguir aprovar seus pacotes –a miséria irá se alastrar como uma epidemia no país e rapidamente voltaremos aos padrões dos anos 1980 (o que já começou a acontecer).

Toda a ação do governo Temer tem como objetivo devolver aos ricos esses 6% a 7% que a Casa Grande considera que lhes foram roubados desde a Constituição Cidadã de Ulysses Guimarães e durante os governos do PT. Estamos falando de os ricos tomarem dos pobres quase R$ 400 bilhões anualmente! Para isso, foi aprovada a Lei do Teto, querem aprovar a reforma da Previdência, arrochar e desvincular cada vez mais os benefícios do valor do salário mínimo, entre outras medidas.

É claro que tal programa jamais seria aprovado nas urnas. É a razão do golpe.

Previdência: reformar para excluir?  é um estudo inédito sobre a Previdência Social no Brasil e sua destruição arquitetada pelo governo Temer, realizado por mais de 50 economistas, especialistas em finanças e Seguridade Social de alto nível, organizado pela Associação Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e coordenado por Fagnani.

[Mauro Lopes]