Como a China subverte a ortodoxia econômica

Governo gasta, sistematicamente, mais do que arrecada. Para as teorias convencionais, país estaria quebrado. Mas tornou-se uma superpotência global. Haverá algo errado com as velhas fórmulas de “austeridade”?

File photo taken in November 2017 shows U.S. President Donald Trump (R) and Chinese President Xi Jinping attending a welcome ceremony in Beijing. Trump announced tariffs on $60 billion of imports from China on March 22, 2018, in response to what he sees as China’s unfair trade and investment practices. (Kyodo) ==Kyodo

Por David Deccache, editor do Economia à Esquerda 

No início de março, a China anunciou um plano fiscal extremamente agressivo: dentre outros, irá injetar 800 bilhões de yuans [equivalentes a US$ 120 bi] na construção de ferrovias e 1,8 trilhão de yuans [US$ 270 bi] para construir estradas e transporte aquaviário.

Um desavisado poderia sugerir que tanto investimento teria que ter como contrapartida aumentos de tributos. Contudo, o Partido Comunista Chinês pretende fazer o oposto disso: uma mega redução dos tributos. O governo cortará impostos e taxas para as empresas em um total de 2 trilhões de yuans (US$ 298 bilhões).

Um questionamento surge automaticamente ao nos depararmos com essa proposta de política fiscal: seriam sustentáveis gastos acima da arrecadação por um longo período de tempo? Isso não geraria uma crise econômica? Algum economista heterodoxo mais desconfiado poderia alegar que uma política tão ousada só poderia ser realizada em um país como os EUA, que possui como moeda o dólar (o Yuan só passou a fazer parte da cesta de moedas de reserva do FMI em 2015)

Para respondermos a questão basta olharmos para as finanças públicas da própria China nas últimas décadas: ao analisar os anos de 1996 até 2016 constatamos que por todo o período a China gastou mais do que arrecadou, ou seja, a política fiscal chinesa é estruturalmente deficitária. Veja o gráfico:

E este modelo, baseado em uma política fiscal estruturalmente deficitária em paralelo a um mega intervencionismo estatal, culminou em um desastre econômico e social?

A resposta é um enfático NÃO. 

A China, que era um país semi-feudal e miserável até metade do século passado, segundo o FMI poderá ultrapassar os EUA e se tornar a maior potência econômica do planeta até 2030. 

E o sucesso econômico chinês tem se materializado em um verdadeiro milagre social: sob a liderança do Partido Comunista Chinês, desde 1981, a China retirou 853 milhões de pessoas da linha da pobreza – 78% da redução do número de pessoas que vivem na pobreza no mundo. Muitos alegariam que o fenômeno se dá por conta dos baixos salários. Porém, nos últimos 11 anos, os salários horários na indústria chinesa cresceram 200%, ou seja, um crescimento anual médio de 9,6%. Algo impressionante. Os salários na China já são superiores aos pagos em outras economias periféricas como Brasil, México e Argentina.

A China é a grande prova do que o bom uso da soberania monetária é capaz.

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4 comentários para "Como a China subverte a ortodoxia econômica"

  1. José Pata disse:

    Cara… só acredita nessa conversa quem não conhece NADA da China, pelo visto, vc não conhece nada sob Império do Meio… a China só está retornando ao caminho que já foi dela algumas vezes … nos último 4.000 mil anos… isso mesmo … a China é uma civilização milenar… só pra começo de conversa…

  2. JORGE disse:

    Excelente Artigo.
    Embora seja curto, sem o “economês” de praxe, que só atrapalha e serve para enganar os incautos, traz informação e mostra muito bem duas coisas:
    1) como a ortodoxia econômica é furada, foi criada e serve sobretudo para países vassalos, terceiro mundistas, como o brazil;
    2) como a economia é vista e exercida de outra forma, como pode ser num País Soberano, como é a China!

  3. euclides de oliveira pinto neto disse:

    A economia chinesa é voltada para a inclusão social da população e promove o crescimento economico, possibilitando o incremento de novas parcelas de consumidores, em breves ciclos economicos. A velocidade do crescimento e a inclusão desses ganhos na economia, abrangendo o maior número de cidadãos, possibilita o aumento de consumo na economia, repetindo o ciclo novamente. A partir do momento que a inclusão social atinja seus objetivos – que ainda demora, em razão da quantidade de habitantes – e quando a renda média atinja valores que garantam um padrão de vida adequado para a população, deverá ocorrer uma redução na velocidade do crescimento. Mas os objetivos básicos já terão sido atingidos. A economia chinesa trabalha para que o desenvolvimento beneficie 100% da população, ao contrário do ocidente, onde os resultados são distribuidos de forma muito desonesta, onde os 20% da população costumam absorver mais de 90% dos resultados economicos, restando uma parcela muito pequena para atender à imensa maioria, razão para o incremento da miséria em quase todas as nações e o crescimento das desigualdades.

  4. jose antonio de castro disse:

    Visitando cidades chinesas gigantescas, como as comunistas Pequim e Shangai, cada uma representando mais que o dobro de habitantes da capitalista São Paulo, não se observa uma única só pessoa dormindo pelas ruas, contrastando aos milhares que aqui na maior e mais rica metrópole brasileira dormem ao relento das ruas, adultos, velhos e crianças. O que está fracassando, a economia chinesa com estado forte ou a economia brasileira com o neoliberalismo e estado ausente??

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