Homem é morto com tiro nas costas na porta de casa em Manguinhos

José Carlos de Jesus Almeida estacionou seu carro e foi atingido antes de entrar em casa. PM alega que estava havendo confronto na região, mas moradores afirmam que não havia tiroteio, que o primeiro disparo ouvido foi o que matou o homem e veio da Avenida dos Democráticos

Reportagem de Luiza Sansão

José Carlos de Jesus Almeida estacionou o carro pouco antes das 21h desta sexta-feira (20) na porta de casa, em uma rua da favela de Manguinhos que dá acesso à Avenida dos Democráticos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, próxima à Cidade da Polícia. Só deu tempo de colocar a filha e dois sobrinhos para dentro de casa, antes que um tiro o atingisse pelas costas, na altura do peito, tirando quase que instantaneamente a vida do homem de 45 anos.

A Polícia Militar afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que estava havendo confronto entre policiais e criminosos, mas os moradores que estavam no local alegaram unanimemente, que o primeiro disparo de arma de fogo que ouviram foi quando José Carlos foi atingido. “Quando as crianças desceram do carro, começaram os tiros. Foi do nada, não tinha tiroteio. Veio da Democráticos”, contou um morador, que não quis se identificar, apontando para a avenida, onde havia somente policiais. “Não estamos dizendo que foi A ou B que atirou. Mas se viram que tinha criança brincando na rua, por que um ser humano faz uma brutalidade dessa?”, revoltou-se uma moradora. O disparo, segundo moradores, partiu da Avenida dos Democráticos, onde havia policiais.

Eram quase 22h30 quando cheguei à favela de Manguinhos. Um grupo de policiais fazia escolta na Avenida dos Democráticos, em frente à rua onde José Carlos foi morto. Depois de passar pela aglomeração de moradores, alcancei Ana, mulher de José Carlos, que chorava sentada na porta de sua casa, amparada por vizinhos e amigos, com o olhar perdido.

José Carlos de Jesus Almeida, morto na noite do dia 20/07 em Manguinhos. | Foto: Arquivo pessoal

Cerca de quatro metros adiante, o corpo estendido no chão, coberto com um edredom, o sangue a escorrer. Em volta, numa espécie de vigília, moradores temiam que o corpo fosse levado por policiais sem que fosse realizada a perícia pela Polícia Civil.

José Carlos era autônomo, trabalhava como auxiliar em uma barraca na praia de Copacabana, Zona Sul do Rio. Tinha dois filhos: Antônio Carlos, de 9 anos, e Milena, de 6.

Segundo uma moradora, “ele chegou do trabalho, saiu para ligar o carro, colocou a filha e dois sobrinhos no carro, deu uma voltinha e voltou”. Então abriu a porta na frente de sua casa e as crianças desceram. “Foi quando ouvimos o primeiro tiro e todo mundo correu”, disse ela. Ao ser atingido nas costas, José Carlos “escorou no carro e tentou andar, mas caiu”, disse outro morador.

“Eu gritei por ele e ele já não me respondeu. Aí os vizinhos viram que ele estava baleado, caído no chão. Ele já tinha partido”, contou a mulher, desolada.

Minutos depois chegou o padre Geraldo, conhecido na comunidade como Padre Gegê. Todos se reuniram em torno do corpo e o padre fez uma oração, durante a qual as pessoas deram-se as mãos, envolvendo a família de José Carlos em uma atmosfera de carinho e acolhimento. “Estou muito abalado. Mais corpo pobre, negro, no chão, é um problema que se vê todos os dias nas favelas. Vim para dar um abraço na família, na comunidade, para prestar solidariedade”, disse.

Padre Geraldo faz oração com moradores em volta do corpo de José Carlos. | Foto: Luiza Sansão


Ao ver o padre negro que levava seu apoio à comunidade naquele momento, lembrei-me imediatamente de quando ele celebrou, em 2015, a missa de sétimo dia de Cristian Soares Andrade, de 13 anos, morto por policiais enquanto brincava no campinho de futebol de Manguinhos, durante uma operação na favela.

Na ocasião, para falar sobre as violações de direitos humanos praticadas por agentes do Estado contra a população das favelas, o padre aludiu ao período da escravidão e ao Apartheid, e citou líderes negros como Abdias Nascimento, Nelson Mandela e Martin Luther King. Durante a celebração, cada vítima de violência de Estado foi lembrada por familiares em voz alta, sendo os nomes repetidos em oração pelo padre como contei na reportagem Em homenagem a vítimas de violência policial no RJ, moradores e familiares clamam por Justiça.

Mulher coloca vela acesa ao lado do corpo durante oração. | Foto: Luiza Sansão

A perícia chegou perto da meia-noite e as pessoas que se aglomeravam em apoio à família abriram caminho para os policiais civis trabalharem, mas não deixaram o local. Naquele momento, moradores manifestaram uma preocupação comum a quem vive na favela. “Só dá medo de que os policiais se aproveitem da situação para iniciar um confronto com traficantes”, disse uma moradora. “Só queremos cuidar do sofrimento da família”, disse outra moradora aos policiais, com ar de quem suplicava para que eles se ativessem à realização da perícia.

Policiais circulam pelo local do crime enquanto a perícia é realizada. | Foto: Luiza Sansão

Por volta de uma e meia da madrugada, a Defesa Civil chegou ao local para levar o corpo do homem.

DefEsa Civil busca o corpo de José Carlos por volta de uma e meia da madrugada.

Questionada pela reportagem sobre as circunstâncias em que José Carlos foi morto, a PM enviou, por meio de sua assessoria, a seguinte nota:

“Segundo informações da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Jacarezinho, policiais realizavam baseamento na Av. Don Helder Câmara quando desconfiaram de um veículo em atitude suspeita, na noite desta sexta-feira (20/7). No momento da abordagem, criminosos armados atiraram da comunidade do Manguinhos contra a guarnição e houve confronto. Um policial foi atingido por estilhaços e socorrido para o Hospital Geral de Bonsucesso, onde foi atendido e liberado. Outros dois homens foram atingidos, sendo um socorrido para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Manguinhos e o outro não resistindo aos ferimentos. A Delegacia de Homicídios (DH) foi acionada para a perícia no local”.

Já a Polícia Civil respondeu apenas que o caso está sendo investigado pela Divisão de Homicídios da Capital.

Carro de José Carlos perfurado por projétil e com vidro estilhaçado. | Foto: Joel Luiz Costa

Luiza Sansão

Jornalista com foco em segurança pública e direitos humanos, formou-se pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Recebeu Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog, em 2013, com reportagem publicada na Revista Adusp. Foi repórter da Ponte Jornalismo entre 2015 e 2017. Está escrevendo livro sobre o caso Rafael Braga.

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