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Wallerstein analisa: Coreia do Norte ignora sanções internacionais porque sabe que ameaças dos EUA são retóricas e revelam um superpoder em declínio

Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Inês Castilho

É evidente que a Coreia do Norte é hoje o regime mais criticado do mundo. Praticamente todos os outros governos, no sistema-mundo moderno, fariam qualquer coisa para forçar a Coreia do Norte a mudar suas políticas, tanto internas quanto externas. Isso, apesar de que parecem não poder fazer muita coisa – quase nada, na verdade.

Como esse regime tem sido capaz de ignorar todas as medidas punitivas votadas e até mesmo implementadas na prática por Estados Unidos, China, Japão e Coreia do Sul? A consideração básica de todos os que se opõem à Coreia do Norte tem sido o medo do que ela possa fazer, se pressionada em excesso. Devemos, contudo, distinguir entre o medo de suas possíveis ações internas e o medo de suas ações externas.

A Coreia do Norte está longe de ser o único regime que trata mal, de várias maneiras, os dissidentes. Muito pelo contrário. Maltratar as forças oposicionistas é atividade cotidiana ao redor do globo. O que distingue a Coreia do Norte de todos os outros nos maus tratos a seus opositores é a perversidade do comportamento do regime. Na dinastia Kim, que já dura três gerações, o governantes que ocupa hoje o poder parece ser o que reage mais rápido, e de modo mais mortífero. Isso pode ser interpretado como sinal de insegurança. Não importa. Seja qual for o motivo, parece uma realidade, o que leva seus vizinhos a hesitar em provocá-lo ainda mais.

Esse medo que outros regimes têm do comportamento interno da Coreia do Norte é, contudo, muito menor do que o medo de que, na arena internacional, o país possa um dia utilizar armas nucleares, deliberada ou inadvertidamente. Muitos governos afirmaram isso publicamente e adotaram várias sanções contra o regime norte-coreano pela falta de resposta às pressões para mudar sua política. A Coreia do Norte simplesmente as ignora.

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Um modo de entender por que razão o regime norte-coreano é capaz de ser tão impermeável a todas as pressões é pensar o que poderia acontecer no dia seguinte, o day after, tanto interna quanto externamente. Suponha que o regime desabe e deixe de ocupar o poder. O que viria depois? Isso é particularmente preocupante para a China e a Coreia do Sul.

O que a China e a Coreia do Sul mais temem é uma súbita queda do regime norte-coreano. Os dois preveem um movimento maciço de norte-coreanos em direção a seus países. Consideram quase impossível deter esse movimento, ou mesmo limitar suas dimensões. As consequências para a política interna da China e da Coreia do Sul seriam enormes, levando talvez a desestabilizar a unidade chinesa e a ordem interna sul-coreana.

Tanto China como Coreia do Sul perderam a confiança de que os Estados Unidos poderiam intervir nessa situação de alguma forma significativa. Os Estados Unidos tornam-se, portanto, um fator irrelevante em suas decisões políticas. Isso, por sua vez, cria uma mudança na situação dos países vizinhos. Japão, Coreia do Sul e Taiwan abstiveram-se de se tornar potências nucleares supondo que os Estados Unidos seriam seu escudo nuclear. Uma vez que não acreditam mais nisso, sentirão necessidade de criar sua própria defesa atômica.

Isso, por sua vez, irá afetar as decisões de regimes no sudeste da Ásia e na Australásia. Eles terão de criar seu próprio escudo nuclear ou depender do escudo da China. Na medida em que esses países se liguem à China, o maior perdedor geopolítico será a Índia. A forte competição entre China e Índia levará a Déli a colocar maior ênfase ainda na crescente colaboração com os Estados Unidos, muito embora os Estados Unidos sejam um parceiro não-confiável para a Índia.

O maior beneficiado desses realinhamentos será o Irã, cujos laços com a China, já consideráveis, irão intensificar-se. Isso vai desestabilizar a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (UAE, na sigla em inglês), que por sua vez podem pensar em prosseguir com os armamentos nucleares, embora estejam longe de adquirir a capacidade técnica para fazê-lo com alguma velocidade. A despeito disso, precisarão fazer alguma coisa, ou enfrentar conflitos internos.

Nessa nova situação, a Rússia é o país que terá maior vantagem sobre o desconforto de todos os outros. Ela já o faz, ao se recusar a implementar as sanções à Coreia do Norte. Também ao substituir os Estados Unidos na zona árabe/muçulmana como a potência com maior capacidade de mediar compromissos políticos.

Poderíamos seguir, discutindo as consequências para a Indonésia, a Turquia, o Irã e a Síria, e para a Europa Ocidental. Mas tudo isso explica por que a Coreia do Norte é capaz de prosseguir em seu próprio caminho, como está fazendo. Pode-se notar a ironia de que o regime mais criticado do mundo é, em certo sentido, o mais forte — porque o mais autônomo. Ele tem a força que deriva do medo de todos os outros com relação ao day after.

A Coreia do Norte não tem interesse em um conflito nuclear. O regime sabe que não sobreviveria. O que ele quer é que os Estados Unidos – que enxergam como um inimigo permanente – garantam: (1) o reconhecimento de que é um poder nuclear legítimo e (2) que se absterão de voltar a intevir na política interna da Coreia do Norte.

A única coisa que pode reduzir o risco de caos nuclear é a aceitação, pelos Estados Unidos, dos limites de seu próprio poder geopolítico e de que terão de negociar diretamente com a Coreia do Norte. Por ora, nem o presidente Trump, nem o Congresso norte-americano estão prontos para fazer esse movimento radical. A questão, entretanto, é quanto tempo mais os Estados Unidos irão demorar para engolir essa realidade geopolítica.

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Immanuel Wallerstein

Immanuel Wallerstein é um dos intelectuais de maior projeção internacional na atualidade. Seus estudos e análises abrangem temas sociólogicos, históricos, políticos, econômicos e das relações internacionais. É professor na Universidade de Yale e autor de dezenas de livros. Mantém um site onde publica seus textos (http://www.iwallerstein.com/).