Os Condenados: 16º trecho da trilogia de Oswald

140912_Gregorio Gruber

“Passou o dia estirado em um quarto de hotel, em Santos. A noite veio e foi… Ficou até meio-dia na cama alva e desconhecida. Fazia um calor de porto sul-americano”

Por Oswald de Andrade | Imagem Gregório Gruber

____

No âmbito da série “Oswald 60″, Outras Palavras publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados.

____

Na sequência anterior, o folhetim policial da gazeta paulista não disse a verdade. Os amigos encontram o corpo de Jorge ainda com vida, no necrotério. Na alvorada hospitalar, o escultor é desnudado como para uma lição de anatomia. Depois de conversar com o médico, Carlos Bairão sai: não quer ver o operado: Dr. Bráulio não garante a recuperação do escultor. Antero d’Alvelos, o tio de Jorge, vem de longe para acompanhar o estado do sobrinho. Este urra de dor e delira por muito tempo. A mãe de Mary Beatriz, sem saber, acompanha a catástrofe do suicida. Em outro quarto, a filha tenta se recuperar de uma doença que parece fatal. (Theotonio de Paiva, editor de Oswald 60)

____

TEXTO-MEIO

Então, não era só ele a sofrer? Pelo mundo, anônimas, caladas, existiam outras almas sob o peso de outras tragédias. Almas emudecidas como a sua e outras almas que haviam gritado o nome do Senhor e recebido dele a ordem de formar na cavalaria dos devotamentos quietos, das consolações sem recompensa…

Numa confusa fixação escultural, Jorge viu a procissão final do mundo desenhar-se num Josafá de cem léguas: de um lado, os idólatras, os taciturnos, os blasfemos; do outro, num desabafo de vitória, todos os crucificados da terra.

*-*-*-*-*

Lá fora, no parque de folhagem entre muros, a névoa de São Paulo vestia as árvores de branco, na manhã de fins de março.

Raparam-lhe a barba. Iam levá-lo para ver Mary Beatriz que o esperava, cada vez mais ansiosa nos grandes olhos, abertos e fixos para a porta. Ele foi pelos corredores, arrastando-se e sorrindo, num cortejo comovido de amigos.

Haviam atufado de flores o quarto branco da enferma.

*-*-*-*-*

Ao deixarem-lhe perceber que Mary Beatriz estava ali, ao seu lado, no mesmo hospital, Jorge d’Alvelos tivera uma surpresa nervosa e feliz. Depois, vieram as demoradas conversas com a mãe da artista doente. A boa senhora reconduziu-o fàcilmente ao passado onde a sua mocidade lírica cantava. As recordações avivadas, os detalhes lembrados, as notícias de amigos e de episódios, exposições de arte, a volta triunfal das tropas negras que se haviam batido em Vittorio Veneto – tudo o levara de novo, numa persuasão inquieta e excelente, ao fio partido de existência. Além disso, a mãe tinha qualquer coisa da filha, nos olhos, no gesto – qualquer coisa.

Aquela noite, ele percebeu, numa confissão embaraçante, que amava. Pediu perdão à morta. Tinha o corpo enrolado em pensos, as pernas desobedientes, a cabeça frágil.

E Mary voltava por entre os travesseiros alvos do encosto; sorria, esperava…

Pela manhã, foram achar Jorge d’Alvelos fora da cadeira de rodas. Levantara-se sozinho afinal.

*-*-*-*-*

– Por que não fiquei?

– Tens saudade?

II rimpianto…

– Chorar ainda?

– Sobre o passado perdido.

Houve um silêncio de hospital. Lá fora, ia gente conversando. E ele falou:

– Pobre passado! Lembras-te? Fazia um ano e um dia que nos havíamos conhecido. Tivéramos um arrufo na véspera…

– Sim… E tu partiras para voltar melhor.

– E voltei, na manhã inacreditável, batida de sinos, na manhã de luar. Dormias no divã da sala. Acordei-te num grande susto de criança. Como suspiravas profundo!

Contemplaram-se numa transfusão de existências, pelos olhos molhados. E ela, cerrou os cílios, numa súbita fadiga, recostada aos grandes travesseiros.

Ficaram perdidos, mão na mão. Longínqua, nos campanários novos das torres de São Bento, uma festa de sinos começou. Ele prosseguiu:

– Tinhas nervos à flor da pele de seda. Às vezes, chegavas à Via Flamminia, com os primeiros raios esquivos do sol. Lembras-te… Foi um outono sobrenatural. O Tibre transbordava águas negras das últimas chuvas. Como corria repousada a vida no nosso jardim de inverno! As manhãs do meu pijama de flores amarelas, com a tua entrada ligeira… E as tosses convulsivas do porteiro… lembras-te! E o poeta que te amava e empoava os cabelos… E o compositor… o nosso mundo…

– Tartarella… Ele assistiu ao nosso embarque em Piazza Termini.

Mary Beatriz cerrara os olhos. A febre subia. Jorge levantou-se dificultosamente das almofadas que juntara ao chão. Ia fechar a janela. Mas ela exclamou:

– Não! Este azul lembra-me as manhãs daquele tempo.

A tarde baixava em ouro lá fora.

As aves-marias dos monges, na abadia de pedra da cidade americana, ressoavam espaçadamente.

– Ouves?

– Parecem os sinos de Roma!

Haviam-nos deixado sós o dia todo. A doente dir-se-ia dormir. Tinha as faces incendiadas. Jorge esperou, devorando-a com os olhos pensativos. Depois, tomou-lhe cautelosamente o pulso, contou as pancadas rápidas da artéria.

Ela parecia reanimar-se lentamente. Descerrou os olhos, e falando numa superexcitação:

– Era maio… aquele mês de maio, quando íamos visitar as igrejas… Lembraste das tardes de oca, dos dias de fogo? São Pedro fazia: Bá-om!. B’-om! como agora.

– No ar todo azul, riscado de andorinhas negras, de regresso como a felicidade…

Quando o médico e a mãe entraram, chamados pela enfermeira, vieram encontrá-los rubros de febre, na evocação delirante do sol, que pela janela, entre árvores, caía por detrás de São Pedro, como outrora.

*-*-*-*-*

Haviam-lhe chegado duas cartas.

Na sala clara da secretaria, ele abrira a primeira que trazia um envelope da Fazenda Nova Olímpia.

Era um convite risonho e bulhento, traçado numa letra quase infantil, desenhada em caracteres americanos. Terminava assim:

“Não sabe como os seus primos e primas o esperam todos os dias, quando o Ford chega da estação. Papai nos disse que você prometeu vir sem falta. Venha logo e não se esqueça dos presentes que papai disse que você nos trouxe da Europa.”

Seguiram-se uma lista jovial, as assinaturas, as primeiras caprichadas, as outras balbuciamentos apenas legíveis:

Maria Teresa
Anita
Jorge
Belkiss

– É verdade – disse o secretário – tenho mais uma carta, guardada aqui, deixada por seu tio.

Procurou a uma gaveta. Jorge, interessado, rasgou o envelope e leu:

“Meu prezado sobrinho.
Desde que soube de todo o ocorrido, parti no forte desejo, na ânsia em que me vi de me comunicar contigo, de correr ao teu encontro.
Cheio de preocupações e de responsabilidades, pequenas em si, mas suficientes e sobejas para assoberbarem um homem idoso, vejo-me na necessidade de voltar imediatamente para a fazenda.
Meu caro amigo e meu filho – pois creio que te posso chamar assim – sinto que sofres e que estás só na vida. Esta ideia me penetra fundo e me domina, como lógica inexorável do sentimento que tenho por ti. Desejo ver-te, abraçar-te e ter-te ao meu lado, com a minha família que é a substituta da tua. Não conto voltar tão cedo a São Paulo. Por que não vens a Nova Olímpia? É meu ardente desejo. Passarás alguns meses comigo, na nossa casa. Tenho um quarto vazio e pronto. E conversaremos longamente. Creio que essa viagem havia de fazer-te bem. Uma boa disposição e o trem te trarão até a nossa estação, onde irei te buscar com primos e primas. Creio que atenderás ao meu apelo sincero.
Teu velho amigo e tio – Antero d’Alvelos”.

Jorge pensou no calvário de Alma, abandonada ao lado do avô inerme. Não compreendeu aquele interesse do tronco enriquecido e vitorioso.

Tinha a outra carta fechada na mão. Abriu-a e leu um bilhete mal escrito e imundo de Milagre. Ela dizia-lhe que trabalhava agora no Teatro Boa Vista e pedia-lhe dinheiro.

*-*-*-*-*

O Dr. Bráulio Costa chamou Jorge d’Alvelos para a sala de visitas, com mobília grenat de couro, da Casa de Saúde.

– Meu amigo, preciso ter com você a máxima franqueza. Conheço a sua robustez física e moral.

– Quer falar-me de Mary Beatriz?

– É verdade. O estado dela inspira cuidados. Como sabe, o Dr. Pinheiro chamou esta manhã o Dr. Mário Lupércio, uma das nossas autoridades em afecções do pulmão… A tuberculose declarou-se com uma feição lenta e silenciosa. Ela tem um precedente na família.

– Pode morrer então?

– Não quero dizer isso. Mas é preciso procurar um clima que estacione a marcha da moléstia…

Jorge numa inesperada angústia, voltou ao quarto. Perscrutou demoradamente a doente que sorria nos travesseiros. Depois, saiu e procurou, sem resultado, obter leite de cabra no hospital. A enferma aceitara a sugestão do novo alimento. Em tudo agora que os médicos lhe ordenavam ela punha uma redobrada confiança.

Sem dizer nada, o convalescente partiu. Não havia ninguém no hall monumental e quieto do Instituto. E saiu, num súbito maravilhamento de se ver assim, de pé, tropegando, mas vivo, com o peito arrasado, as mãos incapazes, mas vivo. Quarenta dias atrás ele passara aquela mesma porta, numa padiola da polícia, vinda do necrotério, com dois mascarados atrás.

Estava vivo. Lá fora, pisando a rua, a tarde pareceu-lhe miraculosa.

Ele soubera que ali, nos fundos do hospital, em grotas intransitáveis, havia toda uma aldeia de cabreiros. Iria lá, encomendar o alimento para o seu amor.

Caminhava sorrindo de caminhar, levantado daquele leito de horror, saído pela primeira vez daquela casa branca de tortura.

Olhou para trás, onde qualquer coisa de rubro faiscava entre árvores: era o sol! E o céu estava fluido e trêmulo. Foi tropeçando nas primeiras barbas de bode do grande descampado…

Caíam as ave-marias numa grande paz sem sinos.

E súbito, dum belvedere natural, ele descobriu embaixo a cidade, num polvilhamento alvo. Às vezes destacava-se longe, uma nota viva de hangar imenso, fábricas com chaminés, oficinas de caliça com centenas de janelinhas. E, ao fundo, a linha envolvente de montanhas, em verde, escuro e branco.

O céu desmaiava em camadas sucessivas, cinza, rosa, azul. Fumaças erguiam-se, lentas, paradas, a se confundir com os vapores da bruma.

No mais profundo do casario, ao centro, Jorge viu a linha negra do velho Viaduto, ligando monstros construídos em ardósia e greda: o Teatro Municipal, Santa Efigênia os primeiros arranha-céus…

Esfriava. Do outro lado, o fim de ocaso tornara-se de ouro. Havia um grande cheiro de campo. Grilos cantavam ao pé dele, outros chamavam: priii, priiii! E mosquitos punham bandos trêmulos no ar.

Jorge d’Alvelos saiu daquele pasmo em que se perdia, correu para as barrocas na direção dos cabreiros. E cauteloso e decidido, procurando e prosseguindo, foi descendo por entre grotões, quintalejos, fins de labor, roupas recolhidas das cercas e sons de chocalho.

*-*-*-*-*

Ele quis que tivesse um efeito decorativo, teatral, simbólico, a entrada do animalzinho lanudo e preto, que vinha conduzindo pelos chavelhos curtos, com a cabreira atrás ao longo dos corredores, na madrugada acesa da Casa de Saúde.

Pensava em fazer Mary Beatriz receber o leite tirado à sua vista, das tetas pendentes da cabrinha. E foi uma festa para os olhos da doente que dormira mal, vê-lo arrastar-se até junto à cama, assim, naquele rude serviço, seguido da mulher e da irmã enfermeira da noite que sorria. Como a cabreira, envolvida toda num chalé negro, fizesse jorrar o leite num copo, ele afastou-se repentinamente comovido.

Revira uma madrugada de Roma, em que tinham ambos saído. Fora num domingo de Páscoa. Haviam tomado o velho caminho de Aqua Acetosa, sob o céu leve. Havia ainda estréias, como agora. E haviam chegado até uma igreja de padres descalços, em plena Campagna. Uma procissão saía, pitoresca, com tochas acesas, bandeiras votivas, andores pequeninos, sob o rebate vivo do campanário.

Depois foram andando, ele tendo pelo braço a silhueta moça, um pouco arcada, num tailleur curto de lã, com a gola fechada em voltas de xadrez pelo pescoço.

E passara por eles, na manhã vacilante, perto de aquedutos ruídos, alongando-se em ponta irregular, um rebanho de cabras negras e peludas, num afastar trêmulo de campainhas sonoras.

E agora, numa cama de hospital, Mary arcava-se mais e bebia o leite grosso e branco para sarar.

*-*-*-*-*

Era uma luta desesperada e surda entre ele e as pulsações. E lia sempre e lia mais:

A – “À hora habitual, Dinazarda chamou na noite seguinte a irmã e lembrou-lhe a promessa que fizera.

Scheerazada continuou a narrativa:

“Efetivamente, a rainha partiu no mesmo instante, e quando chegou à borda do lago, tomou um pouco de água na mão e com ela borrifou o ar, depois de ter pronunciado algumas palavras cabalísticas. A cidade reapareceu num momento; os peixes tornaram-se homens, mulheres, crianças; maometanos, cristãos, persas…”

– Estás escutando?

– Estou… – sussurrou a doente, descerrando os olhos.

– Deixa-me ver o pulso…

– Não… não!

Abriu mais as pupilas de febre e debatia-se. Mas Jorge tomara-lhe o braço muito branco, fino e longo, de dentro dos lençóis. Deixara cair o livro azul a uma almofada. E olhando o relogiozinho de prata que lhe dera em Roma, contou baixo as pulsações. Setenta. Cem. Cento e uma… e duas… três… queria diminuir, parar… E dez… onze… quinze… vinte…

– Quantas? – interrogou a enferma.

– Cento e cinco.

Estava aterrado. Tomou de novo o livro e continuou a leitura.

Havia três dias, como Scheerazada, para afastar a morte que espreitava lá fora, contava histórias maravilhosas e incríveis, com gênios, dragões, príncipes e loucas metempsicoses…

*-*-*-*-*

O Dr. Carlos Pinheiro declarou-lhe inútil qualquer tentativa mais de viagem ou de cura.

Era possível então! O Senhor não o provara bastante ainda! O seu amor que encontrara de novo, na dolorosa convalescença do tiro, o seu amor ia morrer!

Uma súbita revolta amarga levantava-se no seio do redivivo.

Mas Jesus, de carne e suor, igualado aos outros pela Suprema Vontade, tinha ido ajoelhar-se numa hora assim, a um canto de velho parque, só, abandonado aos indiscutíveis momentos do seu destino.

Coepit pacere…

Jorge d’Alvelos foi para o seu quarto tomado do medo humano de Jesus.

*-*-*-*-*

O padre não pôde mais confessá-la. Ela voltara duas vezes a si, em silêncios cansados de sofrimento, sorrindo os seus últimos sorrisos.

Estava agora calada e inerte, de olhos semicerrados. O sacerdote dissera o “Ego te absolvo a peccatis tuis” definitivo. E começara o Extremo Sacramento.

– “Per istam sanctam unctionem et suam piissimam misericordia, indulgeat tibi Dominus quidquid per sensum deliquisti, quidquid per visum deliquisti…”

E tocava-lhe os olhos, fechando-os para sempre.

–… “quidquid per odoratum, per auditum…”

E tocava-lhe os ouvidos, cerrando-os para sempre.

–… “quidquid per gustum et locutionem…”

E selava-lhe a boca para sempre.

–… “quidquid per tactum…”

Descobrira-lhe os pés harmônicos e brancos…

–… “quidquid per gressum deliquisti…”

Havia terminado.

Então, Jorge levantou-se e pediu humildemente à mãe para beijá-la. Ela agitava-se como que compreendendo. Tinha movimentos vagos na cabeça, ondulações nos braços descarnados e alvos.

A mãe achegou-se com a enfermeira, a irmã, o padre.

Levantaram-na nos braços, segurando-a, contendo-a, acalmando-a. Jorge avançou em soluços:

– Eu quero um beijo teu, eu quero, minha Mary.

Ela ouvira, parecia sorrir. Os outros sustinham-na, soerguendo-a, consolando-a.

*-*-*-*-*

Tinham passado assim três noites iguais.

Jorge sentia um alquebramento físico final.

Estava sentado sobre um tamborete baixo, ao lado da agonizante.

No outro leito, a mãe e uma senhora de preto que viera, haviam cedido à fadiga e dormiam juntas.

A madrugada lá fora andava.

Jorge olhou o pequenino relógio de Roma: eram quase três horas.

Ele resignara-se à solene chegada desse momento que bateria na sua vida como um último aviso de Deus. Esperava-o como se espera uma ordem indiscutível de partida para caminhos novos.

O cansaço vencera. Ele cochilava com a cabeça deitada perto do braço grande e inerte de Mary.

E na noite de agonia, veio cantar-lhe o ouvido, solene, depois de graves kyries, a ladainha pausada das rogações que acompanhara, no colégio, em criança, na madrugada de São Norberto:

Sancte Paule, ora pro nobis!
Sancte Andréa, ora pro nobis!

Padres e seminaristas tinham saído para o mato, a cruz alçada na frente, o turíbulo e o hissope. E caminhavam pela aresta escura de um caminho, sob as últimas estrelas, entre as árvores pasmadas. Ao clarão inquieto das tochas, as batinas alvas oscilavam na santa procissão.

Sancte Thoma, ora pro nobis!
Sancti Fabiane et Sabastiane, ora pro nobis!

– A vela, depressa!

Um grande anjo extático entrara imperceptivelmente no quarto: era a irmã enfermeira da noite. Jorge, estremunhado e trágico, acendeu o círio bento; colocou-o na mão escaldante e largada. No outro leito, as duas mulheres dormiam. A janela descerrara-se para fora. E a agonizante teve apenas duas sufocações suaves – e cessou de viver.

Jorge procurou, ansioso, na penumbra, achar ainda a sua Mary. Ela partira, sutil como quando entrava, matinal e viva, no atelier de Via Flamminia.

Lá fora, na noite, um galo bateu as asas, cantou.

*-*-*-*-*

Na madrugada de leite, a febre esvaíra-se, escoara-se num último calor de veias mortas, entre bênçãos maternas, luzes vacilantes, silêncios e soluços…

Jorge fora pelo corredor, numa placa de neblina, até o jardim, buscar-lhe as primeiras flores. Depois, esperava que lavassem a estátua enregelada e nua – a sua última estátua. E beijara obstinadamente a boca material.

Agora, na sala de visitas estranha dos parentes, para onde a tinham conduzido, Mary dormia ao clarão dos círios altos, no féretro fofo de pau rico, com seu sorriso imobilizado nos lábios e um lírio entre as mãos.

Preso a um minuto de eternidade, num desespero mudo de dentes rilhados, Jorge d’Alvelos sacudia, com as garras das mãos, a cabeça de cabelos despenteados e enormes.“Domine! Non sum dignus…”

*-*-*-*-*

O escultor fechou-se no seu quarto da Avenida São João, durante dois dias e duas noites, deitado ao leito de bronze fosco.

Os amigos vieram num interesse inquieto visitá-lo, obrigá-lo a comer. Na terceira manhã, como ele todo se transformara num ouvido único que crescera, tomara conta do ser… e escutava, escutava, saiu e tomou um trem para Santos.

Passou o dia estirado em um quarto de hotel. E a noite veio e foi… Ficou até meio-dia na cama alva e desconhecida. Fazia um calor de porto sul-americano. Levantou-se, vestiu-se com dificuldade, tomou o trem de duas horas, de regresso.

No começo da serra, chovia. Uma retardada fadiga caiu sobre ele. Olhou pela janela do wagon: embaixo, entre águas, viu uma casa de tijolos com chaminé e leu um letreiro longo até o fim.

Um mosquito trouxe-lhe uma ferroada ardida à mão.

Fitou a serrania. Para lá do vale aberto, um tabuleiro gigantesco cavalgava o céu de bruma com a coorte de seus milhões de copas verdes.

E acordou de repente afogado entre paredes negras, gotejantes, ameaçadoras. O trem parara num túnel… sairia. Quantas vezes a sua vida também estacara assim entre muros fechados! O trem sairia, vencendo em curvas a ladeira imensa, na direção de horizontes desconhecidos…

Um guarda recebeu o bilhete. Tinha cessado a chuva: estava perto de São Paulo.

A cidade apareceu e engoliu o comboio por um dos seus tentáculos pardos.

*-*-*-*-*

Encontrou duas cartas de Nova Olímpia sobre a mesa. Era um novo chamado de tio Antero. Na outra a gárrula fieira de nomes cantava:

Maria Teresa
Anita
Jorge
Belkiss

Como seriam seus priminhos? Lembrava-se de que as duas mais velhas haviam nascido antes dele partir para a Europa. Maria Teresa devia ser uma moça. Anita também. E esse Jorge que tinha o seu mesmo nome, tradicional e trágico entre os d’Alvelos? E a pequenina Belkiss que mandava sempre a assinatura borrada?

Ele não era tão só! Tinha uma família que o chamava, que o queria… Uma ternura estranha comoveu-o… Maria Teresa… Anita… Jorge… Belkiss…

Não voltaria à Europa. Sentia-se inutilizado para a arte. Por que ficar em São Paulo, na interrogação dos cenários vividos?

*-*-*-*-*

Os amigos iam conduzi-lo, pela última vez, ao atelier do Palácio das Indústrias.

Seriam três horas da tarde quando Carlos Bairão e Bruno de Alfenas fizeram estacar o auto, em frente ao grande sobrado de cômodos da Avenida São João.

Abraçaram-no. Ele estava mais consolado e mais forte.

Sobre o leito de bronze fosco tinham ficado dois livros, um de Huysmans, outro de André Gide.

Bruno contou as últimas anedotas. E desceram, pondo os chapéus, pelo elevador.

Atravessando a cidade na tarde banal, Jorge lembrou-se de que naquele mesmo automóvel fora a Santos, ao lado de Alma.

Mas repeliu o demônio que viera torturá-lo. Ele tinha agora uma serenidade de condenado que se redime.

Haviam chegado. Recobria-se da última argamassa a frente monumental do Palácio.

Subiram pela escada florentina. Atravessaram salas… a porta do atelier estava aberta. Fizeram Jorge passar. Mas ele não reconhecia o vasto e limpo local onde sofrera tanto. Tinha sido tudo transformado. De pé, esperando-o, estavam Torresvedras e Lino de Albuquerque. E haviam colocado flores nas estátuas como se fossem altares…

Contornando a claridade das figuras, trepando, caindo em fios triunfais, rubros cachos de sangue, bocas roxas e amarelas entreabertas na folhagem rude do Brasil, inundavam de glória a oficina. Sobre o pedestal do centro, voltada para ele que os amigos cercavam, a Vitória de mármore erguia alto as duas mãos. Tinha os seios minúsculos, as ancas retesadas numa elegância unida de linhas, as coxas macias e direitas, as asas caídas para trás.

O artista sentiu uma perturbação franzir-lhe a boca. Lágrimas molharam-lhe os cílios. E pouco a pouco foi encontrando tudo o que fizera, intacto, ali…

Carlos Bairão, comovido e sorrindo, anunciou-lhe que a municipalidade de São Paulo resolvera comprar-lhe o grupo da Vingança para um jardim da cidade, e que estavam tratando de vender a Descida para uma catedral.

Estavam… quem? Os seus amigos, os que lhe tinham salvo a vida. E a terra para que se formara nos anos laboriosos, reconhecia e pagava a sua obra!

Subitamente, tomou conta dele um maravilhamento.

A um canto, sobre uma prancheta, estava ainda, fincado a pregos, um esqueleto de máscara…

Viu a esponja, procurou os baldes de água.

E foi buscar a greda úmida.

Cobriu a armação duma bola confusa. E sério, impenetrável, com os braços de novo desembaraçados e ágeis, fez os buracos dos olhos, o nariz afilado… Um riso de pequeno sátiro velou-se. Depois, atacou os cabelos, afinou o pescoço, marcou as maçãs.

E no riso, na vida multiforme do barro, Mary Beatriz passou inteira.

Foi lavar os dedos empastados de greda. Lino de Albuquerque o seguiu, abrindo um lenço alvo.

Ele queria sofrer, sofrer mais ainda. Que eram a reprovação social e o escândalo, se ele se sentia desafogado de pesos enormes?

A princípio, quando vieram dizer-lhe que um advogado prometia envolvê-lo numa campanha imunda, ele sentira um involuntário temor, uma emoção dolorosa de quem já tendo sofrido muito, ainda se vê apontado e destinado a martírios novos.

Era Milagre, a perdida de Areias, o pivot do retardado escândalo. E ele, num trágico receio, temia ver por detrás da mulher a figura de Mauro Glade. Mauro podia mesmo acusá-lo do seu crime.

Mas Carlos Bairão havia enfrentado imediatamente o homenzinho, parado, de óculos para cima, na eterna pesquisa de misérias e chantagens. O leguleio desfizera-se em desculpas. E o amigo viera trazer-lhe a notícia, transbordante de alegria.

Jorge d’Alvelos deixara-se tomar inconscientemente por aquela efusão. Não envelhecera apesar de tudo. Nem sequer se sentia adulto. De dentro, um imutável fundo de adolescência, gritava-lhe que era preciso sofrer, viver, morrer, seguir a lei férrea do mundo.

Ele sabia bem agora que um Ser invisível e supremo existia. E numa reorganização de blague heroica, diante do espelho, pensava que fora agatanhado no torso, sobre o coração, pelos próprios dedos de Deus.

O amigo tinha-o deixado. E ele ficara numa alegria que procura motivos, num amor de tudo, sereno, experimentado. Sorria suavemente.

Andou à toa pelo quarto. Ia partir para Nova Olímpia. Esse nome cantava-lhe aos ouvidos como uma promessa.

Ia ensaiar de novo o gume dos duros antepassados no cerne das florestas brasílicas, lá, onde eles haviam aberto a primeira passagem ao homem da Europa e, nas noites sertanejas, cerrado os olhos cheios e a alma leve à bênção calada do Cruzeiro.

Era a fuga para outra calma de céu. Ele renovara a funesta experiência citadina dos ancestrais e resumia-se naquele ciclo catastrófico a prometida messe de vitórias nas lutas babilônicas!

Mas transportava-se a tempo ainda para a alegria integral dos descampados puros e das cidades paradas no surto virgem das eras inocentes.

Fora infeliz… certamente, porque não se mantivera fiel aos compromissos raciais.

E via-se à janela, num êxtase, transportado para a imensa paz verde dos cafezais orvalhados da chuva, na tarde de nuvens ciclópicas.

Chegou-se à chiffonnière abaulada. Tirou da gaveta um grande grupo fotográfico. Era a família que o esperava, que o chamava.

Quedou-se ali. Qual seria daqueles olhares firmes e grandes de zagala, daqueles sorrisos em folha, o da consolatrice qui ne savait pas…

*-*-*-*-*

O porteiro viera chamá-lo às cinco horas.

Ele tinha as malas prontas, a passagem comprada. Na tarde de apoteose, dera os pequenos estudos, os torsos e as máscaras aos amigos que tinham saído carregando-os nos braços.

Guardara apenas o Retrato de Antepassado, talhado em planos de ferro e o último sorriso de Mary.

As pernas harmoniosas de Alma, mandara-as passar para o mármore e, sobre três degraus brancos, marcariam para sempre o holocausto na encosta terrosa e esquecida do Araçá.

Ele fizera acordar-se cedo à toa. O trem partiria às nove horas.

Foi ao espelho. À luz farta da lâmpada, de que tirara o antigo abat-jour, abriu a camisa, examinou as devastações do tiro.

Sentia-se cansado. Resignava-se. Aceitaria doravante as diminuições que viessem. Era isso mesmo a vida humana – uma série de quedas físicas e de provações morais, em torno de uma grave e íntima ascensão.

A porta do quarto estalou, abriu-se para o corredor escuro e quieto.

Uma corrente sutil pôs rumores nas janelas, levantou papéis na mesa.

Um sino isolado deu lambadas de bronze na noite. Lá fora, um automóvel buzinou, passando.

O sino persistia: Misericordia Domini in aeterno cantabo. Eram as matinas dos monges, já de pé, no negror dos hábitos retos como consciências, rezando em São Bento.

Jorge d’Alvelos parado, olhava a grande mala aberta junto à parede, a mala de cabina que o acompanhara nas antigas viagens, pelos hotéis obscuros de Paris, depois em Roma.

Estava riscada de sulcos, grudada de velhas etiquetas. Junto ao fecho de metal, tinha uma mancha redonda e queimada. Ele costumava fazer o café brasileiro sobre ela, no atelier de Via Flamminia.

E como houvesse amanhecido, saiu para despedir-se de São Paulo.

A cidade acordara como que lavada, cheia de rumores e de bulício. Midinettes passavam, trabalhadores, gente do comércio. E silhuetas claras, evocadoras de Alma, iam, preocupadas na manhã de aventura.

Ele penetrou na igreja de Santo Antônio, onde se celebrava uma missa baixa. Na penumbra, olhos perscrutadores seguiram-no.
Jorge d’Alvelos sentou-se entre uma mocinha de luto e um mendigo. E viu o padre alto, de cabeça branca, permanecer numa demorada reverência ante o tabernáculo aceso, vinte vezes secular.

A sua voz chegava, clara, precisa, até os fiéis.

“In illo tempore…” lembrava o passado na Galiléia.

“Per omnia secula seculorum…” afirmava o futuro e a eternidade.

Não lhe parecia possível que aqueles homens se reunissem ali, no aparato simbólico das alvas e das casulas, vinte séculos depois do Calvário, sem significação nenhuma, como os pássaros que voam, os galos que cantam, os animais que pastam.

Depois do meditado silêncio da elevação, o sacerdote de pés unidos, cotovelos juntos, circunscrito à pátena, ia comungar.

A pátena era a pedra com que o piedoso José de Arimatéia selara o sepulcro de Deus, sacrificado para tirar os pecados do mundo.

“Domine! Non sum dignus ut intres sub tectum meum, sed tantum dic verbum et sanabitur anima mea!”

A campainha ressoou.

Jorge d’Alvelos, de joelhos, rezava.

– Senhor! Dize uma palavra e minha alma será salva!

O padre repetiu em voz alta:

“Domine! Non sum dignus…”

A campainha ressoou de novo no templo.

Um velho expectorou no silêncio.

FIM
da segunda parte d’Os Condenados

A seguir
III – A Escada
(Continua na próxima semana)

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.
Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos modernistas, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Oswald realizou, ao lado de outroas artistas, a Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Em ocasião dos 60 anos de sua morte, Outras Palavras faz série especial em sua homenagem.