O dia em que a jararaca mordeu

160329-Lula4

Quando começou seu calvário, Lula sentiu finalmente que a conciliação é vã. Pode ser tarde demais – mas a análise de sua fala revela que a luta de classes, tantas vezes enterrada, está mais viva que nunca

Por Priscila Figueiredo

mas as grandes palavras, neutralizando (ou revidando)
os grandes golpes dos soberbos, ensinam a compreensão na velhice

(Sófocles, citado por Hanna Arendt)

“a que continua viva/depois de morta/é a que pica mais forte”
(Francisco Alvim)

TEXTO-MEIO

O extraordinário discurso que Luiz Inácio Lula da Silva fez no dia 4 de março, na sede do Partido dos Trabalhadores, trouxe à tona um vocabulário e uma disposição que há muito não se imaginava mais possível de sua parte. Na peneira das impressões que deixou ficaram sobretudo um conceito, uma frase e um punhado de substantivos concretos. Sua força vem do fato de que formavam um itinerário claro e muito próprio do conflito de classes no Brasil, em cujo epicentro o ex-presidente vinha figurar mais uma vez. Expressivas, repassadas de vibrações, as palavras ouvidas ainda pareciam se mexer, como os significantes de um sonho do qual mal tivéssemos acordado: doméstica desde os 11 anosnão sou de guardar mágoademocraciaex-metalúrgico de merdajararaca—boca sem dentesdecânterromanée-conty.

Não sou de guardar mágoa

Era fácil compreender que o que estava sendo dito era: “não sou de ter mágoa, mas hoje é um dia diferente”. No fim, quando viesse precedida por apesar, a mesma frase indicava que a energia acumulada de ódio agora seria encaminhada, que o ressentimento, natural e digno, sem o qual os humilhados não se movem, vinha levantar a perspectiva de um novo valor e uma nova ação [i]. Seria no mínimo impreciso considerar, como em alguns casos se fez, que Lula se vitimizou e se fez de pobre para se comunicar com a ralé, sem lhe dar as explicações que ela esperava. Alega-se que ele não lhe apresentou conteúdos objetivos, mas apenas quis fisgá-la por expedientes arcaicos e irracionais. Com argumentos carentes de lógica, alguns lhe recriminaram a retórica e o recurso à vitimização. Mas é razoável pensar que ele não teria obrigações de se explicar, não nas condições que lhe davam, sem comprovação das denúncias e sem direitos preservados de autodefesa, diante do tribunal de exceção que lhe estava sendo armado pelo Judiciário ou que poderia ser armado pelo povo, de fato mergulhado num grande “caldo emocional”, como se disse, mas não pela palavra bem articulada que veio a ouvir dele, e sim pelo assaltos espetaculares e coordenados, em ritmo de blitzkrieg, bem como pela hipnose das imagens e fotografias aéreas, paradas e obsidiantes, sempre em algum ponto do quadro, impresso ou digital, senão no centro, num canto lateral, como uma logomarca, dia após dia. Interessadas em estimular não aquilo que nos distinguiria uns dos outros, a vontade livre e racional, mas justamente o que não nos distingue, o fundo inconsciente e arcaico de cada um, que nos reúne em horda, essas imagens, sempre-as-mesmas, infernalmente repetitivas, forneciam um curioso suporte ao que parece a pantomima de um Ricardo III sem fim, um conjunto sempre novo e variado de peripécias e precipitações. O discurso justificando os vários abusos mal conseguia ocultar sua tendência higienista, bem como o caráter morbidamente obsessivo dessas ações e do ímpeto que deseja lavar dos ratos indesejáveis a malha ocasionalmente poluída de um sistema político que não dá mostra de compreender, assim como parece lhe faltar compreensão histórica da sociedade brasileira. Na falta disso, essas ações não terão mesmo como ser emancipadoras. Sua hybris evidentemente ignora isso e vai fazendo carreira destrutiva.

Infelizmente esse discurso vem sendo subscrito sem reflexão pelas massas, ocupadas demais em se manter de pé sob condições que o avanço (a jato) do neoliberalismo mais e mais agrava, avanço para o qual o governo também irrefletidamente trabalha, sem esperança de reconhecimento pelos seus inegáveis préstimos e sabendo que a qualquer hora, antes que o galo cante três vezes, será facilmente sacrificado pelos senhores a quem, para conservar a existência, vendeu suas prerrogativas quando o preço das commodities também não o amparava mais [ii]. Como ele já era de fato baixo, foi preciso então vender nossos “ativos constitucionais” [iii]. A “natureza”, que há tempo já não pode mais ser astuciosamente apaziguada e transformada em serva muda, reage por aqui com rapidez inédita e tresloucada, e então eis que o denunciante de fato de nosso histórico desarranjo social, agora mais uma vez reatualizado, vem a ser não Moro ou seus delatores, mas um mosquito, como outrora as saúvas e a maleita, embora a potência agora seja um pouco mais teratológica [iv]. Todo esse quadro ainda vivemos de forma abstrata, pois a totalidade das consequências concretas específicas proporcionadas por um a um de tantos golpes –-também vindos de um congresso gangsterizado, por meio de agendas, decretos, PECs, reformas, projetos de lei ultraconservadores etc. –-ainda não se fez sentir plenamente. Nós o experimentamos como uma avalanche ininterrupta, que apenas não deverá tragar os donos da vida e do dinheiro e, caso não sofra nenhum contramovimento, arrastará cada vez mais tudo consigo (o que já começou não constitui apenas mero sinal): as vidas mais vulneráveis mas também a classe média, direitos sociais e trabalhistas, políticos, civis, universidade, moradias, demarcações indígenas, independência do Banco Central, escolas, patrimônios culturais, reservas naturais, acesso à água, soberania nacional, ruínas que se sobreporão às misérias e paisagens mais antigas, nunca de fato eliminadas. Aquele setor amplo da sociedade brasileira –inorgânico, ralé, subproletariado, exército industrial de reserva permanente–, que recebeu atenção em escala inédita nos governos Lula e Dilma I, tornando-se mesmo a base social do que o cientista político André Singer chamou de “lulismo”, deverá ser engrossado pela nova e impressionante onda de ataques às proteções constitucionais e celetistas do trabalho, restando-lhe a atenção do neopentecostalismo, de parcerias público-privadas “empoderadoras”, tráfico e polícia. Nem mesmo terão como seguro o legado do lulismo para lhes apontar outra perspectiva. Esse tsunami e sua força avassalante, que arrebentou inclusive as comportas protetoras da metáfora com o inimaginável acidente em Mariana, é certamente algo muito mais primitivo e irracional do que supostamente seria a retórica de que se valeu Lula, ou a retórica de forma geral, de resto tão antiga quanto a políticav. Ele é, numa palavra, para usar um vocabulário corrente na primeira geração da Teoria Crítica, mito –-terror ancestral, coação, desamparo ante forças cegas, não mais da natureza, mas do capital, ele próprio natureza indômita e inapelável como o monstro de um só olho, cujo desespero na atual fase parece impossível de tranquilizar sob qualquer artifício, o que evidentemente impede toda perspectiva de civilidadevi. Esta de fato decresce quanto mais, em razão da crise da valorização do valor, o capital financeiro transnacional e setores da burguesia local a ele ligados precisam avançar sobre reservas nacionais (como o pré-sal) e fundos públicos a ponto de a garantia de direitos sociais mínimos ser abertamente propagandeada como irresponsabilidade, num coro que reúne de organismos internacionais como a OMC até a mídia conservadora, que também tem se radicalizado e não raro assume viés reacionáriovii. Evidentemente integra esse estado de pura heteronomia o fetiche atual, incrivelmente alastrado no planeta, do Ajuste e da integridade do Orçamento. Essa ideologia, se ainda podemos falar nisso, já largamente capilarizada na sociedade brasileira e defendida até mesmo por muitos daqueles que ela prejudica, como se pode defender um deus severo movido por desígnios ainda estranhos, o qual porém não adia como outrora o bem-estar geral pela miragem da terra prometida da participação na riqueza, mas simplesmente pela segurança de que se evitará um Colapso maior —esse discurso é de fato mais antediluviano que a retórica. É divertido, não fosse trágico, vê-lo assumir um ar aconchegante quando traça uma singela comparação entre a relação gasto–orçamento das famílias, de conhecimento tão palpável e concreto para todos, e aquela própria ao Estadoviii. Equiparando com isso esfera pública e privada, faz o funcionamento da economia — cuja abstração crescente é na verdade indispensável para continuar seu domínio –parecer tão concreto e pouco mediado como a oikonomos grega descrevia originalmente o funcionamento doméstico. Recorre-se “pedagogicamente” ao mais primordial e simples quando o que está em jogo é o mais abstrato e mediado. Mas de fato essa abstração é arcaica, do mesmo modo a teoria e a prática que passam por alto os sofrimentos e necessidades humanos –o elemento por excelência concreto que, trazido à tona, não nos infantilizaria, como pretende o arrazoado conforme o qual Estado aparece como família. É certo, no entanto, que a renúncia pregada não é para todosix.

No caso do “decânter”, só uma figura como Lula poderia, embora parecesse afetar a ignorância do termo, não deixar de também transparecer o quanto ainda está espiritualmente ligado ao universo daqueles que vivem alheios aos refinamentos da civilização. Atônito pelas circunstâncias e pelo interrogatório, que incluiu uma humilhante pergunta sobre vinhos, ele, quando já estava aquecido pelo ambiente familiar da sede do PT e pelo laço fraterno dos companheiros que o amparavam, pôde conduzir com altivez e muitos momentos de humor a sua fala, mas camadas mais adormecidas nele já estavam agora despertadas. Como de Rubião, o ex-humilde professor tornado herdeiro universal em Quincas Borba, de Machado de Assis, subitamente “desesquecido” de sua origem por um encontro humilhante para ele, podia-se dizer de Lula: “Mas o caso particular é que ele, sem saber por quê, e apesar de seu próprio luxo, sentia-se o mesmo antigo operário do ABC”.

O Lula circunstancialmente ferido e abatido permitiu a eclosão do passado e, com ele, a marca de antigas mutilações. Nós o víamos exposto agora numa colagem de dois tempos, o que não deixava de ser revelador da deformação que o processo social geral produz mesmo naquele que ascende, a ponto de este correr o risco de ser caricato quando calha de ser ele mesmo. Ele teria afetado não saber ao certo o termo relativo a um bem de consumo mais sofisticado? Pode ser, mas, ainda que tivesse encenado, imediatamente a expressão veio a ganhar teor de verdade quando a anedota finalmente se delineou: o decânter usado como vaso de flores por Dona Marisa. Então ficou claro que, se ele simulara confusão a propósito do termo incomum, na verdade apenas fingiu ser o que deveras é… O episódio podia integrar o repertório clássico do folhetim e do romance burguês, largamente utilizado, por exemplo, numa novela do “horário nobre global” datada do significativo ano de 1988, o ano da promulgação da Constituição Cidadã e véspera das eleições diretas para a presidência da República (para não dizer véspera da Queda do Muro), nas quais o Lula ainda não suavizado concorreria pela primeira vez. Assim, em Vale tudo, de Gilberto Braga, vemos a mocinha deixar escapar a lagosta do prato, o potinho de lavanda (como será mesmo o nome?) que ela vira na boca como um copo, os pais deselegantes surgirem sem avisar, momentos de perigo para ela, que está sendo observada pela malvada anfitriã, ávida por interceptar o caminho da arrivista. Esse plot ressurgia naturalmente na lembrança de Lula, e podíamos imaginar a primeira-dama fazer do palácio presidencial uma casa suburbana cheia de flores e toalhinhas de renda — “As flores são para as criadas”, como teria dito no século 18 um paisagista da aristocracia inglesa. Onde quer que estivessem, quis explicar Lula, deixariam o ambiente à sua imagem e semelhança e, assim sendo, um romanée-conty não era o objeto particular de seu desejo, já que nem de vinho gostava muito. Se deles havia em sua casa, disse, eram presentes. Por que ele foi obrigado a nos explicar tudo isso –é porque de fato tinha sido obrigado antes por Sérgio Moro e certamente, sob pressão, não havia como desenvolver essa narrativa ou qualquer outra. A medida de exceção, a condução coercitiva sem fundamento jurídico, como tanto se observou depois, veio lhe sugerir decerto o quanto, no fundo, ele não passava de um pobre-coitado sem direitos. Essa foi a sua aletheia, a saída do esquecimento, que lhe permitiu ver como, sofrendo a arbitrariedade comum e naturalizada que a população nas periferias e no campo vive como maldição, não deixava mesmo de ser um delesx.

Foi um grande momento –-talvez o último, da televisão e da política, em sincronia cega, pois desejariam antes se anular –-quando se pôde flagrar o ódio plebeu ressurgir no ex-operário de cabelos ralos e brancos, que os holofotes de grandes emissoras decerto imaginavam, não sem voyerismo sádico, surpreender com o rabo entre as pernas, já incapaz de reagirxi. E, surpresos, pudemos verificar, como há muito não acontecia, o quanto ele ainda fala com a língua entre os dentes e conserva irretocavelmente populares fisionomia e linguagem. Nesta, as desinências de plural da norma culta vez por outra são comidas como foi pela máquina o seu dedo mindinho. A ausência deste nos é lembrada insistentemente pela gesticulação que nunca a etiqueta burguesa pôde enquadrar totalmente, nem ele deixaria, a não ser como uma paródia. Mas nossa atenção foi ativada na mesma proporção que a ira o revitalizou, isto é, o Lula original. Minha geração mal pôde conhecer este ao vivo e agora podíamos didaticamente saber do que se tratava e compreender o sentido de seu percurso magnífico. Porque nunca foi entusiasmante para muitos de nós ouvir dele, como em 2006: “Queria que o Brasil fosse como as Casas Bahia, todo mundo feliz”. Que vida cinzenta e mesquinha então era projetada, a mesma de que também falavam a arquitetura, a forma de inserção na cidade e o slogan de Minha casa, minha vida, assim como as divisas otimistas Brasil sorridente, Luz para todos, entre outros— o sentido era o mais literal possível, e a felicidade era remetida ao domínio da estrita necessidade, pois luz era eletricidade, ser sorridente era simplesmente ter dentes, ter vida era ter casa, ser feliz —ter crédito numa cadeia de lojas populares com filas e prestações a perder de vista e juros insidiosos. A linguagem, mais publicitária que retórica, não retinha nenhum elemento de utopia, apesar do referente que não se distingue dela, justamente a ideia de felicidade. É verdade também que tais frases e slogans não deixavam de sugerir o imaginário coercitivamente encolhido daqueles que mal conseguem reproduzir a própria vida, reprodução que não pode prescindir de alguns eletrodomésticos, luz, esgoto, casa própria (indescartável num contexto de instabilidade e perda de função social da propriedade) etc., ao mesmo tempo que nos lembravam as dezenas de milhões daqueles que os programas sociais por eles propagandeados vieram tirar da miséria, esquecida por décadas, nunca de fato superada, extraordinariamente naturalizada, tornada uma paisagem dentro das nossas genéricas “mazelas seculares”. Não ter dentes, água potável, luz, saneamento, escola ou condições para frequentá-la, acesso ao ensino superior, morar mal ou não morar, comer um dia, no outro não comer –seria de perguntar se esse contingente, cujo nome é legião, não estava semimorto. Em relação a ele até mesmo a cultura silenciou nas últimas décadas, fazendo recuar a um período de ouro aquela produção que, durante década e meia e inspirada em parte pelo antecedente importante do romance regionalista nordestino, de João Cabral a Ruy Guerra e Glauber Rocha, passando por Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Andrade, os CPCS da UNE, o Teatro Arena, Eduardo Coutinho, entre outros, que, em maior ou menor grau, dispondo dele como o próprio fundamento de sua estética ou ao menos tendo de se haver com o problema de sua representação em algum momento da obra, não o deixou fora do quadro. Esse “brasileiro que nem eu”, tão remoto e tão próximo, como já o sentiu Mário de Andrade, tinha voltado à cena pública pela mão do lulismo, e talvez houvesse nisso algum elemento biográfico, pois Lula, não por acaso nordestino, antes de integrar a classe proletária, se originara no interior daquela massa opaca e esquecida, para quem o trabalho, invariavelmente sub-remunerado, é uma experiência extenuante, descontínua e sem garantias.

A palavra democracia apareceu no início de sua fala e por ela Lula puxou o fio do seu passado: antes que eles todos fizessem qualquer coisa, eu já lutava pela liberdade de expressão, pelo direito de greve, pela democracia, como depois pela Constituinte e pelo fortalecimento do Ministério Público. Trata-se de uma verdade que ninguém poderá tirar dele e do PT. Diferentemente da elocução “paz e amor”, que de forma deliberada voltou no último discurso durante a manifestação na avenida Paulista, em 18 de março, a palavra de Lula duas semanas antes, quando esteve à beira de ir para a prisão, deu corpo à história invocada, da qual seu percurso pessoal não tinha como se distinguir. Esse corpo, sofrido e crispado, podia-se pegar com a mão naquele punhado de substantivos, como “decânter”, “boca sem dentes”, os quais formavam as palavras-chave e expressivas de um roteiro, o da desigualdade social à brasileira, que o ódio fez emergir do fundo de sua experiência e memória. E, com isso, também se produziu uma certa perda de ilusão. Mas como ele pôde mesmo alimentá-la, como pôde imaginar que seria visto como igual àqueles com quem não hesitou, desde o início de seu governo, em fazer uma aliança? Como imaginou que poderia apaziguar para sempre as suspeitas sobre ele e sua “raça”? Não tinha sido de caráter um tanto mágico a confiança em sua potência conciliatória, em seu carisma? Agora parecia finalmente ter se desencantado essa auto-imagem, que a vara fria e impositiva da polícia sobre ele e sua família mostrou ser equivocada na manhã cinza de sexta, “quase uma sexta-feira da paixão”xii. Teria aí de fato começado o seu calvário? Ficou claro que ele não pairava mais acima das classes, mas era remetido a uma classe muito específica, razão por que se sentiu numa vala comum, apesar da gentileza dos delegados, esta incomum para os pobres e em dois momentos ressaltada, como a indicar a consciência de que os cumpridores de ordem podem por vezes estar desidentificados dela e mesmo vexados, manifestando até certa cumplicidade com aquele que a situação recolocava no mesmo nível “proleta”, ou por fim que a humanização do tratamento é um aceno ao fato de que ele é reconhecido de algum modo em sua distinção e não está ainda na vala comum, da qual nenhuma delação premiada, ao contrário de muitos, o tiraria –porque talvez não aceitasse transigir com o método e porque, na verdade, nem mesmo a requisitariam dele. Não seria mais esse o caso. A Aletheia, o nome da 24. fase da operação, finalmente dera com a sua Verdade, aquela ou aquele buscado ao longo de uma cadeia de delações, de réus tornados líquidos e “desimportantes” assim que apontavam o dedo para outrosxiii. Chegava-se agora ao réu totêmico que nenhuma delação poderia mais dissolver ou levar além dele mesmo.

ex-metalúrgico de merda

No fundo, trata-se disso: alguém da classe trabalhadora (e originário de uma família subproletária), cujas reivindicações no passado já puderam ser tão aborrecidas e inoportunas. Nesse ponto, é como se voltasse a ser esclarecido sobre o fato de que ele nunca estivera realmente em posição de igualdade mesmo quando no auge de sua ascensão, e as elites bem deviam se divertir em ver o sapo barbudo mal vestido de príncipe apreciar as boas coisas da vida, presentear com mimos caros para um metalúrgico, embora não para um presidente, a primeira-dama que uma consultoria de marketing tornou para sempre calada, risonha e mansa –se assim já era, não saberemos– como forma de limpar qualquer rebarba que sua origem social pudesse espetar na percepção dos mais recalcitrantes ao PT. Quando se aproximavam as eleições de 2006 e supunha-se que a continuidade de seu mandato seria impossibilitada pelo episódio do mensalão, já se prognosticava tanto o fim “dessa raça de petistas” como a volta desenxabida de Lula e D. Marisa para São Bernardo. A mala e a cuia, claro, seguiriam repletos de apetrechos, regalias e roupas da corte—mas como caberiam no velho apartamento?, perguntavam divertidamente entre si três jornalistas num chá televisivo da meia-noite. Depois do baile real, o casal voltaria a pé ao borralho, de onde nunca deveria ter saído. De fato, como imaginavam, eram muitas coisas, e elas se acumulariam por mais alguns anos, precisando ser acomodados em 11 contêineres, o que não deixou de parecer suspeito.

Acertaram no rabo, e não na cabeça da jararaca — de novo, mais um indício da autoconsciência de Lula, redespertada, de que ele é visto, por sua origem, por suas políticas sociais, como inimigo. Se assim é, então é preciso se apropriar dessa imagem, tornar-se de fato inimigo, “tornar-se perigoso”xiv. Ele de fato não conseguiu apagar o raciocínio conforme o qual porque é no fundo um ex-metalúrgico de merda não deixa de ser uma cobra venenosa, que ameaça de baixo. Quanto ele se esforçou para apagá-lo na mente e na disposição dos que o olhavam com suspeita, procurando mostrar-se confiável mesmo depois de o mercado já ter se resignado a ele quando compreendeu que sua vitória era inevitávelxv? Ainda assim, amorteceu o quanto pôde esse custo, como se pedisse licença para estar numa casa em que ninguém como ele e seus companheiros estiveram, falando admiravelmente a língua de seus antecessores. Quando a meta de superávit primário fixada no início do seu governo foi superior inclusive àquela, já impiedosa, determinada pelo FMI, não foi difícil imaginar o quanto havia aí daquela diligência de ovelha negra em ser assimilada pela ordem que antes a rejeitara, em mostrar-se confiável e capaz de tomar medidas perfeitamente administrativas. O Lula dócil à burguesia não deixou de ser visto por muitos como um traidor de classe, mas como não vê-lo? Não tardou que ele, para construir a governabilidade, desse as mãos até mesmo com figuras atuantes na ditadura empresarial-militar, uma das quais o tinha botado em cana numa das grandes greves que conduziu. Assim, pois, poderia ter dito, dentro de ânimo já explicitamente conciliatório, “não sou de guardar mágoa” –antes tivesse guardado e definido seus inimigos, isto é, os grupos, setores, frações de classe que a cada momento teriam de ser confrontados. Na ausência disso, não haveria mesmo como fazer reformas mais estruturais. O vocabulário da luta de classes e a ideia de política como conflito estavam fora de uso. A outra parte da verdade é que, mesmo na ausência desses elementos, se retomou em grande escala a luta pela diminuição da desigualdade. Com ambiguidades e limites, evitando-se o enfrentamento do grande capital, estava aberto, porém, o caminho de uma emancipação lenta, que, arriscava André Singer, poderia levar com o tempo a mudanças mais profundas desde que fosse mantido ininterrupto seu ritmo. De fato, não seria pouco a transformação de camadas do subproletariado em proletariado. Mas essa parte do projeto seria ameaçada justamente pelo conciliacionismo, pela aversão às rupturas, de resto, uma tradição brasileira, que Lula apenas continuou. O que ajudara a construir a governabilidade era o que, como um grande desrecalque de energia entrópica, viria destruí-la a certa altura do governo Dilma, desmanchado o delicado equilíbrio anterior (a confiança, ainda que frágil, na “raça” petista), porque a presidenta teria tentado radicalizar além do previsto no jogoxvi, porque as condições mundiais se alteravam ou porque a percepção do Brasil que mudava foi atropelada, durante Junho de 2013, pela percepção do Brasil sempre-igual, ambas verdadeiras e, no entanto, a partir daquele momento –consequência natural da dinamização maior da sociedade sob o lulismo–, não mais conciliáveisxvii. As ruas vinham denunciar o quanto o processo histórico ainda não estava de fato livre dos embaraços paralisantes do mito, do que resiste à emancipação, e, nesse sentido, não podia de fato se completar. Com a multidão–Leviatã também voltava a ser visível o velho muro contra o qual ela se formara. O que não se imaginava era que essa denúncia permitiria liberar do mesmo modo as forças que acusavam o processo histórico simplesmente porque este um dia começara. Evidentemente não seria sensato nem possível se antecipar a essa dialética ou invalidar Junho pelo Brasil arcaico que trouxe à tona e apenas dormitava.

Doméstica de 11 anos –Sim D. Marisa é, “no fundo”, uma mulher do povo e daquela fração ainda não extinta dos mais vulneráveis, que realiza trabalho infantil, precário e até semiescravo, e que, no caso das domésticas, pôde dispor, justamente no contexto do lulismo, de uma PEC que não imaginaríamos causar tanto tumulto se não conhecêssemos a realidade ainda existente em que vinha interferir, a mesma que faz a pobreza entre nós adquirir a marca vexaminosa de um boca sem dentes. A razão pela qual entre os muitos exemplos que poderia mencionar lhe veio este, de um integrante do MTST ao qual avisara de uma bolsa para corrigir o que impede os miseráveis de sorrir (gesto social ou expressão subjetiva) e mesmo comer as castanhas da sua região, como era o caso –é algo de que também participam traços inconscientes. O fato é que uma boca sem dentes está impedida de morder, e o discurso de Lula reativamente mordeu, a ponto de, num crescendo impressionante, vir naturalmente fazer uso do símile da jararaca, que, abatida no lugar errado pelos inimigos, se tornava mais ameaçadora. Se ele realizará o conteúdo que sua retórica trouxe à tona, não sabemos ainda, sobretudo considerando sua disposição de “não guardar mágoa”. Mas este agora se tornou coletivamente disponível, com riqueza de determinações, no vocabulário pátrio da luta de classes.

NOTAS

i Como escreveu Nietzsche: “o ressentimento do homem nobre, quando nele     aparece, se consome e se exaure numa reação imediata, por isso não envenena (…)”. Genealogia da moral (trad. Paulo César de Souza): São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 28.     Bem, talvez não seja necessária uma reação tão imediata –um     pouco de envenenamento e duração fazem vibrar o corpo e a mente, para só depois liberar a energia necessária para a ação.

ii Em 2011 já dizia Robert Kurz “a prosperidade brasileira dos últimos     anos assenta em pés de barro” (“O fim do boom das matérias-primas”, publicado em Neues Deutschland e disponível em tradução em http://o-beco-pt.blogspot.com.br/2012/02/robert-kurz-o-fim-do-boom-das-materias.html).

iii Conrado Hübner Mendes, “A crise no Brasil e a liquidação de ativos constitucionais” (http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/27/opinion/1451242423_983315.html).

iv Eliane Brum, “The zika virus is unmasking Brazil’s unequality and indiference”     (http://www.theguardian.com/commentisfree/2016/feb/16/zika-mosquito-brazil-inequality-brazilian-government).

v A alergia à retórica, própria ao pensamento burguês, pode ser mitologizante, lembrou Adorno, e a velha dignidade desta reside naquilo que também a tornou suspeita: “Seu fim, que é o de persuadir, a corrompe constantemente, sem o qual no entanto a relação do pensamento com a práxis desaparece de novo no ato de pensar”. Dialectique négative (tradução), Paris, Bibliothèque Payot, 2003, p.74.

vi  E isso em contexto democrático. Confesso que pela primeira vez (alguns são mesmo mais lentos) compreendo melhor a teoria do estado de exceção de Giorgio Agamben, bastante divulgada e enriquecida entre nós pelas contribuições originais de Paulo Arantes, inclusive como editor, sendo responsável por, entre outras, uma coleção chamada “Estado de sítio”, na qual se lançaram dois títulos a esse respeito do     filósofo italiano. O uso de dispositivos legais por parte do Estado para suprimir a legalidade, esfumaçando o limite entre democracia e terror, é agora tão apreensível a olho nu que frequentemente, no atual momento, muitos somos tomados por uma espécie de dúvida, digamos, epistemológica: com o impeachment ou o que temos chamado de golpe à democracia e o desmantelamento em curso da Constituição, entramos numa ditadura? Faria sentido usar o termo na ausência de um protagonismo militar ou mesmo qualificado como “judiciário-midiática”? Neste caso, a palavra em questão teria sentido meramente metafórico, o que não impediria de sentir o cada vez mais ampliado estado de exceção (não apenas para os pobres ou para a gente de Guantánamo, por exemplo) que ela, ditadura, não definiria com precisão no entanto. Também é forçoso nos lembrarmos de Robert Kurz, que muitos anos antes escrevia, a propósito do “fim da política”: “É por isso que a violência dos bandos não se contrapõe à democracia, mas se mescla com as acções do aparelho democrático, enquanto o palco aberto da ‘política’ se converte no teatro     pós-moderno da simulação. Berlusconi, tal como Reagan, Collor de Mello ou Tapies, não são arautos e muito menos portadores de uma nova ofensiva totalitária, mas sim um fenômeno ‘pós-político’, como constataram com razão Paul Virilio e outros. O totalitarismo substancial da modernidade é o da forma da mercadoria e, portanto, o da própria democracia” (“O fim da política”, disponível http://obeco.planetaclix.pt/rkurz105.htm e publicado originalmente na revista Krisis, n.14, 1994).

vii  Como irresponsavelmente (usando apenas um termo moderado) a Folha de São Paulo, em 13 setembro de 2015, preconizou em editorial de capa e edição de domingo que a contenção de despesas deveria mirar “desembolsos para programas sociais” e uma “desobrigação temporária e parcial de gastos compulsórios em saúde e educação”.

viii Ou,     com outra metáfora, a “freada de arrumação”, que recrimina o     aumento do endividamento público ocorrido em razão do superávit     primário negativo desde 2014. Como explica a economista Leda Paulani: “Do ponto de vista da dívida pública propriamente dita, o indicador que os mercados utilizam para fazer suas avaliações é a relação dívida/PIB. Nos últimos 8 anos, medida em termos brutos, essa relação no Brasil ficou na média dos 57%, tendo fechado 2014 em 63,4%. Isso é muito ou é pouco? Quando olhamos os dados dos países mais desenvolvidos, percebemos o quanto há de histeria interessada na afirmação de um descalabro das contas públicas e da necessidade de uma ‘freada de arrumação’. Essa     mesma relação é em média de cerca de 90% nos países da zona do Euro, Reino Unido e Canadá, de 100% nos EUA e de 230% (isso mesmo,     230%!) no Japão”. V. “A falácia da freada de arrumação”, in Luiz Gonzaga de Mello Belluzo e Pedro Paulo Zahluth Bastos (orgs.), Austeridade para quem? Balanço e perspectivas do governo Dilma Roussef, São Paulo, Carta Maior/Fundação Ebert     Stiftung, 2015, e também “O terrorismo econômico dos mercados”, Carta Maior, 19/10/2014 (http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Terrorismo-economico/7/32034). A propósito da literatura internacional sobre o ajuste e seu efeito para o crescimento econômico, observa Laura Carvalho: “A maior parte desses trabalhos, ao contrário, indicou que os ajustes, por terem efeito negativo sobre o próprio crescimento, podem levar a     uma espiral em que a queda no nível de atividade prejudica a arrecadação tributária subsequente, elevando ainda mais o déficit     e a dívida pública em relação ao PIB” (“Ajustar para crescer?”, Austeridade para quem?, op. cit., p.113.).

ix Entre os interesses daqueles que a defendem estariam, conforme uma hipótese, a de “(…) colocar um freio nos salários, aumentando o desemprego. Dessa forma, seria possível interromper e     eventualmente reverter o aumento do percentual dos salários na renda, que foi observado nos últimos anos, e recuperar a margem de     lucro das empresas.// O segundo motivo político subjacente parece estar relacionado à trajetória dos gastos públicos. (…) Quase metade do aumento do gasto público do período deveu-se à elevação dos gastos sociais e do custeio da saúde e da educação” (Fernando Rugitsky, “Do ensaio desenvolvimentista à austeridade: uma leitura kaleckiana”, Austeridade para quem, cit., pp. 136-137).

x Como lembra o criminalista argentino Ernesto Zaffaroni, a Lava-Jato não seria uma inovação, mas a continuação do regime de exceção permanente para os pobres, agora aplicada com fins de, em suas palavras, golpe de Estado: “Na América Latina, mais de 60% da população carcerária chegou à prisão sem ser condenado em nenhuma instância. Ou seja, estão presos só como medida cautelar,  em forma de prisão preventiva. É uma realidade que já é estrutural, se arrastra ao longo de anos e que implica numa inversão do sistema penal” (Carta Maior, 05/5/2015, disponível em www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Principios-Fundamentais/-A-diferenca-e-que-a-operacao-Maos-Limpas-nao-visava-um-golpe-de-Estado-/40/33407)

xi Filmou-se, nessa sanha, inclusive o que inadvertidamente poderia colaborar na defesa de Lula. Foi o que sugeriu João Moreira Salles na análise sensível que fez do discurso de 4 de março. Pela câmera da Rede Globo, que, observou, deixava o quadro mais aberto que o da TVT, via-se a presença constante do fotógrafo oficial do líder petista, Ricardo Stuckert. Do que o jornalista e cineasta, que também se colou como uma câmera a Stuckert, através das filmagens e fotos divulgados, concluía que Lula queria ser fotografado: “Ora, quem quer ser fotografado quando se sente devedor? Clinton não deve ter pedido a seu fotógrafo oficial que registrasse todos os seus passos durante o processo de impeachment que sofreu. Lula, ao contrário, usou o dia 4 para reafirmar a própria imagem”. (V. “Lula volta a Lula”, 9/3/2016, disponível em     http://revistapiaui.estadao.com.br/questoes-da-politica/lula-volta-a-lula/). O mais interessante nessa passagem talvez seja antes a curiosa dialética surpreendida por Salles: o aparato técnico mais     sofisticado da Rede Globo possibilitou, ao ser mobilizado para     filmar o grande espetáculo daquele dia, a produção de uma imagem e a presença de pormenores que instruíam mais do que a imagem da TVT e mais do que certamente a própria emissora permitiria se tivesse alcance global     de tudo.

xii Jânio de Freitas, “Isto foi”, Folha de São Paulo, 06/03/2016.

xiii Conforme a própria Folha de São Paulo (Primeiro Caderno, 18/01/2016)     a pena de 13 dos réus passaria, no conjunto, de 283 anos para 6     anos e 11 meses. Entre estes que a tiveram diminuída, estavam lobistas, doleiros, dois executivos da Odebrecht, um da Toyo Setal, ex-diretores da Petrobras. Nessa lista, não havia nenhum político profissional. Como justificou na reportagem Deltan Delagnol, procurador da República e coordenador da força-tarefa: “Nos acordos de delação, o princípio é de que se troca um peixe por um cardume, ou um peixe pequeno por um peixe grande”. Ou será um peixe não-político por um peixe político? No caso dessa última categoria, tendem naturalmente a capitular à delação os políticos com menos espírito de fidelidade partidária e ideológica ou mesmo de “ética mafiosa”. É o caso de Delcídio do Amaral, como se depreende facilmente do seu percurso.

xiv “Contra ele, um Lula acuado tentará se tornar perigoso outra vez” (Lincoln Secco, “Lula e Moro”, Estadão, 7/03/2016).

xv Como disse Leda Paulani, “O mercado já tinha absorvido o custo Lula”.

xvi André Singer, “Cutucando onças com vara curta –o ensaio desenvolvimentista no primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014)”, Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, julho de 2015, n.102; Tales Ab’Sáber, Dilma Rousseff e o ódio político, São Paulo, Hedra, 2015.

xvii V. Roberto Schwarz, “A situação da cultura diante dos protestos de rua” (disponível em http://blogdaboitempo.com.br/2013/07/23/a-situacao-da-cultura-diante-dos-protestos-de-rua/), publicado também em Cidades rebeldes, São Paulo, Boitempo, 2013.

TEXTO-FIM
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Priscila Figueiredo

Priscila Figueiredo é poeta e crítica, professora de Literatura Brasileira na USP, autora de "Em busca do inespecífico" (Nankin, 2001), sobre Mário de Andrade, e "Mateus" -- poemas (Bem-te-vi, 2011).

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