Cracolândia e El Bronx (Bogotá): Script em três atos

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Em dois centros do capitalismo periférico, idêntico roteiro e imagens de abandono, degradação e captura do espaço urbano pelos especuladores. Coincidência ou lógica sistêmica?

Por Karine Carneiro, da rede InDebate


Outras Palavras inaugura, com este texto, colaboração com InDisciplinar, revista de Cultura e Urbanismo com redação em Belo Horizonte, e com InDebate, seu espaço para textos de intervenção.

Todas as fotos — extremamente familiares, para os brasileiros que assistiram às cenas de ação policial na “Cracolândia” paulistana, foram feitas em El Bronx, Bogotá

[tomada 1]
Em uma operação de guerra, no último 21 de maio, cerca de 900 policiais – militares e civis – fortemente armados iniciaram sua investida na região da cidade de São Paulo conhecida como Cracolândia, sob o discurso de desmantelar a feira livre de drogas que acontecia no local. Logo em seguida, um vídeo (propaganda?) da ação começou a circular pela internet transmitindo, quase em tempo real, o avanço da tropa nas proximidades da rua Helvétia. Tiros, fumaça das bombas lançadas, helicópteros em sobrevoo, latidos de cães e palavras de ordem de policiais fortemente armados, uniformizados e com câmeras nas mãos eram exibidos enquanto eles percorriam a rua para garantir seu esvaziamento e protegê-la de uma possível retomada.

TEXTO-MEIO

[tomada 2]
Em uma operação de guerra, no dia 26 de maio de 2016, as forças especiais da polícia e o exército colombiano iniciaram sua investida na região de Bogotá conhecida com El Bronx, sob o discurso de desmantelar a feira livre de drogas que acontecia no local. Logo em seguida, um vídeo-propaganda da ação começou a circular pela internet transmitindo, quase em tempo real, o avanço da tropa no local. Tiros, fumaça, helicópteros em sobrevoo e palavras de ordem de policiais fortemente armados, uniformizados e com câmeras nas mãos eram exibidos enquanto eles percorriam as ruas para garantir seu esvaziamento e protegê-las de uma possível retomada.

[script]
Separadas por um período de tempo de um ano, as ações de São Paulo e Bogotá, duas grandes cidades latino-americanas, têm em comum muito mais do que o modus operandis exibido nas cenas documentadas das operações, que poderiam, facilmente, ser confundidas com um trecho de um longa de ação hollywoodiano. O script que rege o conjunto dos takes perfaz um roteiro com objetivos não tão obviamente claros, mas que costuram e dão sentido à ação.

Uma simples busca na internet revela que, basicamente, um roteiro é composto por atos. Mais especificamente, por três atos. No “1º ato”, são apresentados a história, seus personagens, o protagonista e o conflito principal. No “2º ato”, o protagonista se depara com obstáculos. Finalmente, no “3º ato”, a história se resolve, geralmente, por reviravoltas e pelo confronto com o objetivo inicialmente traçado.

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[1º ato]
Ao focar no primeiro ato, o conflito central aparece através da empreitada dos poderes públicos – protagonizados, em São Paulo, pelo governador Geraldo Alckmin e pelo prefeito João Dória e, em Bogotá pelo presidente Juan Manoel Santos e pelo prefeito Enrique Peñalosa – em mobilizar os agentes de segurança para combater o tráfico de drogas e restaurar a presença do Estado em um território “tomado”, trazendo-o de volta, respectivamente, para a sociedade paulistana e bogotana. Entretanto, nas entrelinhas desse ato, está uma população considerada à margem dessas sociedades e que precisa ser, portanto, “reinserida” em seus processos e comportamentos considerados normais. Em São Paulo – e no contexto brasileiro como um todo –, esse conjunto heterogêneo de corpos é nomeado, pelos protagonistas, de “população em situação de rua”, muito embora, majoritariamente, autodenominem-se como moradores e moradoras de rua. Sobre essa população, em grande parte consumidora de drogas – dentre elas o crack, em São Paulo, e o similar basuco, em Bogotá –, as prefeituras pretendem fazer incidir programas batizados de “Redenção” e de “Prevención y Atención Integral del Fenomeno de Habitabilidade en Calle”. Ambos buscam alcançar o objetivo da reinserção social. No caso de São Paulo, mesmo que através de medidas radicais e extremas, como a “internação compulsória”.

Andrés Vanegas Canosa

[2º ato]
Ao compreender que a nomeação de uma população está inserida em processos de formação de sujeitos, ou seja, em processos de subjetivação que buscam separar modos de vida e comportamentos entre aqueles considerados, no escopo social, como normais e anormais, aparecem obstáculos à narrativa central do roteiro sob a forma de questionamentos provenientes de outras discursividades. Desse modo, para além das questões que envolvem os usuários de drogas ou o tráfico, surgem indagações sobre outras intenções objetivas relacionadas às ações impetradas no território e que desviam o raciocínio imediato do combate ao tráfico para outros interesses vinculados à própria questão territorial. Tanto em São Paulo quanto em Bogotá, as áreas que foram alvo da intervenção armada e posterior mobilização de contingente de segurança para evitar sua reapropriação estão localizadas em porções centrais e estratégicas da cidade, bem servidas de infraestrutura e, consequentemente, de grande interesse para ações de “requalificação urbana”[1]. Ou seja, áreas de grande interesse para o setor imobiliário a partir da lógica neoliberalizante de transformação da terra urbana em commodity e sua exploração financeira e especulativa viabilizadas pela institucionalização de parcerias público-privadas (PPPs). Na mesma lógica, empresas privadas são contratadas pelos poderes públicos locais – em regime de terceirização – para implementar programas assistencialistas, de controle e correção dos corpos “anormais”.

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Imagem do projeto “Nova Luz” de Jaime Lerner

[3º ato]
Enunciados no 2º ato, novos personagens trazem confrontações ao objetivo inicialmente delineado pela ação armada. Problematiza-se que o espaço não foi tomado pelo tráfico, mas foi deixado, para se tornar um território onde o tráfico se soma ao cotidiano de populações historicamente, em sua maioria, já vulnerabilizadas e invisibilizadas pela assimetria na implementação de políticas públicas. Nesse sentido, descortina-se que a retomada do território – seja da Cracolância, seja de El Bronx – busca menos arcar com as dívidas históricas vinculadas à exploração e à sujeição dos corpos que dele se apropriam, estabelecendo-se como mais uma oportunidade para que a elite controladora da produção dos espaços da cidade possa dar continuidade aos processos homogeneizantes de transformação empreendedorista do tecido urbano. A terra urbana degradada e seu entorno podem ser comprados a baixo preço e, após investimentos a médio e longo prazo, trarão grandes retornos financeiros. Nesse escopo, os corpos considerados anormais passam a ser compreendidos, numa reviravolta do enredo, não mais como um problema para a cidade e seus espaços, mas como uma parte da lógica de destruição criativa do espaço político-econômico que se espraia nos tecidos urbanos das cidades. Tornam-se corpos úteis e tão antigos quanto a história dos próprios centros urbanos, dispostos por cidades que, ao se reproduzirem, reflexivamente, também produzem tais corpos. E, ao voltar, para o programa da prefeitura de Dória, o “Redenção”, verifica-se que ele não se refere às pessoas que outrora espacializavam seus modos de vida, mais ou menos temporariamente, nos espaços públicos da cidade. A redenção é, indubitavelmente, a repetição constante do final feliz de um sujeito de outra ordem: o capital.

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[spoiler]
Algum tempo depois da demolição da Cracolândia e do Bronx, outras localidades, nestas mesmas cidades, [re]constroem a dinâmica dos ambientes outrora demolidos, já que os “anormais” insistem em não se vincular às políticas normalizadoras disponibilizadas pelos poderes públicos. A nova Cracolândia e o novo Bronx, sem políticas públicas intersetoriais que deem conta da complexidade que envolve a questão do tráfico e de corpos que insurgem no espaço a partir de outros desenhos e lógicas de família, propriedade e trabalho, aguardam o tempo necessário para que novas forças especiais armadas sejam chamadas para resolver o que se considera como um problema das drogas, arraigado em forte apelo moral e midiático.

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[1] Para saber mais sobre planos de requalificação da região:
[OBSERVA SP] Intervenção na Cracolândia: Luz para quem
[CIDADE PARA QUE(M)?] o que há por trás da ação higienista na “cracolândia”?

TEXTO-FIM
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Karine Carneiro

Professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFOP, doutora em Ciências Sociais pela PUC-MG, mestre em sociologia com ênfanse em Meio Ambiente pela UFMG e pesquisadora do grupo Indisciplinar.

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