Antonio Candido

Antonio Candido, um dos maiores intelectuais da história do país, morreu aos 98 anos em 12 de maio de 2017

Antonio Candido, um dos maiores intelectuais brasileiros, morreu aos 98 anos em 12 de maio

Há seis meses morria o crítico e escritor que foi parte de uma época mítica, em que era preciso, para compreender o país, ser também poeta. Relato de um encontro com ele

Crônica de Maria Bitarello  

No fim de outubro, fui à Pinacoteca, no centro de São Paulo, visitar a exposição No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos, em comemoração ao aniversário de nascimento do pintor e fiquei inspiradíssima. Recomendo desde já uma visita e um mergulho na obra do carioca que foi uma espécie de cronista de seu tempo. Suas charges e ilustrações pra revistas foram, para mim, a maior e mais deliciosa surpresa, pois, sem se dar conta (ou se dando conta), Di foi registrando a passagem do século 20, seus tipos e suas modas, seus políticos e suas vedetes, suas fofocas e tabus. Um deleite. Saí de lá animada e pensando no Antonio Candido.

Conheci o professor, sociólogo e crítico literário pessoalmente em 2013. Eu, minha mãe e o amigo e cronista Matthew Shirts fomos à sua casa para um bate-papo informal e passamos uma tarde inesquecível conversando sobre literatura, História, São Paulo, contando piadas. Na época, Candido devia ter 95 anos, mas não havia nenhuma indicação física, mental e espiritual que confirmasse essa hipótese. Sua memória parecia imaculada; o olhar vivo e atento; o corpo respondia aparentemente com presteza a seu desejo de levantar e buscar tal livro ou, até, de imitar a dança de algum personagem de uma história que contava.

Generoso com seu tempo, o professor nos recebeu após uma ligação da minha mãe que, na época, estudava sua correspondência com o brasilianista Richard M. Morse, já falecido, e que fora orientador, amigo e guru intelectual dela. Matthew também fora seu pupilo e amigo. Já eu o conheci criança e, na época daquela visita, traduzia alguns de seus artigos para o português, para aquele que viria a ser o livro Cidades e Cultura Política nas Américas, lançado esse ano pela Editora UFMG. Antonio Candido topou o encontro e contou histórias suas com Morse, lembrou do amigo e deu sua benção (pra nós, sagrada) ao projeto.

Umas duas semanas depois do lançamento do livro, que aconteceu em abril desse ano, passei na portaria do prédio do nonagenário, numa tarde de chuva, pra lhe deixar de presente um envelope molhado com um exemplar e um bilhetinho dentro. Dali a dois dias, em 12 de maio, Antonio Candido morreu, aos 98 anos. Eu não sabia, mas ele já estava no hospital naquela tarde de chuva e, com certeza, nunca recebeu o livro. Eu fiquei muito tocada com sua passagem – e tudo isso está relacionado com a exposição na Pinacoteca.

Di Cavalcanti, Antonio Candido e Richard Morse têm a ver com uma época mítica, com um Brasil bem diferente. Porque, como bem disse o antropólogo francês Roger Bastide, “o sociólogo que quiser compreender o Brasil não raro precisa transformar-se num poeta”. E eles sabiam disso; viviam isso. Assim como o faziam Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Cartola, Noel Rosa. Algumas gerações de “poetas” brasileiros que coexistiram nessas primeiras décadas do século 20.

“O mundo do meu avô era o meu preferido (…) No mundo do meu avô a gentileza, a solidariedade e a beleza da vida são rainhas”. Me lembrei desse trecho do belo texto escrito por sua neta, Maria Clara Vergueiro, e publicado na Folha de S.Paulo uma semana após a morte de Antonio Candido. Ele não foi meu avô, mas acho que entendo o sentimento dela, pois pra mim também o mundo dele (e daquela turma) fora dos melhores. Um mundo que parece não estar em nenhuma parte de 2017 – pra qualquer lado que se olhe.

TEXTO-MEIO

Mas o pessimismo não me convém. E gosto de pensar que se Antonio Candido ainda estivesse entre nós, não desanimaria. Passaria a tarde na Pinacoteca, na companhia dos seus, que já é um pouquinho de saúde, um merecido descanso na loucura. Foi onde reencontrei todos eles.

 

 

TEXTO-FIM

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Maria Bitarello

Escritora, jornalista e tradutora. Mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro. Outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com

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