Trajetória de um pensador não convencional

Crítico e professor, Ronaldo Lima Lins completa-se como romancista singular, que frisa: “a ficção deve assumir que pensa, como o ensaio deve sentir”

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Crítico e professor, Ronaldo Lima Lins ligou-se às lutas por uma universidade para todos. Mas completa-se como romancista singular, que frisa: “a ficção deve assumir que pensa, como o ensaio deve sentir”

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Lançamento de Ronaldo Lima Lins: criação e pensamento

De Carmen Negreiros e Theotônio de Paiva (organizadores)

Terça-feira, 7/11, a partir das 18h30

Livraria Da Vinci: Avenida Rio Branco, 185 — Centro — Rio — Metrô Carioca (mapa)

Textos de Ronaldo Lima Lins, ou sobre sua obra, publicados por Outras Palavras, podem ser acessados aqui

A carreira de Ronaldo é tão peculiar quanto sua vida. Nunca seguiu um caminho linear, jamais optou pela trilha mais fácil ou escolheu o terreno já pavimentado, porque Ronaldo nunca se acomodou. Ronaldo Lima Lins repulsa o fácil, o simples.

Leia a densa obra de reflexão filosófica que é Crítica da moral cansada; perca uma noite de sono sacudido pela emoção dolorida do romance A lâmina do espelho e depois vá visitá-lo: na bela sala a que se chega depois de subir a longa escadaria de sua casa, no alto de uma ladeira em Santa Teresa.

A vista, a narrativa, a crítica inteligente lhe darão a certeza de que valeu a pena. Mas nada disso terá sido simples porque não terá sido banal, porque terá sido necessário partilhar de um esforço.

[…]

A carreira acadêmica de Ronaldo Lima Lins, como a vida, começou no exteriori. De 1971 a 1974, foi professor visitante do Departamento de Estudos Hispânicos e do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Liverpool, na Inglaterra. Durante esses anos, iniciou sistematicamente suas reflexões sobre o teatro brasileiro e a obra de Nelson Rodrigues. Vista de fora, a agonia da sociedade e da cultura brasileira pareceria poder ser vista melhor.

De 1974 a 1975, deu aulas como chargé de cours na Universidade de Paris VII, França. A Paris voltará sistematicamente, e o convívio com intelectuais como Jacques Leenhardt marcará sua linha de pensamento.

As conferências internacionais que pronunciou pela vida afora, em Paris, Washington, Lisboa, Havana e Nova York, conviveram sem problemas com idas a Ijuí, no Rio Grande do Sul, ou a Campina Grande, na Paraíba. Sempre que convidado, falou em eventos de toda a UFRJ ou de outras universidades do Estado.

Em 1975, Ronaldo Lima Lins tornou-se doutor em Letras pela Universidade de Paris III (Sorbonne Nouvelle) com a tese O teatro de Nelson Rodrigues: uma realidade em agonia. Transformada em livro e publicada no Brasil, esta é uma das mais importantes referências aos estudos do autor. Com sucessivas edições esgotadas, o livro continua sendo lido e adotado especialmente nos cursos de teatro do país e do exterior, fazendo parte de todas as bibliografias sobre o intelectual.

Foi em 1978 que Ronaldo Lima Lins tornou-se professor da Faculdade de Letras. Imediatamente começou a atuar nos cursos de pós-graduação, mas as aulas em mestrado e doutorado não o afastaram por um semestre sequer do ensino na graduação. De lá para cá, já orientou 52 mestres e 30 doutores. Ou seja, colaborou de forma decisiva para a constituição da massa crítica na área, formando vários de nós que compomos o Departamento de Ciência da Literaturaii. Repito aqui, nesta outra volta do parafuso, o que escrevi em 1989, na abertura de minha tese de doutorado: “A realização deste trabalho se deve, sobretudo, à obstinação de Ronaldo Lima Lins, que teimou em confiar em mim todas as vezes em que não vi razão para isso”. A partir daí, o envolvimento do professor com a faculdade foi completo, total, vital. Excessivo? Talvez.

Diretor eleito da faculdade em 1982, empenhou-se na organização de congressos e debates e viabilizou a transferência da faculdade para a Ilha do Fundão, em prédio próprio, pela primeira vez com espaço condizente com a importante biblioteca que a faculdade possui.

De tal modo participou da luta pela democracia na UFRJ, pelos concursos públicos, por eleições internas e pelo direito a voto de todos os corpos da universidade, que foi convidado a compor a lista sêxtupla que, após consulta à comunidade e aprovação pelo Consuni, foi levada ao Ministério da Educação. Foi quando Horácio Macedo tornou-se nosso primeiro reitor indicado pela comunidade. […]

O estágio de pós-doutorado em Paris, com apoio do CNPq, vinculou-o de janeiro de 1991 a janeiro de 1992 ao Grupo de Sociologia da Literatura, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. Mais uma vez, o resultado da pesquisa será publicado em livro: Nossa amiga feroz: breve história da felicidade na expressão contemporânea (1993). Segue-se O felino predador: ensaio sobre o livro maldito da verdade (2002). A obra trata de Pascal, Kafka, Thomas Mann, da verdade e da mentira, do pensamento e da morte. No prefácio, uma frase intrigante: “Por que não desistir? É da ordem desse espanto, interrompido no salto, que se desenvolve o nosso felino predador” (Lins, 2002, p. 13).

Em 2006, publica o livro de ensaios cujas edições continuam se esgotando: A indiferença pós-moderna. Nesse mesmo ano, volta eleito à direção da Faculdade de Letras. No auge de sua produção ensaística e romanesca, reconhecido por todas as instâncias de apoio e financiamento à pesquisa, volta ao trabalho administrativo. Talvez o tenha feito incentivado pelos novos ares que sopravam na UFRJ e pelas perspectivas de democratização no acesso ao ensino superior, de ampliação de vagas, de abertura de novos cursos. Mas, talvez, por julgar que as lutas de toda a vida deveriam tirá-lo de sua escrivaninha, com vista para o relógio da Central do Brasil, para a beleza da cidade abaixo, mas também para as favelas miseráveis que cercam o Largo do Guimarães.

Diz, em A construção e a destruição do conhecimento, de 2009, publicado, como sempre quis que fosse, pela Editora UFRJ:

Sem estímulo, minha indignação teria se limitado a alguns comentários em torno da política e às suas manifestações em nossas formas de conduta. Sem a indignação, a força para erguer os braços e me colocar em campo teria carecido de gás, da matéria volátil que nos sacode da inércia e nos atira no meio da contenda. (Lins, 1990, p. 27-28)

Falei do professor, do pensador, do ensaísta.

O que me agradaria, porém, […] era poder falar, sobretudo, do ficcionista, mas Ronaldo pensa essas múltiplas expressões sem fronteiras, como disse em seu memorial:

Não posso me ver professor e não me ver escritor, e vice-versa, na universidade que compreendo na esfera intelectual. O elo de criação aparece na raiz do modo como me manifesto […] Como a ficção deve assumir que pensa, o ensaio deve sentir. A conferência, a comunicação, o artigo de jornal, cada um no seu gênero, participam de uma visão de conjunto. E no ensino, graças a tal convicção, não perco a perspectiva do outro como sujeito, ele com a iniciativa de traduzir na experiência o que ouve, o que vê ou o que lê, responsável por uma instrução que de outro modo não se realiza.

No entanto, como alguém que tem se dedicado à literatura brasileira contemporânea, eu não poderia deixar de dizer que A lâmina do espelho (1983), romance que se segue a Material de aluvião e Os grandes senhores, ambos de 1975, é das mais contundentes, emocionantes, arrebatadoras e tristes narrativas que já li. Há no romance, que começa com a frase: “O professor fechou os olhos”, uma dor que é a dor maior, porque permanente, sem analgésico possível, a dor de existir. Mas, acima da dor, a confiança na vida. Pensando no Lukács de A alma e as formas, menos na vida, mais na Vida (em maiúscula).

A esse romance seguiram-se o sofisticado As perguntas de Gauguin (1988) e o resenhado e discutido Jardim Brasil: conto (1997).

Entre 1997 e 1998, Ronaldo Lima Lins já experimentara outros suportes literários. Talvez saudoso da vivência com as artes da encenação e seus performers, que tivera quando foi presidente do Conselho Nacional de Cinema (Concine), em 1980, integrando a equipe que Eduardo Portella levara ao que pretendia fosse o Ministério de Educação e Cultura da Abertura, escreveu um texto dramático: Jacques e a revolução ou como o criado aprendeu as lições de Diderot. A peça recebeu o Prêmio Maurício Távora de 1989 da Secretaria de Cultura do Paraná e foi encenada e publicada.

Com a experiência poética, Ronaldo Lima Lins escolheu trabalhar a palavra sob mais uma forma e publicou em 2010 o bem recebido por nossa exigente crítica de poesia Mais do que a areia menos do que a pedra, pela 7Letras.

i# Filho de diplomata, Ronaldo Lima Lins nasceu no Uruguai. (N. E.)

ii# Evidentemente a autora faz referência ao departamento ligado à Faculdade de Letras da UFRJ. (N. E.)

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