EUA à beira de nova onda macartista

O senador norte-americano Joseph McCarthy, que liderou nos anos 50 onda de histeria anticomunista. Ela resultou em perseguições a intelectuais, jornalistas e políticos acusados de simpatia pela União Soviética ou de homossexualismo

O senador norte-americano Joseph McCarthy, que liderou nos anos 50 onda de histeria anticomunista. Ela resultou em perseguições a intelectuais, jornalistas e políticos acusados de simpatia pela União Soviética ou de homossexualismo

Como há 60 anos, país procura na Rússia bode expiatório para seus problemas internos. Editor de “The Nation” demonstra, ponto a ponto, inconsistência das alegações sobre “interferência de Moscou”

Você acredita nas “matérias” e comentários cada vez mais frequentes na velha mídia, segundo as quais Putin aliou-se a Trump para influenciar as eleições norte-americanas? Então leia, por favor, um artigo (http://bit.ly/macartismo) publicado há uma semana, em The Nation, por Stephen Cohen, editor associado à revista e professor emérito das universidades de Princeton e Nova York. Abismado com o volume gigantesco de propaganda anti-russa nos jornais e sites norte-americanos (inclusive “alternativos”), Cohen concentra-se em dois pontos.

Primeiro, ele desconstroi, um a um, os seis “argumentos” que supostamente “demonstrariam” a aliança. Trump fez elogios a Putin? Saiba, então, o que Roosevelt falou de Stálin, e o que Bill Clinton disse de Boris Yeltsin — inclusive comparando-o (favoravelmente…) a George Wasgington e Abrahan Lincoln. Hackers russos ligados ao Kremlin invadiram o servidor de emails do Partido Democrata? Fora a lenda, não há evidência alguma a este respeito — e sobram sinais de que as mensagens comprometedoras a Hillary Clinton foram vazadas por gente de seu entorno, ou pelas agências de espionagem dos próprios EUA.

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Trump já tropeça em seus próprios limites

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Plano para atrair a Rússia e isolar a China parece pueril. E o Estado Profundo dos EUA começa a sabotar seu presidente — agindo na Ucrânia

Por Antonio Martins

Em teoria, o plano é ótimo. Como um Nixon ao contrário — porém igualmente poderoso –, o novo presidente dos EUA irá se aliar à Rússia, para afastá-la da China, vista hoje (com razão) como a principal ameaça à dominação global norte-americana. A estratégia tem até um padrinho: Henry Kissinger, o ex-secretário de Estado que articulou, nos anos 1970, a aproximação de Washington com Pequim (além de apoiar o golpe de Pinochet e outras estrepolias…).

Mas a execução é que são elas. Dois fatos, nas últimas semanas indicam tanto os limites para a ação de Trump (muito maiores que os de Nixon, há três década) quanto as contradições e mesmo sabotagens crescentes que o presidente encontra no aparato de Estado dos EUA. Continuar lendo

Um outro lado da guerra na Síria

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Embora omita envolvimento dos EUA, documentário destaca algo de humanidade em meio ao conflito: os cidadãos comuns que, arriscando a pele, decidem salvar o máximo de vidas do inferno

Por João Fernando Finazzi

A guerra civil na Síria vêm atingindo seu ápice com os acontecimentos recentes. A crise internacional aprofundou-se com o bombardeio dos EUA sobre as tropas sírias no último sábado e a convocação pela Rússia de uma reunião emergencial no Conselho de Segurança. Nesse contexto, as narrativas muitas vezes se situam na divisão entre a acusação ou a relativização de um dos dois lados do conflito, algo que em muito lembra as chamadas proxy wars, ou guerras por procuração, do período da Guerra Fria. O lançamento pelo Netflix do documentário sobre os White Helmets, grupo que busca executar trabalho humanitário em meio ao conflito, pode ajudar a desconstruir, em parte essa divisão.

Apesar de o filme, assim como outros da marca, silenciar completamente sobre o papel dos EUA, tendo como as únicas referências do bombardeio indiscriminado de civis a Rússia e o governo sírio, ele possui o mérito de mostrar ao longo de seus 40 minutos o trabalho in loco dessas pessoas de carne e osso, sob a mira dos incessantes bombardeios e das câmeras de foto e vídeo. Continuar lendo

Um concerto em Palmira

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Na Síria, em anfiteatro romano onde o ISIS executou ao vivo 25 prisioneiros, orquestra russa toca Bach e Prokofiev. Moscou parece ter compreendido a importância do “soft power”

Em julho de 2015, os ultra-fundamentalistas do ISIS, que controlavam, na Síria, a cidade de Palmira, encenaram uma cena macabra, num anfiteatro construído pelos romanos no século II. Vinte e cinco prisioneiros foram executados, diante das colunas erguidas há dois milênios, por 25 crianças e adolescentes. Em setembro de 2015, a Rússia entrou na guerra contra o ISIS, apoiando com ataques aéreos o exército nacional sírio. Em 23 de março deste ano, Palmira foi reconquistada; e os fundamentalistas, expulsos. Ontem, Moscou celebrou o feito em alto estilo. Exatamente no mesmo local da execução, a orquestra sinfônica Mariinsky, dirigida pelo maestro Valery Gergiev — que é também o principal regente das sinfônicas de Londres e Munique — executou obras de Bach e dos compositores russos Sergei Prokofiev e Rodion Shchedrin.

Foi um ato de celebração e propaganda meticulosamente preparado. Além dos músicos, um grupo seleto de jornalistas internacionais foi convidado pelos russos, conduzido de avião a Damasco e em ônibus especiais até Palmira. Entre a plateia havia ainda os embaixadores de dezenas de países junto à Unesco. Continuar lendo

Derrubada de avião russo: o mundo próximo à guerra

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Noam Chomsky explica: Turquia, que é aliada dos EUA e disparou míssil, tornou-se ameaça à democracia e à paz internacional. Washington já é incapaz de gerir seu império

Por Antonio Martins

O fantasma de uma guerra global voltou a se manifestar esta manhã, quando dois aviões de caça turcos dispararam contra um bombardeiro russo, que atacava instalações militares do Califado Islâmico na Síria. O avião, que voava próximo à fronteira sírio-turca (há controvérsias sobre a localização exata) foi derrubado e destruído. Os dois pilotos ejetaram-se da cabine, mas foram capturados e mortos por terroristas. A Turquia integra a OTAN, aliança militar dirigida pelos EUA. É a primeira vez, desde os anos 1950, que ocorre uma escaramuça de tal natureza entre duas potências nucleares. Ainda não se sabe como reagirá Moscou (Vladimir Putin considerou-se “apunhalado pelas costas”), mas num mundo à beira de um ataque de nervos as consequências podem ser dramáticas. Por que a Turquia agiu deste modo? Quais podem ser os desdobramentos?

Dois textos de Noam Chomsky, intelectual norte-americano dissidente, ajudam a explicar os motivos – e, ao fazê-lo, tornam o fato ainda mais dramático. O primeiro, ainda sem tradução em português, foi publicado ontem, na revista digital Alternet. A Turquia está se convertendo rapidamente num foco de grandes tensões, bem no centro de uma região tradicionalmente explosiva, explica o filósofo e linguista. Pressionado por oposição de esquerda e por uma situação geopolítica desconfortável, seu governo tenta manter-se com base em repressão interna e na busca de um inimigo externo. Seus serviços de segurança são acusados de cumplicidade no atentado a bomba que matou 99 manifestantes pela paz, em meados de outubro (a autoria direta foi reivindicada pelo ISIS). Mais recentemente, o presidente Recep Tayyip Erdogan voltou-se contra a liberdade de expressão.

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A Rússia — quem diria — protege um dissidente norte-americano

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Moscou estende por três anos proteção a Edward Snowden. Agora, homem que revelou vigilância militar dos EUA poderá viajar pelo mundo

Por Cauê Seinemartin Ameni

Há dias, ao descrever as tensões crescentes entre as potências ocidentais e a Rússia, o ex-senador norte-americano Tom Hayden falou na emergência de uma II Guerra Fria. No novo cenário, previu ele, a mídia convencional dos EUA e nações aliadas vai aliar-se à política externa e às estratégias militares de seus respectivos países — até perder a independência. Um alvo central será o presidente russo, Vladimir Putin. Seus defeitos serão ampliados, para que se converta num demônio. A ele serão atribuídos crimes sem comprovação alguma (como no caso da derrubada do avião da Malasian Airlines em 20/7). Como na época da União Soviética, Moscou será apresentada como símbolo de restrição às liberdades e poder tirânico do Estado.

Ontem, porém, ficou claro que não será fácil realizar esta operação de marketing político. O Ocidente terá dificuldades cada vez maiores de se dizer mais democrático que a Rússia. Putin sabe disso e parece disposto a explorar esta contradição. Num gesto calculado, Moscou decidiu que dará proteção a um dissidente perseguido por Washington. Edward Snowden, o ex-contratado da NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA) que revelou a rede onipresente de espionagem militar norte-americana sobre os cidadãos, teve seu visto de permanência na Rússia prorrogado por três anos — extensíveis por mais três. Terá regalias: poderá deixar o país e regressar a ele durante três meses por ano. É algo que sua condição anterior (de asilado provisório) não permitia, e que, caso se concretize (há dúvidas quanto à segurança do ex-agente fora da Rússia) poderá ter imensa repercussão midiática. O anúncio foi feito ontem (7/8) por Anatoly Kuchera, advogado russo de Snowden. Continuar lendo

Vladimir Putin, Nobel da Paz?

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Presidente russo evitou ataque à Síria, mas lidera governo que viola direitos humanos. Ainda assim, sua eventual premiação não seria incoerente com história da honraria

Por Vinícius Gomes

A indicação do presidente russo Vladimir Putin para o Prêmio Nobel da Paz em 2014 tem gerado debate. A base da proposta, lançada pela Academia Internacional de Unidade Espiritual e Cooperação dos Povos do Mundo, é a atuação de Putin junto à crise na Síria e o esfriamento dos ânimos na Casa Branca e dos “falcões democratas” (sim, não são apenas os republicanos), ávidos por um bombardeio “humanitário” no país.

O Nobel da Paz será entregue no próximo dia 11 para “a pessoa (ou instituição) que mais, ou melhor, fez pela fraternidade entre as nações, a abolição ou redução de exércitos em prontidão e pela realização ou promoção de congressos pela paz”. Há 259 indicados.

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Síria: em vez dos Tomahawks, alguma esperança

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Frustrado o ataque norte-americano, surgem os primeiros caminhos de pacificação. Sociedade civil reivindica participar das negociações sobre o pós-guerra civil

Por Cauê Seignemartin Ameni

Erudito e sofisticado, porém partidário da ordem liberal, o historiador britânico Timothy Garton Ash comentou com irônica amargura o arranjo diplomático que impediu, há semanas, uma intervenção norte-americana na Síria. Depois de destacar o claro declínio de Washington no cenário global contemporâneo, ele alfinetou: “aos críticos e inimigos dos Estados Unidos, digo apenas: se vocês não gostavam do velho mundo em que os EUA intervinham regularmente, esperem para ver o novo, em que isso não ocorrerá”.

Menos de um mês depois, está surgindo, precisamente na Síria, um primeiro desmentido ao vaticínio de Timothy. A alternativa desenhada pela ONU, para evitar o ataque dos EUA, está sendo implementada. Livres dos mísseis Tomahawk, que teriam agravado os horrores e o labirinto da guerra civil, governo e parte da oposição armada abriram algum diálogo – que pode isolar as redes terroristas ligadas à Al-Qaeda. Fala-se mais frequentemente num processo de negociações para reconstruir o país. Grupos da sociedade civil reivindicam presença no processo. Continuar lendo

Rússia: reprimidos, gays avançam

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Lei homofóbica atiça violência mas, contraditoriamente, abre caminho para debater padrões sexuais alternativos. Ativistas rejeitam boicote às Olimpíadas de 2014

Por Taís González

O presidente russo, Vladimir Putin, sancionou no dia 30 de junho uma lei que proíbe “propaganda de relações sexuais não-tradicionais para menores”, abrindo um novo capítulo na história dos direitos dos homossexuais na Rússia. A lei impõe pesadas multas a pessoas que forneçam informações sobre homossexualidade a menores de 18 anos, e proíbe a adoção de crianças russas por homossexuais solteiros que vivam em países onde é legal o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A proibição federal baseou-se no “sucesso” de leis regionais sobre “propaganda do homossexualismo para menores”, aprovadas em dez regiões a partir de 2006.

Entretanto, a lei é ambígua e perigosa. Sem uma definição legal de “propaganda” ou “relações sexuais não tradicionais”, não é possível controlar o modo como as autoridades irão utilizá-la. Para se ter ideia, quatro turistas holandeses foram detidos no norte da cidade de Murmansk, em julho, fazendo um documentário sobre o que é ser LGBT na Rússia. A justificativa foi que estariam espalhando “propaganda de relações não-tradicionais entre menores de idade”, já que os documentaristas teriam falado com adolescentes em um acampamento. Continuar lendo

Rússia: surge um novo movimento estudantil

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“The Nation”  relata ocupação de uma universidade em Moscou e sugere que movimentos semelhantes poderão se espalhar, nos próximos meses

Num momento em que ressurgem sinais de mobilização estudantil na Europa [veja texto sobre Universidade de Essex], vale a pena lançar os olhos também para a Rússia. Um dos blogs da revista norte-americana The Nation relatou, em 22/2, o que seria “o exemplo mais visível de ativismo [estutantil] em muitos anos”. Trata-se de uma moblização curta, porém expressiva, que sacudiu em dezembro passado a Universidade do Estado Russo para Comércio e Economia (RGTEU, em russo). Continuar lendo