Alternativas: e se energia for um Bem Comum?

Eletricidadade e combustíveis são vitais para atividade humana — mas produzi-los pode causar enormes impactos sociais e ambientais. Por isso, não podem continuar submetidos aos interesses do mercado

Como estender os benefícios e conforto oferecidos pela eletricidade a todos os seres humanos — inclusive a um bilhão de pessoas que não têm, hoje, acesso a uma lâmpada elétrica? Como evitar que, a pretexto de garantir este direito, mega-empresas, quase sempre financiadas por recursos públicos, desenvolvem imensos projetos que afetam a natureza e as populações locais?

A Assembleia Europeia dos Comuns (AEC), uma articulação da sociedade civil impulsionada pela Fundação Peer to Peer (saiba mais aqui) propõe uma resposta inovadora. Ela quer alterar o paradigma que orienta, hoje, tanto a produção de eletricidade e combustíveis quanto sua distribuição e suas receitas. Ao invés de subordinarem-se a interesses de mercado, estas atividades devem ser consideradas Bens Comuns da Humanidade. As decisões essenciais precisam ser transferidas das mega-empresas a comunidades organizadas.

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Outros Quinhentos oferece 25 livros grátis

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Programa de sustentação autônoma de Outras Palavras propõe obras que examinam temas contemporâneos cruciais. Oferta é possível graças a parceiras não-mercantis com produtores culturais

Por Antonio Martins


MAIS:
Para participar de Outros Quinhentos, o programa que garante a independência e a ampliação constante deste site, entre aqui

Marilena Chauí comparece com Conformismo e Resistência, coletânea de ensaios famosos, totalmente revisados à luz dos anos recentes. Do economista negriano Maurizio Lazzarato, propomos Signos, Máquinas, Subjetividades. Os riscos implícitos na atual conjuntura brasileira estão expostos em Direita, Volver, série de artigos que tem despertado intenso debate. Para um exame a fundo sobre os dilemas da esquerda, há Rosa Luxemburgo ou o preço da Liberdade. São apenas quatro, entre 25 títulos queOutras Palavras oferece grátis, até 25 de janeiro, a quem aderir a Outros Quinhentoso programa de sustentação autônoma do qual virão, neste ano, 85,8% de nossos recursos. Veja aqui como obter os livros.

A oferta é possível por dois motivos. Primeiro, procura impulsionar a segunda e última fase de nosso esforço de captação de recursos junto aos leitores, em 2016. Começamos muito bem: já obtivemos, na virada do ano, R$ 67,2 mil. Porém, precisamos levantar, nas próximas dez semanas, R$ 142,8 mil. (veja nosso orçamento). Os livros são uma retribuição simbólica – porém significativa – a quem participa da manutenção e ampliação de nosso trabalho editorial. Continuar lendo

Haddad perde outro pênalti

Ele permanece cego diante de um dos principais fenômenos contemporâneos, no universo da política

Ele permanece cego diante de um dos principais fenômenos contemporâneos, no universo da política

Alckmin volta a posar de paladino do Estado policial. Prefeito omite-se e desperdiça oportunidade rara de cumprir um papel renovador entre a esquerda

Por Antonio Martins

Dois fatos marcantes destacaram-se ontem em São Paulo, em mais um episódio de brutalidade policial contra manifestantes pacíficos. À direita, o governo estadual deu mostras de que não tem limites, em sua tentativa de defender, diante da crise, o Estado de Segurança. É algo assustador, porque está assumindo dimensões globais, como mostra o filósofo Giorgio Agamben, numa entrevista recente. Esperou-se que Fernando Haddad cumprisse papel contrário. Em vão. Omisso diante de um episódio que atinge sua imagem em cheio, o prefeito deu a entender que não acordou nem para a crueza dos embates políticos de hoje, no Brasil, nem para algo muito mais refinado: a busca de novos projetos pós-capitalistas.

Que não restem dúvidas: só uma autorização no nível mais alto da hierarquia do Estado permitiria à PM agir de modo tão semelhante ao 13 de junho de 2013. Mas às bombas e à pancadaria deflagradas sem qualquer pretexto, somaram-se um ingrediente emblemático. A polícia interferiu de modo direto no percurso do protesto. Bloqueou o trajeto escolhido pelos manifestantes, que queriam seguir pela Avenida Rebouças – onde seriam muito menores os efeitos sobre o trânsito e os riscos de confronto. Obrigou-os a rumar para o centro da cidade, onde situa-se a prefeitura. Redobrou a selvageria à medida em que, já dispersos, eles aproximavam-se do Viaduto do Chá, onde fica o gabinete de Haddad. Que pretendia? Em 2013, em circunstâncias idênticas, foi assim que um grupo provocador ganhou força para desafiar o Movimento do Passe Livre, depredou a prefeitura e esteve a ponto de invadi-la – sempre com a conivência da PM. Continuar lendo

Por uma internet mais subversiva

Fevereiro de 2014: manifestantes saem às ruas na Turquia contra restrições à internet, aprovadas pelo Parlamento. Para autores do novo manifesto, é preciso enfrentar, além do autoritarismo, mercantilização da rede

Manifestantes saem às ruas na Turquia, em 2014, contra restrições à internet. Para autores do novo manifesto, é preciso enfrentar, além do autoritarismo, mercantilização da rede

Em resposta ao Facebook, Google e plataformas precarizantes como Uber, pesquisadores e ativistas mobilizam-se para criar redes pós-capitalistas, onde se compartilhe propriedade e trabalho

Por Antonio Martins

Se você acha que o potencial democratizador e descentralizador da internet está se perdendo em banalidades (como as timelines do Facebook), ferramentas de controle (como o Google, capaz de vigiar todos os seus passos) ou plataformas que, embora favoreçam o compartilhamento, beneficiam essencialmente seus proprietários (como Uber e AirBnB), não sinta-se sozinho. Está se espalhando rapidamente pela rede o Projeto Novo Sistema.

Lançado por dois jovens pesquisadores norte-americanos (Nathan Schneider e Trebor Sholz, apresentado num manifesto que tem, entre outros endossos, o de Noam Chomsky, ele sustenta que as sociedades articuladas em redes estão maduras para um novo sistema social, claramente pós-capitalista. Questiona pilares centrais da ordem atual – como a propriedade privada e o trabalho assalariado. Pede esforços para desenvolvimento de sistemas de internet realmente libertadoras (visando um Cooperativismo de Plataforma). Acredita que é possível começar a construí-lo desde já. Mas reconhece: a tecnologia não promove as grandes mudanças sociais – para elas, é necessário consciência e mobilização de massas.

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A Suécia ensaia a jornada de 6 horas de trabalho

Manifestação em favor dos imigrantes em Estocolmo (2015): versão igualitária e livre do Estado de bem-estar social deixou raízes na Suécia

Manifestação em favor dos imigrantes em Estocolmo (2015): versão igualitária e livre do Estado de bem-estar social deixou raízes na Suécia

Tapa na cara de quem acredita em “austeridade” e “sacrifícios”: até empresas concluem que trabalhar menos, mantendo o salário, amplia as horas de ócio sem reduzir a produtividade

Pela Redação de Outras Palavras

Símbolos, nos anos 1960 a 80, do Estado de Bem-Estar Social em sua versão mais igualitária, os países do Norte da Europa regrediram muito, neste século. A Suécia tem um governo conservador que colabora estreitamente com os EUA no esforço para manter Julian Assange encarcerado na minúscula embaixada do Equador em Londres. A Finlândia figurou, junto com a Alemanha, na linha de frente dos Estados que impuseram à Grécia, há meses, um recuo humilhante na negociação com seus credores. E, no entanto, algo da antiga tradição distributivista e anti-aristocrática resiste.

Um sinal são os crescentes acordos que estão reduzindo substancialmente, na Suécia, as jornadas de trabalho. Não se trata de mudanças cosméticas: as reduções do tempo laboral para 30 horas semanais (apenas 6 horas trabalhadas, de segunda a sexta) estão se tornando frequentes. Surpresa reveladora: em muitos casos, as empresas aceitam de bom grado a mudança. Ao fazê-lo, revelam na prática como são atrasadas as concepções segundo as quais é preciso “sacrificar-se” em tempos de crise.

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Pós-capitalismo no Festival de Brasília?

Criadores dos seis longas-metragens concorrentes leem, na cerimônia de encerramento do festival, a Carta de Brasília

Carta de Brasília, lida na cerimônia de encerramento do 47º Festival

Gesto dos seis concorrentes que dividiram prêmio revela: todos podemos explorar, em atos quotidianos, as brechas do sistema. Para tanto, é preciso ir além da crítica retórica

Por Graziela Marcheti


MAIS:

Carta de Brasília, um manifesto do cinema brasileiro
Criadores das obras que concorreram ao festival mais antigo do país defendem diálogo entre arte e sociedade, ao anunciar decisão inédita de dividir prêmio. Leia íntegra.

Aconteceu no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e faz acreditar no poder das brechas do mundo. E, mais ainda, que podemos e devemos ocupar os lugares de forma reflexiva e política.

Depois de vários dias de encontros e trocas intensas, os seis concorrentes da Mostra Competitiva optaram por repartir em seis partes iguais o prêmio único de 250 mil reais, oferecido ao vencedor. Eles poderiam “apenas” criticar a organização do Festival por gerar uma condição de intensa competição e (por que não?) inveja entre os concorrentes – já que o valor é bastante alto e concentrado em apenas um ganhador. E, assim, o vencedor seria “crítico” e certamente faria bom uso da bolada. Mas, eles foram um pouquinho além. Os seis escolheram partilhar o dinheiro, antes do resultado do prêmio. Isso muda, de fato, a condição de competição, desigualdade e falta de cooperação que o formato do festival incentiva. Isso muda a experiência. E é a partir dela que formamos nossos mais arraigados entendimentos de mundo.  Continuar lendo

Em Outros Livros, A produção capitalista do espaço, de David Harvey

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Destaque na parceria com Editora Annablume, obra será oferecida, em maio, com até 60% de desconto. Mesmas condições valerão para outros 23 livros

Vinte e quatro títulos editados pela Editora Annablume – e voltados ao exame de temas que Outras Palavras aborda com frequência – estarão à venda em condições especiais, em nossa loja virtual, em maio. Todos os leitores do site terão desconto de 30%. Para os participantes de Outros Quinhentos, nosso programa de sustentação autônoma, a redução será ainda maior: entre 40% a 60%.1

Um dos destaques da parceria é A produção capitalista do espaço (2001), do geógrafo Britânico David Harvey. Nele, o autor propõe uma avaliação crítica do conceito pós-modernismo, proposto pelo seu polêmico livro Condição pós-moderna, referencial aos anos 90. Ele ultrapassa os limites da geografia, transitando pela interdisciplinaridade em questões da economia, antropologia e política, principalmente.

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Um Robin Hood contemporâneo e suas alternativas

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Ativista perseguido por desviar meio milhão de euros dos bancos, para projetos comunitários, fala sobre sua visão de pós-capitalismo

Por Taís González

Em 2008 um jovem catalão desafiava as temerosas e poderosas forças bancárias. Depois de ter conseguido empréstimos de instituições financeiras de quase meio milhão de euros e distribuir a quantia entre movimentos anti-capitalistas, Enric Duran ficou conhecido como “Robin dos Bancos”. Sua desobediência civil com desdobramentos anti-sistema financeiro renderam-lhe uma sentença de oito anos de prisão e o título de rebelde pelo Estado Espanhol. Em recente entrevista ao site da Fundação Peer2Peer, organizado por Michael Bawens, Duran fala sobre a desobediência civil, o (pós-)capitalismo e seu novo projeto: a Cooperativa Integral Catalana.

Para o ativista, o capitalismo é um sistema de dominação baseado em uma minoria que ostenta o poder econômico e, com ele, controla o acesso aos recursos e aos meios de produção. Já o mercado é uma forma de comércio baseado na liberdade e na igualdade de oportunidades que, ao longo da história, foi manipulado em função dos sistemas de dominação. “O mercado, no contexto do Estado e do capitalismo, tornou-se uma desculpa para promover e ampliar as desigualdades”, diz Duran. Continuar lendo

Mujica, teórico da transição pós-capitalista?

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Em entrevista inédita no Brasil, ele debate causas do fracasso do “socialismo real” e afirma: para superar sistema, é preciso começar pelo choque de valores

Cada vez mais popular tanto nas redes sociais como na mídia tradicional, o presidente do Uruguai, Pepe Mujica, arrisca-se a sofrer um processo de diluição de imagem semelhante ao que atingiu Nelson Mandela. Aos poucos, cultua-se o mito, esvaziado de sentidos — e se esquecem suas ideias e batalhas. Por isso, vale ler o diálogo que Pepe manteve, no final do ano passado, com o jornalista catalão Antoni Traveria. Publicada no site argentino El Puercoespína entrevista revela um presidente que vai muito além do simpático bonachão que despreza cerimônias e luxos.

Mujica, que viveu a luta armada e compartilhou os projetos da esquerda leninista, parece um crítico arguto das experiências socialistas do século XX. Coloca em xeque, em especial, uma crença trágica que marcou a União Soviética e os países que nela se inspiraram: a ideia de que o essencial, para construir uma nova sociedade, era alterar as bases materiais da produção de riquezas. “Não se constrói socialismo com pedreiros, capatazes e mestres de obra capitalistas”, ironiza o presidente. Não se trata de uma constatação lastimosa sobre o passado ou de um desalento. Mujica mantém-se convicto de que o sistema em que estamos mergulhados precisa e pode ser superado. Mas será um processo lento, como toda a mudança de mentalidades, e precisa priorizar o choque de valores: tornar cada vez mais clara a mediocridade da vida burguesa e apontar modos alternativos de convívio e produção. Leia a seguir, alguns dos trechos centrais da entrevista: Continuar lendo

Primavera Brasileira ou golpe de direita? (5)

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Perguntas e respostas sobre um movimento que está mudando a cena do país – e cujo futuro, aberto, será decidido também por você

Por Antonio Martins | Imagem: Ninja

5. Que temas permitem retomar uma pauta de direitos e mudanças sociais?


Leia também:
1. É possível falar em “Primavera Brasileira”?
2. Há no ar uma tentativa de golpe antidemocrático?
3. Como foi possível converter manifestações autônomas por direitos em territórios de preconceitos e violência?
4. Por que a tentativa de capturar os protestos é frágil e pode ser vencida?
6. Que são as Assembleias Populares e como elas podem preparar uma nova fase da mobilização?
7. Que revela a postura de Dilma e como os movimentos podem tirar proveito dela?
8. Por que o Brasil estará diante de uma encruzilhada, nos próximos meses? Que papel jogará a mobilização social ?

Um dos motes mais traiçoeiros que circulam nas manifestações é “o gigante acordou”. Seu apelo ao nacionalismo embrutecedor (“nação” é um conceito que pode servir tanto para unir contra a opressão externa quanto para mascarar nossas próprias desigualdades) é claro. Pior: repetido quase sempre por ingenuidade, ele contrabandeia para dentro do movimento uma ideia despolitizadora. Sugere que as lutas para mudar o Brasil estão começando hoje. Procura ocultar o esforço de décadas, feito pelos movimentos sociais e sociedade civil, para formular pautas ligadas à garantia de direitos para todos. Todas estas reivindicações são importantes, para romper a barreira mistificadora da mídia e das elites.

Porém talvez valha a pena, neste momento de disputa aguda de sentidos, concentrar energia naquelas que, por dialogarem com o sentimento das ruas, provocam e fazem refletir. Defini-las é algo que precisaremos fazer em conjunto. Eis a seguir algumas sugestões. Continuar lendo