Minha irmã, que o machismo matou

170729-MayaraAmaral

Mayara Amaral, violonista com uma dissertação incrível sobre mulheres compositoras. Desde a semana passada, vítima de uma violência que parece cada vez mais banal 

Por Pauliane Amaral

Minha irmã caçula, mulher, violonista com mestrado pela UFG e um dissertação incrível sobre mulheres compositoras para violão. Desde ontem Mayara Amaral também é vítima de uma violência que parece cada vez mais banal na nossa sociedade. Crime de ódio contra as mulheres, contra um gênero considerado frágil e, para alguns, inferior e digno de ter sua vida tirada apenas por ser jovem, talentosa, bonita… por ser mulher.

Mais uma vez a sociedade falhou e uma mulher, uma jovem professora de música de 27 anos, foi outra vítima da barbárie de homens que não podem nem serem considerados humanos. Foram três, três homens contra uma jovem mulher.

Um deles, Luis Alberto Bastos Barbosa, 29 anos, por quem ela estava cegamente apaixonada, atraiu-a para um motel, levando consigo um martelo na mochila. Lá, ele encontrou um de seus comparsas.

Continuar lendo

TEXTO-FIM

A presença colorida do feminismo negro

151112_orgulho-crespo-foto-por-larissa-Isis

Marcha do Orgulho Crespo, julho de 2015, São Paulo

Com rodas de samba, saraus, plenárias e manifestações, pretas costuram amplas alianças e, recordando Zumbi e Lélia Gonzalez, preparam-se para desaguar sua força em Brasília

Por Inês Castilho | Imagem: Larissa Isis

“Estamos em marcha!”

Com esse grito de guerra, milhares de mulheres negras brasileiras realizarão no dia 18 de novembro, em Brasília, a “Marcha das Mulheres Negras –e Contra o Racismo, a Violência e Pelo Bem Viver”.

Passados vinte anos do reconhecimento oficial de Zumbi, que originou a comemoração de 20 de novembro, e da morte de Lélia Gonzalez,  teórica pioneira do feminismo negro, as pretas retomam em 2015 a ação política nas ruas.

Com sua presença marcante, demandam o empoderamento político da mulher negra, o fim do machismo, do racismo e da discriminação racial, da lesbofobia, bifobia e transfobia, e do preconceito e discriminação de qualquer natureza. Colocam-se contra a intolerância religiosa, pelo respeito e preservação das religiões de matrizes africanas e pelo reconhecimento e preservação dos saberes materiais e imateriais da população negra (cultura, tecnologia, arquitetura, culinária etc.). E levantam-se em defesa da democracia no país. Continuar lendo

Enem, Educação, Hipocrisia

151107-Enem

Grita contra “feminismo” no exame revela: Brasil consagra Direitos Humanos em dezenas de pactos, mas rejeita-os na prática quando se trata de defender grupos vulneráveis

Por Mariana Vilella, Renata Ferraz e Vanessa Pinheiro

Em 25 de outubro, o Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM teve como tema de redação: “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Em uma tarde, milhões de jovens brasileiros viram-se instados a refletir e dissertar sobre esse tema, caro à sociedade, dados os alarmantes números da violência doméstica, sexual, psicológica, obstetrícia, dentre outras, que atingem a mulher brasileira. A escolha gerou polêmica.

Muitos mostraram-se contrários ao tema e, ainda, criticaram o MEC por conta de um viés feminista. A hashtag #enemfeminista foi criada e imensamente utilizada por defensores e críticos da prova.

O Enem foi ideológico? Foi de esquerda? Foi correto? As avaliações devem medir critérios como respeito aos direitos humanos ou capacidade de refletir sobre os problema políticos e sociais nacionais?

Continuar lendo

“Se elas quiserem, que comam em nossa mão”

150513-Gauguin

Breve ensaio sobre o machismo e os inseguros, que odeiam mulheres autônomas. Exceto se for para vê-las se beijando, e achar que é filminho pornô

Por Michel Yakini | Imagem: Paul Gauguin 

Eles são assim. Fazem de tudo pra que elas não descubram o segredo do horizonte. Eles têm medo. Sabem que lá tem mel jorrando das pedras e não querem dividir essa com ninguém.

Comem até se empanturrar e ficar molenga. Quando elas cruzam esse caminho, eles ficam olhando de rabo de olho, cochichando, maquinando como controlar os passos. Se elas quiserem, que comam na palma da mão deles. Vejam só! Eles são assim. Continuar lendo

Aborto: o novo recuo de Dilma

10402524_631125513623588_4741213959805701144_n
Pressionado por bancadas fundamentalistas, governo revoga até portaria que autorizava SUS a atender mulheres com direito legal a interromper gravidez

Pelas Blogueiras Feministas

No dia 21 de maio, o Ministério da Saúde publicou a Portaria n° 415/14 que regulamentava a prática da interrupção da gestação/antecipação terapêutica do parto; ou seja, regulamentava e determinava os procedimentos a serem realizados pelo SUS nos casos em que o Código Penal e o STF já excluíam o caráter criminoso da prática do “aborto” — e que portanto não são assim denominados: gravidez decorrente de estupro, risco de vida para a mãe e gravidez de feto anencéfalo.

Na ocasião, as notícias vinham com aquele veneno moralista/eleitoreiro/oportunista: “Governo oficializa aborto e paga R$ 443 pelo SUS”.

Continuar lendo

Dia internacional pelo fim da violência contra a mulher: como enfrentá-la no Brasil?

NXG19VIOLENCE1_13035f-e1385397202850

Onde se concentra maior foco de problemas e quais suas consequências para a sociedade. O que mostram os dados pós-Maria da Penha

Por Cauê Seignemartin Ameni

O Dia Internacional pelo Fim da Violência Contra a Mulher, 25 de novembro, foi instituído em 1999 pela Organização das Nações Unidas (ONU). A data marca o brutal assassinato das irmãs Mirabal – Pátria, Minerva e Maria Teresa – pela ditadura Trujillo, na República Dominicana, em razão de sua luta contra os problemas sociais de seu país.

Já em 1993 a Assembleia Geral da ONU aprovara a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher, definida como “todo ato de violência baseado em gênero que tem como resultado possível ou real um dano físico, sexual ou psicológico, inclusive as ameaças, a coerção ou a proibição arbitrária da liberdade, ocorra ela na rua ou em casa”. Outros tipos de violência, como o tráfico de mulheres, cruzam as fronteiras nacionais para alimentar a exploração sexual em diferentes países. Além das mulheres, as crianças são as mais atingidas. Continuar lendo

Religiões: quando o cristianismo é pura intolerância

130724-inquisicao

Extremistas católicos e evangélicos querem agora vetar lei que regulamenta atendimento do SUS às vítimas de estupro. Decisão está com Dilma

Por Gabriela Leite

Certas leis podem, no máximo, reduzir danos. É o caso de um texto aprovado no último dia 11, no Congresso Nacional. Proposto no século passado (em 1999) pela deputada Iara Bernardi (PT-SP), ele estabelece as normas para atendimento, no Sistema Único de Saúde, das mulheres que foram vítimas de estupro. É um problema sabidamente grave, mas crescente. O número de casos deste crime no Brasil aumentou muito nos últimos anos. Só no primeiro semestre de 2013, a média na cidade de São Paulo foi de nove denúncias por dia. No Rio de Janeiro, os casos aumentaram 56% nos últimos quatro anos. Nestas situações, como os médicos da rede pública devem proceder? Continuar lendo

Ataques com ácido: outra face do machismo na Índia

 

130722-Preeti

Preeti Rathi, que morreu depois de atacada numa estação de trem, em Mumbai

O velho ciúme, e o novo papel das mulheres no país, estão por trás das agressões

 

Na Índia, alguns homens vingam-se de desilusões amorosas agredindo mulheres com produto vendido sem restrições. Compram, por centavos de dólar, frascos do produto, vendido sem controle. Usam-nos com arma letal, barata e fácil de transportar, disparada sem estampido. Em junho, morreu em Mumbai, depois de um mês hospitalizada, a estudante de Medicina Preet Rathi (na foto), agredida numa plataforma de trem em Mumbai. O criminoso atirou-lhe um frasco de ácido e fugiu. O produto corroeu, além da pele, diversos órgãos internos.

São dezenas de casos relatados ao ano, e um número muito menor permanece oculto, segundo a Campanha e Luta contra os Ataques com Ácido a Mulheres. O problema assumiu proporções tão graves que Corte Suprema anunciou, em 9 de julho, que banirá por o comércio de ácidos sulfúrico e clorídrico, caso o governo e o Parlamento não regulamentem de imediato sua venda.

Continuar lendo

Escravidão sexual chega a Belo Monte

 

Boate Xingu: dali, garotas podiam sair uma vez por semana, por uma hora, sempre sob vigilância

Boate Xingu: dali, garotas podiam sair uma vez por semana, por uma hora, sempre sob vigilância

Meninas foram atraídas no Sul, para “ganhar R$14 mil mensais” na grande obra. Viviam trancadas em cubículos sem janelas

Por Inês Castilho

Que junto a uma grande obra sempre brotará um prostíbulo, não é novidade. É uma questão de mercado, dirão. Toda grande concentração masculina, seja de peões, políticos ou empresários, atrai serviços sexuais femininos. De fato. Mas a denúncia trazida a público pela jornalista Verena Glass, da Repórter Brasil, vai além disso. Relata “escravas sexuais” trabalhando em boate dentro de um dos canteiros de obras da hidrelétrica de Belo Monte – uma obra de responsabilidade do governo brasileiro. Continuar lendo

Mulher navio negreiro?

25 de setembro é Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher, data estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1999

Ela e Ele 

Antes, play aqui.

A diferença dessa história com tantas outras é que para mim ela tem um rosto. Um rosto esquálido, cabelos curtinhos e uma risada sonora, um He-he-he em pulinhos, sincopados. E que demorou para sair e terminou brevemente.

Essa história tem rostos, mas não tem nomes, por pedido dos familiares.

Ela – sim, aqui ela passa a se chamar Ela, uma possível vítima-síntese da violência de gênero – se casou com Ele – possível agressor-síntese – aos 22 anos e tiveram cinco filhos. (Essa dualidade, Ela & Ele, agressor versus vítima, não deve ser lida aqui como mero apontamento jurídico que permeia esse debate; muito menos um discurso de vitimização ou não-sujeito; claro, o buraco é mais embaixo).

Continuar lendo