Europa: a curiosa exceção portuguesa

Antonio Costa (à direita), primeiro ministro português, recebe Benoit Hamon, candidato à presidência da França. Os "socialistas" franceses aprenderão algo?

Antonio Costa (à direita), primeiro ministro português, recebe Benoit Hamon, candidato à presidência da França. Os “socialistas” franceses aprenderão algo?

Um governo à esquerda rejeita as políticas de “austeridade”, amplia seu apoio popular e atrai a atenção dos Partidos “Socialistas” da França e Alemanha. Por que?

Dois pesos pesados da família europeia de partidos “socialistas” prestaram, nos últimos dias, homenagens ao PS português a ao primeiro ministro do país, Antonio Costa. Primeiro, foi a vez do francês Benoit Hamon, que disputará em abril a presidência de seu país. “Fazer minha primeira viagem política a Lisboa foi uma decisão política”, disse ele: “é um país governado pela esquerda, apoiado por uma frente de esquerda, e que abandonou as políticas de ‘austeridade'”. Dias depois, Hamon foi seguido pelo alemão Martin Schulz, que liderará o Partido Social Democrata (SPD) nas eleições parlamentares para formar novo governo, em setembro. Costa é “um excelente amigo”, afirmou, sugerindo que considera a experiência portuguesa uma eventual alternativa à “grande coalizão” que o SPD forma hoje com os conservadores de Angela Merkel. É instrutivo examinar as causas do charme português.

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TEXTO-FIM

O drama dos refugiados, segundo Zygmunt Bauman

Para o filósofo, europeus chocam-se porque temem estar, no futuro, na mesma condição dos que chegam às suas praias

Vale muito a pena assistir (e, quem sabe, traduzir), uma animação recém-produzida pela Al Jazeera. Com texto (e voz) do filósofo polonês Zygmunt Bauman, o filme (republicado acima) destaca um aspecto especial do drama dos refugiados do Oriente Médio, que estão chegando em ondas sucessivas à Europa.

Bauman destaca a incerteza, situação em que vivem contingentes cada vez maiores de europeus, acossados pelo desemprego e precariedade. Eles miram os refugiados e constatam que, dessa vez, já não se trata de pessoas que se acostumaram à fome e ao desabrigo. Não: quem bate à porta agora é gente que tinha casa, emprego, formação, família — e que foi subitamente desprovida destas condições.

Num mundo cada vez mais inseguro, nota o filósofo, os europeus se reconhecem nos desabrigados — e isso amplia ainda mais sua sensação de desamparo. Não há saídas imediatas, diz Bauman. Mas um ótimo começo será o possível acolhimento e reconhecimento mútuos. Se a sombra da precariedade é comum, a busca de soluções humanizantes e transformadoras também pode ser…

E se a União Europeia perder a Inglaterra?

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Faltando sete semanas para plebiscito crucial, há um quebra-cabeças a resolver: Londres quer “exceções” que nem a Alemanha, nem os países do Leste, parecem dispostos a aceitar

Marcado para 23 de junho próximo, o referendo em que os eleitores do Reino Unido decidirão permanecer na União Europeia (UE) ou abandoná-la, tem importância global. A eventual deserção britânica enfraquecerá gravemente o bloco econômico mais rico do planeta e terá consequências políticas e simbólicas profundas. A UE expressou, no passado, o ideal de uma Europa menos desigual e não-beligerante. Com o passar do tempo, passou a ser vista como uma estrutura burocrática, de dirigentes não submetidos aos votos, que assumem papeis e poderes antes concentrados nos Estados nacionais e tornam impotentes os governos e instituições eleitos democraticamente. Qual será seu futuro, após 23/6?

Um artigo de Bernad Cassen, publicado pelo Le Monde Diplomatique francês, ajuda a enxergar o quebra-cabeças britânico. Eis suas peças principais:

> A disputa está extremamente incerta e será resolvida por margem estreita (veja o gráfico acima, no qual permanecer é representado pela curva verde, sair é a vermelha e indecisos são os azuis);

> Em tal ambiente, pode ser decisiva a posição do primeiro-ministro conservador Deavid Cameron. Ele foi eleito, por larga margem, para um novo mandato no ano passado. Só pode fazê-lo, porém, porque comprometeu-se com o plebiscito sobre a eventual retirada da Grã-Bretanha (Brexit). Convocou a consulta o mais cedo que pôde, por temer que o tempo jogue a favor da saída.

> Cameron ainda não definiu sua posição. Mantém negociações intermináveis com os demais governantes europeus; Busca obter deles exceções que lhe permitam defender, junto ao eleitorado conservador, a permanência do bloco. As duas principais são: a) aumento da soberania relativa dos Estados nacionais, diante da UE, na definição das politicas internas; e b) direito de legislar sobre imigrantes, restringindo o ingresso inclusive daqueles proveniente de países europeus.

> Estas exigências chocam-se contra dois interesses poderosos: a) os da Alemanha, altamente interessada em impor, aos demais membros do bloco, as políticas de ataque aos direitos sociais (“austeridade”) que vitimam, por exemplo, a Grécia; de todos os governantes do Leste Europeu. Eles não teriam condições de defender, junto a suas populações, a permanência numa Europa que restringe a circulação, o trabalho e a busca de oportunidades por parte de seus habitantes mais pobres.

Em meio aos dilemas, Bernard Cassen avalia que Cameron hesita demais e enerva seus parceiros de UE. Esta vacilação pode corroer tanto as chances de evitar o Brexit quanto a própria sobrevivência política do primeiro-ministro.

Os bancos tentam humilhar a Grécia de novo

O primeiro-ministro Tsipras, de quem os credores esperam uma nova humilhação

O primeiro-ministro Tsipras, que os credores querem ver rendido mais uma vez

Menos de um ano após a primeira capitulação de Atenas, outro ultimato: a aristocracia financeira nunca está saciada

Um novo terremoto financeiro, com epicentro em Atenas, pode dar-se em algumas semanas. No final do mês passado, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, rejeitou um pedido do primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, para convocar um encontro de urgência dos governantes da União Europeia (UE). Além disso, ele advertiu que a eventual incapacidade dos gregos em saldar uma parcela da dívida que vence em julho poderá deflagrar novas sanções contra o país.

As pressões são um novo sinal de que são inúteis as concessões à poderosa minoria de bancos e mega-empresas que controlam os mercados financeiros do mundo. Em julho último, o governo de Tsipras, ligado ao partido de esquerda Syriza, contrariou um plebiscito e aceitou firmar, com a União Europeia e FMI, um acordo tenebroso. Em troca de um empréstimo de 86 bilhões de euros — todo ele destinado a pagar os próprios banqueiros –, Atenas aceitou reduzir direitos sociais e elevar impostos regressivos, que incidem sobre o consumo.

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Um punho erguido contra os názis

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No gesto solitário de Tess Asplund diante da marcha nazista na Suécia, mais um sinal do novo protagonismo das mulheres e negras

Por Antonio Martins

Assim como o vídeo da garota brasileira que desafia o Coronel Telhada, na Assembleia Legislativa (ocupada!) de São Paulo, a imagem de Tess Asplund, acima, viralizou — em especial nos países nórdicos. No 1º de maio ao deparar, na cidade de Borländ, com uma marcha do partido neonazista Movimento de Resistência Nórdica (NRM), ela postou seu corpo negro e magro diante de trezentos homens uniformizados, ergueu o punho esquerdo, manteve o olhar muito altivo e os encarou. Escapou ilesa.

Hoje, o Guardian londrino a entrevista. Tess, que tem 42 anos e se define como afro-sueca e integra a organização Afrophobia Focus, em defesa de imigrantes negros, conta que agiu por impulso. Pensou: “estes nazistas não podem desfilar impunemente aqui”. Agora, sente-se dividida. Tem algum medo, é claro. Mas diz: “Espero que algo positivo surja da foto. Talvez o que eu fiz possa ser um símbolo de que qualquer um pode fazer algo contra a xenofobia”.

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Aquecimento global: de que lado está a Europa?

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Documento vazado revela: Velho Continente quer bloquear transferência de tecnologias verdes aos países pobres e manter práticas de comércio que elevam emissões de carbono

Por Antonio Martins

Os governos europeus, que frequentemente alardeiam compromisso com o ambiente, estão dispostos a levar esta responsabilidade à prática, quando ela contraria lucros de suas corporações?

Um documento vazado pela organização britânica War on Want e pelo jornal londrino Independent, acaba de demonstrar que não. Os delegados do Velho Continente que participam da Cúpula do Clima, em Paris, estão sendo explicitamente orientados a bloquear duas medidas essenciais à luta contra a mudança climática.

A primeira é a transferência de tecnologias limpas aos países menos desenvolvidos. Ela é decisiva porque, sem acesso à inovação, nações empobrecidas serão obrigadas a ampliar o uso de fontes energéticas como petróleo e carvão, ou de processos de produção obsoletos e poluentes. Mas o documento de orientação aos delegados europeus é explícito. Pede resistir a medidas que afetem direitos de “propriedade intelectual” detidos por corporações europeias. Ou seja, os ganhos com a venda de conhecimento não podem ser tocados, ainda que o preço seja uma ameaça ao planeta. Continuar lendo

Cinco filmes sobre o fim da II Guerra Mundial

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Há exatos setenta anos, terminava o conflico que marcou a derrota do nazismo e mudou a história do século XX. Nossa seleção de documentários e ficções propõe uma visão não-hollywoodiana do confronto

Neste 8 de Maio, comemoram-se, na Europa e EUA, setenta anos do fim da II Guerra Mundial. Já os russos apontam o fim da guerra em 9 de maio. Não existe um consenso quanto à data exata. Na verdade a rendição das forças remanescentes do III Reich aos aliados ocidentais se deu dia 8 de Maio, e ao Exército Vermelho na madrugada do dia seguinte 9 de Maio. Findava-se o pesadelo nazista. Hoje poucos se lembram do papel fundamental que a antiga União Soviética jogou no episódio. Muitos atribuem a vitória aos EUA e a relacionam a episódios menores, porém intensamente dramatizados por Hollywood — como o “Dia D”. Nossa seleção de filmes é mais heterodoxa. Conheça a seguir cinco grandes obras cinematográficas sobre um confronto que mudou a História. Veja também, em outro post, os posters soviéticos. Na foto, cena que marca a contra-ofensiva anti-nazista na Batalha de Stalingrado, a mais importante da guerra

A Queda: As Últimas Horas de Hitler
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Nipsters: o nazismo usa máscaras na Alemanha

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Ao invés de rechaçar cultura pop, neonazis tentam apropriar-se dela. Consomem como “hipsters”, vestem-se de negro e… agridem violentamente um número cada vez maior de imigrantes

Cauê Seignemartin Ameni

O atual movimento neonazista alemão vem buscando novos recrutas na subcultura dos jovens com barbas, sacolas de pano, óculos antigos e faixas com slogans nazistas. Ao se deparar com o número cada vez maior dos chamados hipster em manifestações anti-imigrantes organizadas pela extrema-direita, a mídia local apelidou-os de “nipsters”, relata longa reportagem de Thomas Rogers para revista Rolling Stones.

Assim como a propaganda foi essencial ao regime do Terceiro Reich, as redes sociais têm sido a principal plataforma do movimento. Os jovens usam intensamente o YouTube, Tumblr, Instagram e outras redes sociais para ganhar mais apoio na Alemanha, disse à revista Patrick Schroeder, um dos líderes do movimento no nordeste da Bavária, onde pretende dar um rosto social e político mais descolado à extrema-direita alemã.

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Ucrânia: o fantasma de um país dividido

Enquanto pessoas comemoram o resultado do referendo na Praça Lênin, em Simferopol, capital da Crimeia, Washington e seus aliados condenam realização de referendo na Crimeia

Enquanto população comemora resultado do referendo na Crimeia, Washington e aliados condenam consulta

Após referendo na Crimeia, seis cidades querem decidir seu futuro. Embora ameacem com sanções, EUA consideram, nos bastidores, solução conciliadora

Por Cauê Seignermartin Ameni

A Crimeia, pequena região ucraniana, polarizou o debate político nas últimas semanas. Fragmentou o país, colocando nacionalistas pró-ocidente de um lado, federalistas pró-Rússia de outro, desestabilizando a mais recente empreitada ocidental no leste europeu.

Ao contrário do que dizem muitos “analistas”, não foi apenas a maioria russa na Crimeia que votou pela incorporação a Moscou. Dos eleitores, 83,10% foram às urnas. Entre estes, 96,77% votaram a favor da Crimeia unir-se à Russia, enquanto 2,51% foram contra e 0,72% dos votos foram anulados. A formação étnica na Crimeia, segundo o censo de 2001 revela que 58,32% são russos, 24,32% ucranianos e 12,10% tártaros. Uma matemática simples demonstra que também ucranianos e tártaros posicionaram-se majoritariamente a favor do novo status para a região. Continuar lendo

Rumo a uma nova crise financeira?

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Dois textos sugerem: eleições brasileiras de 2014 poderão ocorrer em meio a graves turbulências; e medidas adotadas até agora pelo governo tornam país mais vulnerável

Por Antonio Martins

Num artigo recente, sobre as mobilizações de junho e suas consequências eleitorais em 2014, o cientista político André Singer sugere: o pleito será definido, fundamentalmente, pelo estado da Economia no próximo ano e pelo debate sobre seu futuro. Mas de que dependerá a situação econômica?

Dois textos recentes e importantes sugerem que novas turbulências econômicas, potencialmente devastadoras, estão se armando nos circuitos financeiros internacionais. Elas poderiam ter repercussões graves no Brasil e exigiriam do governo, provavelmente, políticas muito mais ativas que as praticadas hoje. Vale a pena examiná-los. Continuar lendo