A ambiguidade de Safatle e a do Brasil

O artigo mais recente do filósofo pode sugerir tanto derrotismo quanto apelo à rebeldia e mobilização. É, nesse sentido, um espelho do cenário brasileiro

Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

“Não haverá 2018”, escreveu no final da semana passada, num artigo na Folha de S. Paulo, o filósofo e psicanalista Vladimir Safatle. A sentença repercutiu intensamente, em meio a uma atmosfera política já marcada pelo pessimismo. Mas a leitura cuidadosa do texto mostra que ele permite duas interpretações muito distintas – e até mesmo contraditórias – entre si.

A primeira interpretação é a mais óbvia e – é pena – a que tem sido mais frequentemente adotada. Ela conduz ao derrotismo, à desmobilização. Sugere que sofreremos uma enorme derrota política em breve e não há o que fazer diante dela – “não haverá 2018”. Os golpistas não quebrariam a legalidade, nem adotariam sua vasta agenda de retrocessos, argumenta Safatle, para entregar o poder de mão beijada. O golpe e seus horrores se prolongarão. A luta tornou-se vã. Continuar lendo

TEXTO-FIM

Um caminho para a esquerda autêntica

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Nos EUA, nova arrancada de Bernie Sanders revela: é possível vencer preconceitos da mídia — desde que se apresente propostas concretas, em vez de discurso doutrinário

Por Cauê Seignemartin Ameni

Diminui a cada dia, nos EUA, a distância que separava a candidata oligárquica do Partido Democrata à Casa Branca, Hillary Clinton, do outsider à sua esquerda, o senador Bernie Sanders. O próprio New York Times reconhece: em um mês, Hillary viu sua vantagem de 20 pontos percentuais, entre os membros do partido aptos a votar nas eleições primárias, derreter para 7 pontos. Outras sondagens já mostram uma virada na primárias de dois estados importantes. Em Iowa, onde começa a disputa (em 1º/2) e New Hampshire (9/2), Sanders está à frente com 5 pontos de vantagem. Sua liderança concentra-se entre os candidatos mais jovens, onde tem o dobro de preferência. Quais as razões? A esquerda brasileira teria algo a aprender com elas?

A primeira grande barreira que Sanders parece saber enfrentar é a do preconceito. Para frear o ascensão do candidato, seus adversários apostam no desgaste da palavra que o senador emprega para definir a si mesmo: “socialista”. Contudo, Sanders não se presta ao papel de espantalho, analisa Robert Reich, professor de Políticas Públicas da Universidade de Berkeley e ex-ministro do Trabalho (no governo de Bill Clinton). Segundo ele, as pessoas começaram a entender que o senador não é o socialista retratado nas caricaturas da Fox News, mas alguém capaz de tratar a aristocracia financeira com a dureza necessária. Continuar lendo

Aécio e uma curiosa forma de cinismo aristocrático

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Como candidato sintetizou, numa frase, um interessante estratagema das elites. Implica fingir desapego ao dinheiro — mas cuidar para que toda a estrutura de desigualdade e privilégios se mantenha… 

Por Leonardo Gomes Nogueira, editor de Supressão dos Costumes Selvagens | Imagem: George GroszOs Pilares da Sociedade (1926)

Aécio Neves diz, com orgulho, que quando foi governador de Minas Gerais teria aberto mão de metade do seu salário. “Eu precisava dar o exemplo”, diz o candidato. Não vou entrar no mérito se isso é verdade ou não. A questão não é essa. A questão é avaliar o que estaria por trás desse discurso, aparentemente, nobre.

O que o candidato está querendo dizer, nas entrelinhas, é o seguinte: se você fosse uma pessoa de bem, desapegada como eu sou, faria o mesmo. Ou ainda: o salário não é tão importante assim, gente! Esqueçam isso! O uso da palavra “exemplo” não é por acaso.

Aécio pode abrir mão da metade ou até integralmente do seu salário. Não tenho dúvida de que ele possa fazê-lo. Pois Aécio, mais do que uma pessoa de bem, é uma pessoa de bens. Ele não depende, nem nunca dependeu de salário pra pagar as suas contas. Ele, como se sabe, é um herdeiro. Continuar lendo

Eleições em cenário de impasse do lulismo

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Afastada hipótese populista de Marina Silva, país debate-se entre um projeto que foi bem-sucedido — mas que estancou e precisa requalificar-se — e tentativa de rearticulação das elites

Por Felipe Amin Filomeno | Imagem: Michelangelo CaravaggioO Trapaceiro

Ainda é difícil prever quem será o próximo presidente do Brasil. Entretanto, o que já se pode afirmar é que, ao final do primeiro turno das eleições presidenciais, a democracia brasileira sai fortalecida. O principal indicador disto é a derrota de Marina Silva.

Durante o governo Lula, uma combinação de condições mundiais favoráveis e de políticas nacionais de cunho neodesenvolvimentista e social-democrata gerou um novo ciclo de desenvolvimento econômico e social. Diante da crise mundial iniciada em 2008, o governo petista agiu de maneira criativa, utilizando políticas heterodoxas para proteger o país da recessão. A economia no país reagiu e teve um desempenho extraordinário em 2010. Na transição para o governo Dilma, o ciclo de desenvolvimento lulista começou a mostrar sinais de esgotamento, tanto em suas condições mundiais (agravadas com a persistência da crise), quanto em suas condições domésticas (com os ajustamentos apenas contingenciais e incrementais nas políticas públicas). As novas demandas do cidadão brasileiro, que surgiram daquele ciclo de desenvolvimento e foram manifestadas nos protestos em massa de 2013, passaram a ser atendidas apenas marginalmente. Não se trata do cenário de caos que a grande mídia tenta construir, mas sim de uma malaise com as instituições políticas numa situação em que para cada indicador positivo divulgado, outro negativo aparece no dia seguinte. Continuar lendo

Venezuela: vitória apertada e futuro a definir

Ao conferir às eleições municipais caráter plebiscitário, oposição deu tiro no pé. Mas chavismo tem enormes desafios à frente

Por Vinicius Gomes

Quinze anos após a ascensão de Hugo Chávez, a oposição conservadora venezuelana viu, nas eleições municipais do último fim de semana, a chance de ouro para iniciar uma volta ao poder. A economia enfrenta problemas graves: inflação superior a 50% ao ano, produção estagnada e falta de gêneros básicos nos supermercados. Por isso, Henrique Capriles, governador do estado de Miranda e principal referência no combate ao “chavismo”, previu um “nocaute” contra os apoiadores do atual presidente, Nicolas Maduro.

Foi traído pelas palavras. Abertas as urnas, três grandes evidências tornaram-se nítidas. A mais incômoda, para a oposição é: a maioria conquistada por Maduro e seus seguidores ampliou-se ligeiramente, em relação ao pleito presidencial realizado há oito meses. Em abril, poucas semanas após a morte de Chávez, o atual presidente chegou ao governo com magros 235 mil votos (1,59%) de vantagem sobre Capriles, então seu oponente. Ao contrário do que esperava a oposição, a distância, agora alargou-se para mais 6,5 pontos percentuais. O Partido Sociallista Unificado da Venezuela (PSUV), no governo, conqusitou 49,24% dos votos contra 42,72% da Mesa de Unidade Democrática (MUD) da oposição. O resultado fortalece a figura de Maduro, desmentindo os que o viam como mera sombra de Chávez. Continuar lendo

No Cairo, a revolução não vai às urnas

Nos cartazes, Abdel Abolfotoh, um dos candidatos islâmicos com chances na disputa

Jovens rebeldes que derrubaram Mubarak em 2011 têm pouca incidência nas eleições para presidente — polarizadas por um ex-ministro da ditadura e dois candidatos islâmicos

Nenhum país é tão crucial, para o futuro, para o futuro da Primavera Árabe, quanto o Egito. São 70 milhões de habitantes, enorme influência no Oriente Médio, duas grandes revoluções em meio século. Ao mesmo tempo, exército forte e articulado, polícia e paramilitares rudes e violentos, laços especiais com Estados Unidos e Israel. Por isso mesmo, em nenhuma parte do mundo árabe houve tantas reviravoltas, desde que a ditadura foi deposta, em fevereiro do ano passado. Na derrocada do regime, e num surto insurrecional posterior, em outubro, saiu vitoriosa a juventude articulada em redes, que transformou a Praça Tahrir num grande experimento de invenção democrática. Nas disputas institucionais por meio das quais vai se constituindo um novo poder, prevalecem ou os militares (que souberem livrar-se do ditador), ou os partidos islâmicos. É o que volta a se desenhar às vésperas das eleições presidenciais, marcadas para 23 e 24 de maio, com provável segundo turno em junho.

Três candidatos parecem ter, a vinte dias da escolha, chances de chegar ao segundo turno: Amr Moussa, um ex-ministro do Exterior e secretário-geral da Liga Árabe; Abdel Abolfotoh, um antigo militante da Irmandade Muçulmana, perseguido pelo regime de Mubarak e rompido com o grupo islâmico há cerca de um ano, sem no entanto confrontar-se com ele; e Mohammed Morsi, o postulante oficial da Irmandade, maior força política egípcia, com quase 50% das cadeiras no Parlamento e na Assembleia Constituinte. Continuar lendo

Na França, Mélenchon consolida um novo discurso de esquerda


Discours de Jean-Luc Mélenchon place du Capitole por PlaceauPeuple

Ao invés da crítica genérica ao capitalismo, propostas concretas sobre democracia direta, radicalização da economia solidária e novas instituições internacionais

A menos de duas semanas das eleições presidenciais francesas (primeiro turno em 22/4), o candidato da Frente de Esquerda, Jean Luc Mélenchon, mantém tendência a crescimento nas pesquisas (com 15% dos votos, na média das sondagens), parece firme no terceiro posto (ultrapassando Marine Le Pen, da extrema direita, e François Bayrou, de centro) e continua a realizar as maiores manifestações da campanha (reuniu 70 mil pessoas em Toulouse, na quinta-feira, e prepara um ato de igual força, em Marselha).

Tão surpreendente quanto este desempenho (revertendo anos de declínio da esquerda institucional), porém, é o discurso que o candidato parece consolidar a cada novo comício. A fala de Toulouse, por exemplo (vídeo acima e íntegra, em português, ao final do post), merece ser examinada com atenção. Mélenchon não se limita à mera denúncia dos males do capitalismo (o que é comum nas correntes à esquerda do Partido Socialista francês) nem pretende se diferenciar apenas por suas propostas táticas.

Sua principal proposta é a refundação da República, por meio de uma Assembleia Constituinte. Nesta, a sociedade definiria as “regras de vida comum” necessárias para fazer frente ao conjunto de crises que o planeta atravessa. Para evitar que a ideia seja qualificada como devaneio, o próprio Mélenchon reconhece que ela não faz parte da agenda política atual. Mas lembra que a inovação política faz parte, há séculos, da história e das tradições da França…

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A Frente de Esquerda avança de novo na França

Jean-Luc Mélenchon reúne 15 mil em Lille, e sonha em chegar ao 2º turno. Discurso combina exigência de reforma política profunda com tentativa de evitar “voto útil”

Por Antonio Martins


Sobre o tema: Leia nossa análise sobre a “maré vermelha” nas eleições francesas.

“O rio deixou seu leito. E onde quer que ele chegue, não voltará tão cedo”. Jean-Luc Mélenchon, o candidato da Frente de Esquerda à presidência da França, parece ter descoberto que pode continuar crescendo nas pesquisas de intenção de voto se mobilizar os sentimentos de justiça social, igualdade e reforma política profunda. Ontem (27/3), dez dias depois de realizar em Paris o maior comício da campanha, ele reuniu em Lille cerca de 15 mil pessoas — um público extraordinário para uma cidade média e uma era em que se prega o domínio do marketing sobre a mobilização social. Até as eleições (22/4), pretende realizar dois outros grandes atos de massa: em Toulouse e Marselha. Agora, todas as pesquisas de intenção de voto recentes o colocam em terceiro lugar, e em rápida ascensão.

Duas características parecem marcar seu discurso. Primeiro, ele afirma claramente que seu governo será de ruptura — democrática e solidária. Para tanto, acalenta a ideia de uma 6ª república, uma vasta reforma que incluiria a desmercantilização dos serviços públicos (como a eletricidade e o gás), a garantia das liberdades individuais (direito ao aborto e ao suicídio assistido) e a reforma da política institucional (com formas de democracia direta, revogabilidade dos mandatos e redução do poder presidencial “cesarista”). Para mudanças de tal profundidade, propõe, é preciso convocar uma Assembleia Constituinte.

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Tunísia: a hora das grandes escolhas

Nove meses depois de deflagrar “Primavera Árabe”, país elege Constituinte com votação maciça, inovações democráticas surpreendentes e uma incógnita: a posição do partido islâmico moderado 

Após ter derrubado o ditador Zine Abdine Ben Ali, em janeiro de 2011, a Tunísia realizou neste domingo (23/10) as primeiras eleições livres de sua história. Também foi a primeira vez, desde os anos 1950, que um país árabe convoca sua população às urnas para escolher democraticamente seus representantes. Em alguns meses, ocorrerão eleições no Egito. A Primavera Árabe, que despertou a atenção do mundo na virada do ano e inspirou movimentos que condenam o esvaziamento da democracia no Ocidente, parece caminhar para uma fase de reassentamentos. Dois textos publicados hoje em Outras Palavras ajudam examinar a fundo este processo.

Na Tunísia, parece haver tendências contraditórias. De um lado, a própria natureza das eleições revela: a mobilização popular pode ampliar os limites da democracia, evitando que se reduza a um exercício formal, em que os cidadãos podem escolher nomes, mas não alternativas. As principais inovações estão descritas numa ampla reportagem de Serge Halimi, editor do Le Monde Diplomatique francês. Superada a ditadura, teve início um movimento febril de organização política. Há ampla liberdade para os partidos, mas o pleito não se restringiu a eles. As novas leis permitiram que os cidadãos se articulassem em listas eleitorais e concorressem. Estabeleceu-se, além disso, uma exigência, notável para um país islâmico. As listas tinham de reunir igual número de homens e mulheres (o machismo, arraigado na sociedade, fez com que 95% dos candidatos que encabeçam de listas, e por isso têm mais chances de se eleger, sejam do sexo masculino.   Estabeleceu-se controle rigoroso sobre os gastos em campanha, para evitar que o poder econômico criasse grandes desigualdades no acesso aos eleitores.

Um segundo texto, do espanhol Santiago Alba Rico, revela o clima de mobilização que estas novidades despertaram domingo, em Tunis. Formaram-se imensas filas nas seções eleitorais. As ruas debatiam o futuro do país — em especial, a relação entre estado e religião e as alternativas, diante da crise social. O relato constata que já não há, nove meses depois, o mesmo clima que questionamento e ebulição permanentes que marcou a revolução. Mas não é pessimista: nada indica que o período de debate sobre a nova Constituição, que a princípio durará um ano, será de pasmaceira. Novas momentos de lutas sociais poderão eclodir.

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