Stiglitz: como evitar “a grande queda livre”

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Desempregados fazem fila para sopa, nos EUA, durante a depressão dos anos 1930. Para Siglitz, políticas hoje hegemônicas podem repetir tragédia de então, porque baseiam-se na mesma lógica elistista

Na virada do ano, Nobel de Economia adverte de novo sobre risco de colapso global semelhante ao dos anos 1930. Para escapar, diz, será preciso derrotar políticas como o “ajuste fiscal” brasileiro

Por Antonio Martins

No início de 2010, menos de dois anos após o início da crise econômica global que persiste até hoje, Joseph Stiglitz, Nobel da Economia, publicou O Mundo em Queda Livre (“Freefall”). Ao analisar as respostas políticas adotadas até então contra a crise, ele observou que elas ameaçavam conduzir o planeta a uma depressão semelhante à que foi aberta em 1929. O poder das elites financeiras estava levando os governos a adotar medidas que concentravam ainda mais a riqueza e desmantelavam, em favor da “liberdade dos mercados”, o poder de planejamento e regulação dos Estados. No entanto, tais ações conduziriam a uma redução geral da demanda por bens e serviços que terminaria por levar as economias ao colapso. Stiglitz chamou este fenômeno de “O Grande Mal-Estar” (“The Great Malaise”). Nesta virada de ano, ele acaba de reforçar o vaticínio, num artigo alarmante porém não desesperançado. “Os remédios estão à disposição”, diz. O que falta, ainda, é reunir força política para vencer a hegemonia da aristocracia financeira e implementá-los.

O Nobel de Economia alimenta seu fio de esperança de três fontes. A primeira é o espaço para ações que poderiam reorganizar as economias. Em todo o mundo, há imensas necessidades de infraestrutura há muito represadas. Pense na despoluição dos rios brasileiros, num programa de urbanização das periferias, na reconstrução de uma rede nacional de ferrovias. Estes projetos, sozinhos, seriam capazes de “absorver trilhões de dólares”, sustenta o artigo — e gerar centenas de milhões de ocupações de todos os tipos. Mas não são os únicos. Em toda parte, são urgentes mudanças econômicas estruturai. EUA e Europa precisam completar a transição, de sociedades industriais para sociedades de serviços. A China será obrigada a voltar sua imensa produção para o consumo local, e não mais para as exportações. América Latina e África devem reverter a tendência perigosíssima à reprimarização de suas economias.

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Crise global: a alternativa da China e o que ela diz ao Brasil

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Ao investir em infra-estrutura e serviços públicos, e estimular aumento expressivo dos salários, país sugere caminho oposto à “austeridade” europeia.

Por Antonio Martins

Ao escrever, na semana passada, sobre o sistema chinês de trens de alta velocidade, a correspondente do New York Times, Keith Bradsher, não escondeu sua admiração. Apenas cinco anos depois de inaugurada, relatou, a rede já tem quase dez mil quilômetros. Serve mais de cem cidades. O número de passageiros transportados — 54 milhões por mês — já é duas vezes maior que o de usuários dos aviões. As viagens são confortáveis, silenciosas, extremamente pontuais. O serviço atrai tanto executivos quanto operários. O preço das passagens não oscila ao sabor do mercado: políticas públicas definiram que elas deveriam custar, desde o início, no máximo metade das tarifas aéreas. Não sofreram reajustes, desde então. Como os salários industriais duplicaram, o serviço tornou-se cada vez mais popular. Os trens trafegam quase sem assentos vazios. Em Changsha, metrópole emergente no sudeste do país, de onde a repórter escreveu, a estação já tem 16 plataformas, e está sendo duplicada.

Keith não parecia preocupada com o debate de políticas macroeconômicas. Mas seu texto é uma excelente descrição das escolhas que têm permitido à China, há cinco anos, manter-se a salvo crise internacional e executar, de quebra, projetos estratégicos ousados. Vale examinar este movimento, por pelo menos dois motivos: a) ele contrasta com as políticas “de austeridade” que estão sendo adotadas em boa parte dos países ocidentais (especialmente na Europa), com consequências sociais desastrosas; b) ele demonstra que o Brasil não precisará adotar o caminho europeu, ao contrário do que sugerem, com frequência, os analistas conservadores.

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Rumo a uma nova crise financeira?

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Dois textos sugerem: eleições brasileiras de 2014 poderão ocorrer em meio a graves turbulências; e medidas adotadas até agora pelo governo tornam país mais vulnerável

Por Antonio Martins

Num artigo recente, sobre as mobilizações de junho e suas consequências eleitorais em 2014, o cientista político André Singer sugere: o pleito será definido, fundamentalmente, pelo estado da Economia no próximo ano e pelo debate sobre seu futuro. Mas de que dependerá a situação econômica?

Dois textos recentes e importantes sugerem que novas turbulências econômicas, potencialmente devastadoras, estão se armando nos circuitos financeiros internacionais. Elas poderiam ter repercussões graves no Brasil e exigiriam do governo, provavelmente, políticas muito mais ativas que as praticadas hoje. Vale a pena examiná-los. Continuar lendo

Chipre: que há por trás do silêncio da mídia

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Ensaio jornalístico de Roberto Savio revela quais as causas da crise; como oligarquia financeira impôs seus interesses; por que Alemanha pode ter conquistado vitória de Pirro

Por Antonio Martins

Vista pelos jornais comerciais, a crise financeira vivida por Chipre, nas duas últimas semanas, parece um fenômeno tão inesperado e imprevisível quanto a queda de um meteoro na Rússia, em fevereiro. Surgiu do nada; não podia ser evitada; causou um número importante de vítimas; mas não afetou, no fim das contas, a rotina do planeta: será esquecida em breve e não há lições a tirar de sua passagem. Fundador da Agência IPS, participante destacado do movimento por uma Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação, nos anos 1970 e 80, o jornalista ítalo-argentino Roberto Savio percebeu que esta imagem pretendia ocultar algo.

Mas não se limitou a vociferar contra os oligopólios da mídia: foi à luta. Dedicou três dias inteiros da semana passada a uma busca minuciosa de informações. Como ferramentas, usou sua compreensão dos mecanismos financeiros contemporâneos e os infinitos terabytes de informação caótica disponíveis na internet. Produziu um ensaio esclarecedor e alarmante, que Outras Palavras está traduzindo e publicará nos próximos dias. Vele a pena antecipar ao menos três de suas conclusões:

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Europa: ataque a direitos continua a aprofundar crise

Grécia avisa que será incapaz de cumprir metas fixadas pela “troika”. Portugal pode ser forçado a pedir novo “resgate”. Hipótese de Noam Chomsky sobre sentido da recessão parece ter base real

Enquanto a China sonda caminhos para reduzir a exposição de sua economia aos países ocidentais em crise, na Europa voltam a surgir sinais de que as políticas de ataque aos direitos sociais e serviços públicos mergulharão o continente em novas dificuldades. As más notícias dos últimos dias vêm de Grécia e Portugal.

Em Atenas, o primeiro-ministro conservador, Antonis Samaras, encontrou-se quarta-feira passada com o presidente do “eurogrupo” Jean-Claude, Trichet, e alertou que não será possível alcançar, no prazo previsto, a redução do déficit esperada pelos credores de seu país. Embora comprometido com as exigências da Alemanha e da chamada troika (União Europeia, FMI e Banco Central Europeu), Samaras propôs que estes aceitem postergar por ao menos dois anos as metas que exigem da Grécia. Além disso, advertiu os demais governantes europeus para que deixem de fazer “declarações tóxicas” sobre Atenas — lembrando que elas tornam ainda mais difícil vender, para a opinião pública grega, novas propostas de privatização de redução de direitos sociais. Continuar lendo

Roubini adverte: crise financeira pode levar a “tempestade” em 2013

Roubini recomenda não entregar nada às mãos dos “mercados”

Economista que primeiro previu terremoto nos mercados sustenta: evitar o desastre dependerá de decisões políticas

Por Antonio Martins

Aonde nos levará a crise financeira que persiste desde 2008, mantém paralisados os países “centrais” do sistema e ameaça, recorrentemente, alastrar-se pela “periferia”? O economista Nouriel Roubini concedeu há cerca de uma semana, à National Public Radio (NPR), dos EUA, entrevista em que aborda o assunto. Vale a pena ouvi-lo. Nascido em Istambul, mas fixado no Ocidente desde a adolescência Roubini é professor na Universidade de Nova York. Foi certamente o primeiro pesquisador a identificar, ainda em meados da década passada, que o estouro da bolha imobiliária norte-americana e a quebra das hipotecas de segunda linha (sub-prime) levariam a uma crise global.

No diálogo que travou agora, com a repórter Linda Wertheimer, ele levantou a hipótese de uma “tempestade perfeita” em 2013 — ou seja, um aprofundamento agudo das dificuldades atuais, capaz de se propagar inclusive pelas zonas que hoje encontram-se relativamente preservadas. Três fatos políticos suscitariam o fenômeno, segundo Roubini. São eles: a) uma ruptura desordenada do euro, eventualmente provocada pela insistência dos dirigentes europeus em impor medidas que destroem direitos sociais e reduzem a atividade econômica; b) um mergulho dos Estados Unidos em recessão,  se, ao final do ano, prevalecerem as propostas conservadoras, de um grande corte de despesas públicas; c) uma derrapagem da China, na transição que terá de fazer, passando de uma economia fortemente apoiada em exportações e grandes investimentos para uma ênfase muito maior no consumo interno.
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Xenofobia à moda grega

Afundado em dificuldades econômicas crescentes, governo de Atenas prende milhares de imigrantes africanos e asiáticos — e os mantém em condições desumanas

Pelo menos 6 mil pessoas foram detidas no final de semana em Atenas e nas principais cidades gregas, numa vasta operação policial que reforça os sinais de xenofobia crescente na Europa. Pelo menos 1.600 foram aprisionadas em condições precárias e deverão ser deportadas. Não são acusadas de crime algum — apenas serem estrangeiras sem documentos de permanência no país. Anunciada com alarde na TV, pelo ministro da Ordem Pública, Nikos Dendias, a operação teve nítido caráter racista, segundo denúncia da Anistia Internacional (AI): a polícia escolheu quem prender de acordo com a cor da pele.

As detenções em massa ocorrem em meio a crescentes dificuldades do governo. Ao contrário do que prometeu em campanha eleitoral, a coalizão de centro-direita que venceu as eleições em abril (ler “A Grécia revive uma vitória de Pirro“) não renegociou, as bases do programa de corte de direitos sociais imposto pela União Europeia. Um novo pacote de medidas deverá ser anunciado nos próximos dias. Prevê a demissão de mais 40 mil servidores públicos e uma ampla lista de privatizações.

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O Dragão pousa (de vez) na África

Os presidentes da África do Sul (Jacob Zuma) e China (Hu Jintao)

Em meio à crise mundial, China oferece US$ 20 bi em créditos aos africanos, consolida-se como maior parceiro comercial do continente e esnoba europeus e norte-americanos

Por Hugo Albuquerque

O presidente chinês, Hu Jintao, é o anfitrião da 5ª Conferência Ministerial do Fórum para Cooperação China-África (FOCAC na sigla em inglês), que começou quarta-feira (18/7) em Beijing. Já ao receber seus convidados, produziu um gesto bombástico: anunciou a abertura de uma linha de crédito de 20 bilhões de dólares, pelos próximos três anos, para os países africanos.

Os chineses, que inventaram os fogos de artifício e a pirotecnia, não os usam em arroubos grandiosos e vazios — mas apenas para marcar algo de importância estratégica. Com este gesto, não foi diferente. A quantia anunciada gira em torno de 1% do Produto Interno Bruto africano. É de fundamental importância, seja pelas circunstâncias da economia mundial (sobretudo, um mercado internacional de crédito extremamente instável), quanto pelo contexto no qual ele está inserido, que é de um intercâmbio não só comercial como geoestratégico entre ambas as partes. Continuar lendo

Como oligarquia financeira mantém Europa submissa

Ângela Merkel (Alemanha) e Nicolas Sarkozy (França), a dupla "Merkozy": imagem de um regime decadente

Estudo revela complexo mecanismo usado para impor, “democraticamente”, medidas condenadas por ampla maioria das sociedades

Na Europa, não faltam recursos financeiros contra a crise: Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia (CE) estão agindo desde a virada do ano para transferir, ao sistema bancário privado, cerca de 3 trilhões de euros, a juros negativos. A atitude é outra em relação aos Estados ameaçados por fuga maciça de divisas. Negam-se recursos. Exige-se, para liberá-los, corte de direitos sociais, privatizações, redução drástica das proteções previdenciárias. Tais medidas são rechaçadas, revelam as sondagens, pela vasta maioria da opinião pública, em todos os países. No entanto, os Parlamentos as adotam sem resistir. Como é possível esta democracia contra as sociedades?

Acaba de sair um texto revelador a respeito. O original, em francês, foi publicado no site Memoire des Lutes, dirigido por Ignacio Ramonet e Bernard Cassen O autor é Christophe Ventura, um jovem colaborador destes antigos editores do Le Monde Diplomatique. Ele descreve os meandros institucionais do processo de chantagem política que garantiu até agora a submissão do continente aos projetos da oligarquia financeira.

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Protestos: Europa volta às ruas contra oligarquia financeira

Manifestações na Grécia, Espanha, Bélgica e Portugal. União Europeia exige novos sacrifícios. Em Atenas, partidos no poder não querem eleições

A onda de grandes protestos sociais que percorreu boa parte da Europa em 2011 deu sinais de ressurgir nesta sexta-feira (10/2). Uma greve geral, que prossegue hoje, parou a Grécia e provocou os primeiros sinais de divisão no governo do primeiro-ministro não-eleito, Lucas Papademos. Centenas de participantes do movimento 15-M manifestaram-se na Puerta del Sol, em Madri, horas depois de o governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy anunciar um decreto-lei que facilita demissões e permite rebaixas de salários. Em Lisboa, as centrais sindicais convocaram uma grande marcha para esta tarde. Um curioso enfrentamento entre bombeiros (nas ruas) e policiais marcou a tarde de ontem em Bruxelas. Há algo em comum, entre todas as mobilizações. Elas enfrentam novas tentativas de cortar direitos sociais para preservar os interesses da oligarquia financeira –uma prática que na União Europeia (UE) parece não ter fim, a assume dimensões cada vez mais dramáticas.

O caso mais extremo é, mais uma vez, o da Grécia. Na manhã de sexta-feira, uma reunião extraordinária de governo, que durou cinco horas, terminou com o anúncio de um corte de 22% no salário mínimo, demissão de mais 15 mil servidores públicos e redução suplementar das aposentadorias.

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