Alternativas: e se energia for um Bem Comum?

Eletricidadade e combustíveis são vitais para atividade humana — mas produzi-los pode causar enormes impactos sociais e ambientais. Por isso, não podem continuar submetidos aos interesses do mercado

Como estender os benefícios e conforto oferecidos pela eletricidade a todos os seres humanos — inclusive a um bilhão de pessoas que não têm, hoje, acesso a uma lâmpada elétrica? Como evitar que, a pretexto de garantir este direito, mega-empresas, quase sempre financiadas por recursos públicos, desenvolvem imensos projetos que afetam a natureza e as populações locais?

A Assembleia Europeia dos Comuns (AEC), uma articulação da sociedade civil impulsionada pela Fundação Peer to Peer (saiba mais aqui) propõe uma resposta inovadora. Ela quer alterar o paradigma que orienta, hoje, tanto a produção de eletricidade e combustíveis quanto sua distribuição e suas receitas. Ao invés de subordinarem-se a interesses de mercado, estas atividades devem ser consideradas Bens Comuns da Humanidade. As decisões essenciais precisam ser transferidas das mega-empresas a comunidades organizadas.

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Nordeste: as lições da longa seca

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Sertanejo caminha pela vala incabada do canal da Transposição do S. Francisco. Grandes obras converteram-se em estorvo

Mudança climática parece ter chegado, mas falta de chuvas já não traz tragédia social: conceito de “convivência com o Semiárido” mostrou sua potência. Problema é o mito da “transposição”

Por Roberto Malvezzi (Gogó)

Nesses quase quarenta anos de sertão é a primeira vez que ficou um ano sem cair chuva no telhado de casa. A última chuva foi em Janeiro de 2016. No entorno da cidade, Juazeiro da Bahia, já choveu.

O problema básico não é que fica sem chover, mas chover muito menos. Os cientistas estão perplexos, porque a cada ano se fala que teremos chuvas normais, até acima da média, mas elas não vêm. Atribui-se sempre a razão ao fenômeno El Niño, que aquece as águas do Pacífico, elas caem abundantes no sul e sudeste do Brasil, mas não chegam ao coração do Semiárido. Continuar lendo

Uma oferenda para Iemanjá

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O mar não está pra peixe nestes tempos de morte de imigrantes, poluição, guerras, aquecimento global. Oferenda, para a rainha, é esperança num futuro sem medo

Por Marcelino Freire

Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo, esse breu. Peixes entulhados, assassinados. Minha Rainha.

Não são oferenda essas latas e caixas. Esses restos de navio. Baleias encalhadas. Pinguins tupiniquins, mortos e afins. Minha Rainha.

Não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de Coca. Essas flores de bosta. Não mijei na tua praia. Juro que não fui eu. Minha Rainha.

Oferenda não são os crioulos da Guiné. Os negros de Cuba. Na luta, cruzando a nado. Caçados e fisgados. Náufragos. Minha Rainha.

Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha.

Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo. Neste dia dois de fevereiro. Peço perdão. Minha Rainha.

Se a minha esperança é um grão de sal. Espuma de sabão. Nenhuma terra à vista. Neste oceano de medo. Nada. Minha Rainha.

Aquecimento global: de que lado está a Europa?

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Documento vazado revela: Velho Continente quer bloquear transferência de tecnologias verdes aos países pobres e manter práticas de comércio que elevam emissões de carbono

Por Antonio Martins

Os governos europeus, que frequentemente alardeiam compromisso com o ambiente, estão dispostos a levar esta responsabilidade à prática, quando ela contraria lucros de suas corporações?

Um documento vazado pela organização britânica War on Want e pelo jornal londrino Independent, acaba de demonstrar que não. Os delegados do Velho Continente que participam da Cúpula do Clima, em Paris, estão sendo explicitamente orientados a bloquear duas medidas essenciais à luta contra a mudança climática.

A primeira é a transferência de tecnologias limpas aos países menos desenvolvidos. Ela é decisiva porque, sem acesso à inovação, nações empobrecidas serão obrigadas a ampliar o uso de fontes energéticas como petróleo e carvão, ou de processos de produção obsoletos e poluentes. Mas o documento de orientação aos delegados europeus é explícito. Pede resistir a medidas que afetem direitos de “propriedade intelectual” detidos por corporações europeias. Ou seja, os ganhos com a venda de conhecimento não podem ser tocados, ainda que o preço seja uma ameaça ao planeta. Continuar lendo

Bonn: alguma esperança nas negociações sobre clima

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Reunião para tentar resposta ao aquecimento global termina melhor que se previa. Novo encontro, marcado para Lima em dezembro, requer intensa mobilização das sociedades

Por Raquel Rosenberg

Após duas semanas de negociações extremamente cansativas, chegamos ontem ao fim das intersecionais em Bonn. Como única jovem da América Latina (e de qualquer país em desenvolvimento), única representante da sociedade civil brasileira, correspondente do Adopt a Negotiator e acompanhando todas as negociações sobre educação e participação, o trabalho foi duro, mas valeu a pena! Continuar lendo

O céu é cinza sobre Varsóvia

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Nova conferência sobre clima aproxima-se do fim. Países seguem divididos em três blocos, nenhum dos quais disposto a repensar a sério padrões de produção e consumo

Por Umberto Pessot, da Agência Jovem de Notícias*

Terceiro dia de conferência da ONU sobre mudanças climáticas em Varsóvia (13 de novembro). Há uma grande agitação dentro do estádio nacional, onde acontecem os trabalhos da COP19. A única coisa que se nota claramente é que estamos longe, muito longe de um acordo. Os lados se definiram de forma clara já nas primeiras duas reuniões plenárias, com a participação de todas as delegações. De um lado, a China lidera um grupo de 77 países em desenvolvimento e subdesenvolvidos; de outra, o assim chamado “Umbrella group”, que reúne Austrália, USA, Canadá, Nova Zelândia e Noruega. No centro, parece estar somente a União Europeia, ainda muito fraca para criar um deslocamento de poderes que traga uma reviravolta às negociações.

O problema, em qualquer caso, não é tanto a distância entre pontos de vista, mas sim a inflexibilidade por meio da qual os diversos blocos defendem suas posições. Os tons usados nas discussões têm sido muito duros. Hoje, a Austrália chegou a dizer que não financiará de forma alguma o desenvolvimento sustentável dos países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, porque considera esta ação “socialismo internacional mascarado de causa ambiental”. Seja em situações oficiais ou não, com delegados, jornalistas ou ONGs, a impressão é a mesma: chegar a um acordo vinculante que evite o aumento da temperatura terrestre em 1,5 ou 2 graus centígrados torna-se cada vez mais utópico.

Outras notícias de corredor, por enquanto não confirmadas, vêm da delegação japonesa. O novo governo, de viés conservador, impôs um novo curso à política ambiental do país. Até esse momento, o Japão tinha uma meta de redução das emissões de 20% em relação às de 1990. Com mudança de diretriz do país, o objetivo foi reduzido a 3%.

As expectativas não são boas, mas, como se sabe, a esperança é a última que morre.


*A Delegacão Jovem do Brasil na COP19 é composta pelas organizações: Viração Educomunicação, Engajamundo, Aliança Mundial das ACMs e Federação Luterana Mundial

Um mapa dos grandes danos ambientais

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Estudo alemão identifica países mais afetados por eventos climáticos extremos ligados ao aquecimento global. Estados-ilhas são os mais prejudicados

Por Juliana Winkel, da Agência Jovem de Notícias*

A COP19 — reunião global de países que se declaram interessados em enfrentar o aquecimento da atmosfera — sediou nesta terça-feira (12/11) a discussão a respeito do Índice Global do Risco Climático, um vasto relatório apresentado pela organização não-governamental Germanwatch. Um de seus produtos é o mapa que analisa onde e como têm ocorrido os principais danos ambientais dos últimos anos, em especial ligados a fenômenos bruscos e de consequências violentas (inundações, tufões, ondas de calor e outros). Foram divulgados os dados mais recentes apurados pela organização, abrangendo o período entre 1993 e 2012.

Em primeiro lugar na categoria de risco estão os países insulares ou mais próximos à costa: Honduras, Mianmar e Haiti. No último ano, os mais afetados foram as Filipinas, Paquistão e novamente o Haiti. Outros países com índices altos de incidência ou risco de catástrofes, na América Latina, são Nicarágua, República Dominicana e Guatemala – dividindo a classificação com Bangladesh, Vietnã, Mongólia e Tailândia.

O Brasil está em zona de risco moderado – entre 51 e 100, em uma escala que vai de zero (o  índice de maior ameça) a 100, embora também apresente potencial de risco, especialmente em suas áreas litorâneas.


*A Delegacão Jovem do Brasil na COP19 é composta por
Aliança Mundial das ACMs, Engajamundo, Federação Luterana Mundial e Viração Educomunicação.

Estranhos insetos da mudança climática

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Na China, vespas gigantes mataram 42 pessoas, nos últimos três meses. Não culpe a natureza, mas nosso próprio padrão de vida e consumo

Por Vinícius Gomes

Imagine ser perseguido por um enxame de vespas do tamanho da palma da mão de um humano, que possuem um ferrão de quase 1 centímetro, carregam um veneno tão poderoso que dissolve o tecido humano e voam a até 40 km/h. E claro, sem esquecer do fato que podem te picar 200 vezes seguidamente.

Não, não é a sinopse de um filme ruim de terror passando na Sessão da Tarde, e sim as mudanças climáticas agindo sobre uma região rural da China. Não bastassem o derretimento das calotas polares, a incidência de câncer de pele e a desertificação do solo, também teremos de nos preocupar com proliferação de insetos incomuns, se o planeta continuar a aquecer. Continuar lendo

Energias limpas: tanto, e tão pouco…

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Consciência social e avanços tecnológicos ampliam, em todo o mundo, uso do sol e ventos, na geração de eletricidade. Mas é preciso fazer muito mais, alerta novo relatório

Uma notícia ótima, outra muito preocupante. Primeiro: um estudo da Agência Internacional de Energia (IEA), divulgado hoje (17/4) voltou a apontar rápido crescimento na geração de energia a partir de fontes limpas. Entre 2011 e 2012, a produção de eletricidade a partir de células solares cresceu 21%; e a geração eólica, 12%.

O avanço foi motivado por avanços tecnológicos que reduziram o preço das fontes limpas, e principalmente pela consciência sobre os riscos do aquecimento global. Países como China, Índia e Brasil, destaca a agência, introduziram com velocidade as novas fontes. A China tornou-se líder mundial na geração limpa. No Brasil, a Associação Brasileira de Energia eólica acaba de informar que a capacidade instalada das usinas de vento cresceu 73% no ano — embora elas ainda sejam responsáveis por apenas 2% da eletricidade total produzida. Continuar lendo

O paradoxo da devastação subsidiada

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ONU tem planos para limpar matriz energética do planeta até 2030, reduzindo drasticamente emissões de CO². Que falta: dinheiro ou nova democracia?

Um estudo divulgado no último domingo, pelo caderno de Mudanças Climáticas da respeitada revista científica Nature, convida a explorar, criticamente, as supostas dificuldades para alterar a matriz energética do planeta, substituindo petróleo por fontes limpas. O trabalho sugere: são falsas as alegações segundo as quais esta mudança exigiria um esforço financeiro incomum das sociedades. A transição requer, de fato, investimentos. Mas eles são cerca de quinze vezes menores que os subsídios hoje concedidos, de modo quase invisível, aos combustíveis fósseis. Continuar lendo