O golpe condenado também na Alemanha

Para Herta, ""O Judiciário brasileiro concentra-se na politização e não em métodos jurídicos e no Estado de Direito para eliminar adversários políticos, e proteger os interesses das elites"

Para Herta Däubler-Gmelin, “Judiciário brasileiro concentra-se na politização e não em métodos jurídicos e no Estado de Direito, ao eliminar adversários políticos, e proteger interesses das elites”

Na Universidade Livre de Berlim, ex-ministra da Justiça, Herta Däubler-Gmelin encontra-se com Dilma e tece duras críticas ao Judiciário brasileiro

Por Mario Schenk, do Amerika21, em Berlim

Com palavras diretas, a jurista e ex-ministra alemã da Justiça da Alemanha definiu como “injustificável” o Impeachment sofrido por Dilma Rousseff e chamou o processo em andamento contra o ex-presidente Lula de “escândalo”.

“Iniciativas contra a corrupção foram introduzidas particularmente no governo de Rousseff”, argumentou Däubler-Gmelin. Entretanto, o país vive agora uma “terrível reviravolta política e social”, acrescentou.

Däubler-Gmelin, que comandou o Ministério alemão da Justiça entre 1998 e 2002, criticou a politização do Poder Judiciário brasileiro pela falta de independência, parcialidade, além da manipulação de testemunhas, fatos e o tratamento dispensado aos acusados como aspectos que deixam dúvidas sobre um “julgamento justo” de Lula.

Continuar lendo

TEXTO-FIM

E se a União Europeia perder a Inglaterra?

160505-Brexit

Faltando sete semanas para plebiscito crucial, há um quebra-cabeças a resolver: Londres quer “exceções” que nem a Alemanha, nem os países do Leste, parecem dispostos a aceitar

Marcado para 23 de junho próximo, o referendo em que os eleitores do Reino Unido decidirão permanecer na União Europeia (UE) ou abandoná-la, tem importância global. A eventual deserção britânica enfraquecerá gravemente o bloco econômico mais rico do planeta e terá consequências políticas e simbólicas profundas. A UE expressou, no passado, o ideal de uma Europa menos desigual e não-beligerante. Com o passar do tempo, passou a ser vista como uma estrutura burocrática, de dirigentes não submetidos aos votos, que assumem papeis e poderes antes concentrados nos Estados nacionais e tornam impotentes os governos e instituições eleitos democraticamente. Qual será seu futuro, após 23/6?

Um artigo de Bernad Cassen, publicado pelo Le Monde Diplomatique francês, ajuda a enxergar o quebra-cabeças britânico. Eis suas peças principais:

> A disputa está extremamente incerta e será resolvida por margem estreita (veja o gráfico acima, no qual permanecer é representado pela curva verde, sair é a vermelha e indecisos são os azuis);

> Em tal ambiente, pode ser decisiva a posição do primeiro-ministro conservador Deavid Cameron. Ele foi eleito, por larga margem, para um novo mandato no ano passado. Só pode fazê-lo, porém, porque comprometeu-se com o plebiscito sobre a eventual retirada da Grã-Bretanha (Brexit). Convocou a consulta o mais cedo que pôde, por temer que o tempo jogue a favor da saída.

> Cameron ainda não definiu sua posição. Mantém negociações intermináveis com os demais governantes europeus; Busca obter deles exceções que lhe permitam defender, junto ao eleitorado conservador, a permanência do bloco. As duas principais são: a) aumento da soberania relativa dos Estados nacionais, diante da UE, na definição das politicas internas; e b) direito de legislar sobre imigrantes, restringindo o ingresso inclusive daqueles proveniente de países europeus.

> Estas exigências chocam-se contra dois interesses poderosos: a) os da Alemanha, altamente interessada em impor, aos demais membros do bloco, as políticas de ataque aos direitos sociais (“austeridade”) que vitimam, por exemplo, a Grécia; de todos os governantes do Leste Europeu. Eles não teriam condições de defender, junto a suas populações, a permanência numa Europa que restringe a circulação, o trabalho e a busca de oportunidades por parte de seus habitantes mais pobres.

Em meio aos dilemas, Bernard Cassen avalia que Cameron hesita demais e enerva seus parceiros de UE. Esta vacilação pode corroer tanto as chances de evitar o Brexit quanto a própria sobrevivência política do primeiro-ministro.

Nipsters: o nazismo usa máscaras na Alemanha

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ao invés de rechaçar cultura pop, neonazis tentam apropriar-se dela. Consomem como “hipsters”, vestem-se de negro e… agridem violentamente um número cada vez maior de imigrantes

Cauê Seignemartin Ameni

O atual movimento neonazista alemão vem buscando novos recrutas na subcultura dos jovens com barbas, sacolas de pano, óculos antigos e faixas com slogans nazistas. Ao se deparar com o número cada vez maior dos chamados hipster em manifestações anti-imigrantes organizadas pela extrema-direita, a mídia local apelidou-os de “nipsters”, relata longa reportagem de Thomas Rogers para revista Rolling Stones.

Assim como a propaganda foi essencial ao regime do Terceiro Reich, as redes sociais têm sido a principal plataforma do movimento. Os jovens usam intensamente o YouTube, Tumblr, Instagram e outras redes sociais para ganhar mais apoio na Alemanha, disse à revista Patrick Schroeder, um dos líderes do movimento no nordeste da Bavária, onde pretende dar um rosto social e político mais descolado à extrema-direita alemã.

Continuar lendo

Retratos de uma Europa esvaziada

130818-Alemanha

Queda absoluta da população alemã e seu envelhecimento rápido expõem desmonte do estado de bem-estar social e rejeição a estrangeiros

Por Gabriela Leite

E se o Velho Continente estiver envelhecendo ainda mais? Ao que parece, isso está acontecendo. Pesquisas recentes apontam que a população da Alemanha, país mais populoso do continente, diminui progressivamente. Em 50 anos, deve chegar a 66 milhões — 19% menor do que a atual, de 81 milhões. O país, que é um dos mais ricos, além de líder político da União Europeia, não é o único. A Letônia e a Bulgária, por exemplo, estão em situação até pior. Mas, em meio à crise, estes não têm como fazer nada para reverter o processo — ao contrário dos prósperos alemães, que gastam 264 bilhões de euros por ano em subsídios às famílias.

Porém, estas medidas não têm sido tão eficientes quanto deveriam. O processo de diminuição da população, segundo artigo do New York Times, começou nos anos 1970, no lado capitalista do país, quando a taxa de natalidade caiu para 1,4 — número que se mantém. Demógrafos calculam que para uma população manter-se estável, esta taxa tem que ser de 2,1 filhos por casal. Subsidiar as famílias parece não estar sendo suficiente por questões mais complicadas: os valores e costumes alemães, como sua histórica falta de hospitalidade com estrangeiros.

Continuar lendo

O dia em que Mario Balotelli zombou da Alemanha e do racismo

O certo é que a parte racista da Itália terá de engolir a própria língua, se quiser ver a “Squadra Azzurra” campeã da Eurocopa

Por Rita Zanon

Em qual lugar a Itália (principalmente a do norte) guardará o seu racismo, depois dos dois maravilhosos gols marcados pelo Mario Balotelli contra a Alemanha, na semifinal da Eurocopa? Difícil responder, porque na Itália (assim como na maioria dos países da Comunidade Européia) o racismo se tornou algo normal, que faz parte do cotidiano. “A minha pátria é a língua portuguesa”, escreveu Fernando Pessoa. Mario Balotelli, nascido na Itália, filho de imigrantes ganeses e adotado por um casal italiano, escolheu a língua de Dante como sua pátria aos 18 anos de idade.

Ao final da partida, enquanto todos os jogadores do banco italiano correram para dentro do campo, Mario Balotelli permaneceu imóvel e sereno. Alvo de inúmeras demonstrações de racismo ao longo de sua carreira, desde os tempos em que defendeu a Inter de Milão, Mario se contrapõe ao racismo de maneira altiva, tal qual Muhammad Ali.

O certo é que a parte racista da Itália terá de engolir a própria língua, se quiser ver a Squadra Azzurra campeã da Eurocopa.

O declínio da chanceler alemã

Depois de série de derrotas eleitorais, Angela Merkel pode enredar-se em crise política. Avanço da direita europeia pode ser mais frágil que se pensa

Em 2009, quando ela renovou o mandato de primeira-ministra (“chanceler”, segundo a designação alemã), agora à frente de uma coalizão de direita e centro, sua vitória foi vista, na mídia convencional, como um sinal de modernidade. Em 2010, chamou-se de “realismo” sua pregação, nas reuniões do G-20, em favor de cortes de gastos públicos. No final do mesmo ano, os moralmente conservadores julgaram “corajosa” sua avaliação segundo a qual o multiculturalismo havia “fracassado”; e os imigrantes interessados em viver no país deveriam adotar “a cultura e os valores alemães”.

Um ano depois, para tristeza (e silêncio…) destas vozes, Angela Merkel está em declínio. No ultimo domingo, ela sofreu a sexta derrota seguida, em eleições para renovação dos governos dos Estados alemães — desta vez, na Pomerânia do Oeste. Um novo fiasco deverá ocorrer em Berlim, dia 18/9. Se as eleições para o governo federal fossem hoje (normalmente, elas ocorrerão em 2013), a chanceler teria apenas 36% dos votos.

Seus dramas não param por ai. Começaram a surgir, nas últimas horas, evidências de que o programa ultra-draconiano defendido por Merkel para a Europa em crise pode ser incapaz de coesionar sua própria base parlamentar. Cerca de 20 parlamentares da coalizão governista (além do CDU, os social-cristãos-CSU e o Partido Liberal-FDP) estão anunciando que votarão contra o pacote costurado pela União Europeia para “resgatar” os países em dificuldades.

Costurado sob a liderança de Merkel e do presidente francês Nicolas Sarkozy, o programa exige, dos países “socorridos” cortes drásticos de direitos sociais e serviços públicos. Nem isso contenta os parlamentares rebeldes. Eles querem simplesmente inviabilizar os “resgates”, o que provocaria uma crise imediata do euro, e equivale, em certa medida, à posição da ultra-direita norte-americana, que ameaçou em agosto provocar o default da dívida dos EUA.

Se a rebelião avançar, a chanceler viverá um curioso dilema. Terá de recorrer à oposição, composta pelos social-democratas, Verdes, e Partido de Esquerda. Estes já anunciaram que concordam em apoiar os parceiros europeus mais atingidos pela crise. Porém, exigem, como contrapartida, mudanças no conjunto da política econômica. Frisam, em especial, a criação de um imposto sobre transações financeiras (semelhante ao Tributo Tobin) e a regulamentação do sistema financeiro.

Que faria Merkel, nestas circunstâncias? Negociaria com a esquerda, para escândalo de parte de sua base política? Ou abandonaria a política de “resgate” dos países atingidos, o que comprometeria por completo sua liderança e credibilidade no bloco europeu? Seja como for, o declínio da chanceler revela algo importante. A deriva da política institucional para posições cada vez mais retrógradas, na União Europeia, não são favas contadas. Há brechas a explorar — principalmente em casos como o alemão em que os partidos à esquerda, na oposição, mantém certa fidelidade a seus ideais históricos.