Resistência na ponta da agulha

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Documentáriconta, por meio de bordados e das mulheres que os tecem, uma história da violência associada ao setor elétrico brasileiro 

Por Inês Castilho
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Arpilleras: Atingidas por barragens bordando a resistência
Lançamento: 29 de agosto, às 19h
Cine Odeon – Praça Floriano, 7 – Centro — Rio de Janeiro (mapa) — Metrô Cinelândia
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Bordar a dor para denunciar a violência. Um trabalho tradicional de mulheres no ambiente doméstico é transformado em instrumento de luta e vira tema do longa-metragem Arpilleras: atingidas por barragens, bordando a resistência.

O filme conta a história de dez mulheres cujas comunidades foram atingidas por barragens de mineradoras e hidrelétricas, nas cinco regiões do Brasil. Seus relatos de dor e luta pelas violações sofridas em suas vidas cotidianas foram transformados em cenas bordadas. A costura, inofensiva tarefa feminina, usada transgressivamente, transforma-se em potente ferramenta de resistência e denúncia.
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Grandes obras do setor elétrico, além de destruirem comunidades inteiras, têm impacto ainda mais predatório para as mulheres. Com elas chegam em pequenos municípios milhares de operários desgarrados e sem família, criando um ambiente propício ao assédio sexual, ao estupro, ao tráfico de mulheres e à violência sexual contra menores.

A partir de cada personagem, o filme mostra os problemas criados pela hidrelétrica de Belo Monte, que impactou a vida de aproximadamente 40 mil pessoas em Altamira (PA); a barragem de rejeitos de Fundão, que se rompeu em novembro de 2015 e causou a morte de 19 pessoas em Mariana (MG); a barragem do Castanhão, que canaliza água para a região metropolitana de Fortaleza (CE); a hidrelétrica de Itá (RS), idealizada no período da ditadura militar; e as hidrelétricas de Cana Brava e Serra da Mesa, ambas em Goiás.
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A técnica
A Arpillera é uma técnica têxtil cujas raízes estão fincadas numa antiga tradição popular de bordadeiras de Isla Negra, no litoral chileno. Recriada para denunciar a ditadura de Pinochet, a técnica foi adotada a partir de 2013 no Brasil pelo MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, que há 26 anos defende os direitos das populações atingidas por barragens.

“As arpilleras são como cancões que se pintam”, teria dito a compositora Violeta Parra, que expôs suas arpilleras no Museu do Louvre em 1964.

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Detalhe Arpillera “Homem com violão”, de Violeta Parra

O filme é uma produção do MAB e foi viabilizado por meio da plataforma de financiamento coletivo “Catarse”.

TEXTO-FIM

Arte e conhecimento nas bordas da metrópole

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7º Encontro Estéticas da Periferia oferece, a partir de amanhã, uma semana de atividades artísticas e debates que têm como protagonistas 33 coletivos, de 17 territórios de São Paulo

Trinta anos de Racionais MC’s. Vinte anos do Samba na Laje. Vinte anos da literatura de Ferrés. As manifestações artísticas das periferias têm muito a comemorar em 2017, e vão fazer barulho a partir desta sexta-feira, 25 de agosto, com a abertura do Encontro Estéticas da Periferia no Auditório do Ibirapuera. Além desses artistas, o Encontro homenageia a Agenda Cultural da Periferia – um guia da arte urbana e periférica que completou 10 anos em maio passado, luta pela sobrevivência e marca a efervescência cultural das bordas da metrópole.

“O Encontro chega à sua sétima edição como um arco-íris em meio à tempestade. A arte que resiste e insiste em se manifestar apesar de tanta brutalidade”, afirmam os organizadores.

Idealizado pela ONG Ação Educativa, o Estéticas das Periferias mobiliza diversos espaços culturais em todas as áreas dos fundões da capital paulistana – de sul a norte – por uma semana. O experimentalismo artístico marca a programação, que é construída colaborativamente por 33 coletivos (entre eles Ação Educativa, Amigas do Samba, Batekoo, Bodega do Brasil, Capão Cidadão, Clariô, Coletivo Ocupa, Cia. Decálogo Jalc, Espaço Comunidade, Espaço Cita, Hip Hop Mulher, Imargem, Instituto Cultural Dandara, Instituto Pombas Urbanas – Cooperativa de Artistas, Levante Mulher, Museu do Futebol, Ocupação Hip Hop, Perifatividade, Periferia em Movimento, Poetas do Tietê/Cena Norte, São Mateus em Movimento, Slam da Guilhermina, Terreiro de Bamba, Umojá, UNAS) e conta este ano com mais de 100 atrações em toda a periferia e região central.

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Jacques e a Revolução, uma obra premonitória

170525_Jacques e a revolução - Ana Luiza Accioly e Katia Iunes - Foto Flávia Fafiães

Em cena, as atrizes Ana Luiza Accioly e Katia Iunes

Criadores e equipe convidam público a colaborar com o financiamento coletivo para a peça de Ronaldo Lima Lins retornar, em nova temporada, no Teatro Ziembinski, no Rio

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Jacques e a Revolução, ou Como o criado aprendeu as lições de Diderot
Peça de Ronaldo Lima Lins, dirigida por Theotonio de Paiva
Reestreia dia 9 de julho | Teatro Municipal Ziembinski
End: Rua Heitor Beltrão, s/no – Metrô São Francisco Xavier
Tel. (21) 3234.2003
Dias: 9, 16, 23 e 30 de julho de 2017
Horários: 19h30
Duração: 80 min
Valor do ingresso: 40 (inteira) 20 (meia) 15 (lista amiga)
Para apoiar, acesse aqui 

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Uma nova temporada de um espetáculo teatral, montado com financiamento coletivo, é a proposta da equipe de Jacques e a Revolução, ou Como o criado aprendeu as lições de Diderot. O êxito da peça é o que levou seus realizadores a pedir a colaboração do público para que ela volte aos palcos cariocas, em julho, desta vez no Teatro Municipal Ziembinski, na Tijuca.

Durante dois meses, Jacques e a Revolução foi apresentada com grande sucesso em Lonas e Arenas Culturais – equipamentos disponibilizados pela prefeitura para apresentação de espetáculos culturais nas periferias cariocas. O mesmo sucesso de crítica e público foi alcançado na temporada do Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, no tradicional bairro de Santa Teresa, em maio.

“O financiamento coletivo para a nova temporada do Jacques e a Revolução destina-se a cobrir custos da montagem, reciclagem de material e pagamento de atores e criadores do espetáculo”, explica o dramaturgo Theotonio de Paiva, diretor do espetáculo. “O teatro é público e tem a infraestrutura necessária.” O financiamento é de 8 mil reais, e na página do Catarse é possível conhecer melhor o projeto.

A peça

“É por natureza que a maioria dos seres comanda ou obedece”, propugnava Aristóteles em sua Política. E esta dicotomia – dominados e submissos – capaz de colocar uns acima e outros abaixo, feitores e escravos, patrões e criados, maridos autoritários e mulheres ‘domesticadas’, sexualidades passivas ou ativas, torturadores ou vítimas, continua como uma marca cínica do processo evolutivo civilizatório.”

Assim tem início a crítica da peça Jacques e a Revolução escrita por Wagner Correa de Araújo. E termina: “Quem é mais digno de pena? O que bate ou o que apanha?”…

A peça não se passa em nenhum lugar específico – o mundo está em foco. Desenrola-se através do diálogo entre dois personagens: o patrão, um empresário, e seu empregado Jacques, numa conversa que os coloca em confrontos bem humorados.

Apesar de escrito no início do processo de democratização do país, em 1989, à época da queda do muro de Berlim, o texto dialoga intensamente com os tempos que correm. É como se estivéssemos diante de uma espécie de expressão premonitória das sucessivas crises hegemônicas e representativa dos poderes.

Foi escrita na esteira das comemorações de 200 anos da revolução de 1789, espelhando-se na obra de Diderot Jacques o Fatalista e o Seu Amo, dos anos de aproximação da Revolução Francesa, como em 1971 havia feito o escritor Milan Kundera com Jacques e Seu Amo. O texto guarda proximidade, ainda, na relação entre patrão e empregado, com a comédia política O Senhor Puntila e Seu Criado Matti de Bertolt Brecht.

Para examinar um conjunto de ideias delineadas pelo iluminista francês, a peça reinaugura questões antigas na dinâmica dos últimos séculos da modernidade.
O “tema da viagem”, conforme aparece em Diderot, aqui se concentra num único eixo, no coração de um império econômico, metáfora do próprio sistema. Nessa condição, Jacques e o Empresário passam em revista as suas próprias histórias, ambições e derrotas.

Somos colocados diante de uma dialética envolvendo dominador e dominado, na qual há trânsito e alternância de posições. Quem estava por baixo vê-se por cima e vice-versa.

A direção de Theotonio de Paiva acentua esse jogo de espelhos, numa encenação que exercita o poder da síntese, ao trabalhar com dois naipes de personagens: dois homens e duas mulheres. Essa composição permite revelar mais claramente o jogo presente no próprio texto, favorecendo a construção dramático-narrativa entre atores e público.

A peça recebeu o Prêmio Maurício Távora – 1989 / Secretaria de Cultura do Estado do Paraná, e foi contemplado com o Viva a Arte!, da Prefeitura do Rio /Secretaria Municipal de Cultura. No decorrer de 2016 foi encenada em diversas Lonas e Arenas Culturais, para público dos bairros cariocas. Em outubro realizou temporada no Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, com sucesso de crítica e público.

Ficha Técnica
Direção – Theotonio de Paiva
Elenco – Abílio Ramos, Ana Luiza Accioly, Katia Iunes e Luiz Washington.
Trilha sonora original – Caio Cezar e Christiano Sauer criaram a da peça.
Direção de arte – Marianna Ladeira e Thaís Simões assinam a e Carmen Luz a Direção de movimento – Carmen Luz
Iluminação – Renato Machado
Designer gráfico – Nicholas Martins
Fotos – MarQo Rocha e Flávia Fafiães
Assessoria de Imprensa: Monica Riani
Direção de produção – Katia Iunes
Realização – Todo o Mundo Cia de Teatro
Produção – Nonada – Arte e cultura contemporânea.

Facebook://www.facebook.com/jacquesearevolucao/

Mostra apresenta Jerzy Skolimowski, cineasta original

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“A Classe Operária”, com Jeremy Irons, é um dos filmes presentes na Mostra

Sátira ao stalinismo e ao conformismo polonês custou censura e exílio de mais de vinte anos ao cineasta — colaborador de Polansky e Wadja e uma das vozes mais originais da Nouvelle Vague


“O cinema de Jerzy Skolimowski”
De 24 de maio a 12 de junho de 2017
CCBB São Paulo
Ingressos: R$ 10,00 (inteira) | 5,00 (meia)
Veja programação completa ao final do post

Ele é pouco conhecido no Brasil, embora tenha colaborado com cineastas poloneses que encontraram grande público por aqui, como Andrzjev Wajda e Roman Polanski – com este, colaborou no roteiro de Faca na água, uma das obras-primas do cinema internacional e tremendo sucesso no país nos anos 1960. Mas agora os paulistanos poderão entrar em contato com a obra de Jerzy Skolimowski, uma das vozes mais originais da Nouvelle Vague polonesa ainda em atividade. A mostra “O cinema de Jerzy Skolimowski” exibirá 19 filmes do cineasta, entre curtas e longas-metragens, a maioria inédita no país, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de São Paulo entre 24 de maio e 12 de junho.

O impulso de renovação trazido pelos assim chamados cinemas novos nos anos 1960 conjugava invenção formal, engajamento político e afirmação de um estilo particular. Esse impulso se manifestou em toda parte, da Europa ocidental à América Latina, e não foi diferente na Europa do Leste, sobretudo na Tchecoslováquia e na Polônia, de cujo cinema novo Jerzy Skolimowski emergiu como o cineasta mais emblemático e original. Em razão da multiplicidade de seus talentos – de poeta, pintor, roteirista, boxeador, dramaturgo e ator – e da contínua transformação de seu cinema face às circunstâncias práticas e políticas, Skolimowski construiu uma filmografia cujo estilo é de difícil classificação. Seus filmes se caracterizam pela vitalidade das encenações, amparadas no uso da improvisação. Seu cinema é sobretudo físico, movido pelas ações e gestos intempestivos dos personagens, sublinhados pela invenção na montagem.

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Cineclube das Outras: para conhecer e debater o cinema feminista

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Cena de “Quem matou Eloá?”

Inaugura-se nesta quinta, 23, um espaço de diálogo e reflexão sobre o universo feminino através da exuberante produção audiovisual de mulheres

Por Inês Castilho e Livia Almendary
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Cineclube das Outras – sessão inaugural dia 23 de março
Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga, São Paulo
19h – Abertura da casa
19h30 – Exibição dos curtas-metragens
“Quem matou Eloá?”, de Lívia Perez (SP) – Documentário 24.24 min
“Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares (MG) – Ficção 25 min
“Do portão para fora”, de Letícia Bina (SP) – Documentário 16.4 min
20h30 – bate-papo com Lívia Perez, Letícia Bina e Jaqueline
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Em meio à multiplicação de grupos feministas e do peso político alcançado pelas manifestações de mulheres no Brasil, o cinema começa a ganhar centralidade. Entre pés na porta, câmeras na mão, lutas e resistência contra o machismo, racismo e sexismo, mulheres estão ocupando todos os campos do audiovisual e questionando seus lugares históricos no setor: da representação no cinema aos papeis e cargos que desempenham nas relações de trabalho (direção, fotografia, roteiro e mais), passando pela crítica e curadoria de festivais.

É nesse contexto que surge em São Paulo o “Cineclube das Outras”, um espaço coletivo para conhecer e debater a produção audiovisual de mulheres, com foco em Outras narrativas: de mulheres, negras, indígenas, LGBTs, migrantes, grupos subalternizados cuja voz soa cada vez mais alta nesta sociedade dominada por uma elite homens brancos heterossexuais. A iniciativa voluntária é de um grupo de diferentes gerações e atuações – integrantes da Taturana Mobilização Social, da Associação Cultural Kinoforum, da produtora Doctela, do 8M Brasil e do Outras Palavras.

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Cena de “Do portão para fora”

A sessão inaugural traz três produções recentes de curta-metragem sobre violência.
“Quem matou Eloá?”, documentário de Lívia Perez (SP), parte do caso de Eloá Pimentel, de 15 anos, durante cinco dias mantida refém pelo ex-namorado Lindemberg Alves, de 22 anos, para fazer uma análise crítica sobre a espetacularização e a abordagem da violência contra a mulher pela televisão – um dos motivos pelos quais o Brasil é o quinto no ranking mundial de feminicídio. O filme foi indicado a melhor curta-metragem documentário no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2017. Lívia Perez estará presente no bate-papo sobre os filmes, após a exibição.

“Do portão para fora”, de Letícia Bina (SP), também um documentário, narra a vida de Jaqueline ao sair da prisão: ela recomeça sua vida no lugar onde cresceu, torna-se mãe pela segunda vez e divide seu tempo entre o trabalho e a casa. Letícia e Jaqueline também estarão presentes no debate.

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Cena de “Estado Itinerante”

Já “Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares (MG), é uma ficção que traz a personagem Vivi, uma cobradora de ônibus que procura escapar de uma relação opressora e se fortalece com o trabalho e o apoio de outras cobradoras. A diretora não estará no debate por morar fora de São Paulo.

O cineclube não conta com financiamento, a não ser a eventual contribuição voluntária das pessoas que comparecerem à sessão e alguns trocados da venda de bebidas no bar, para custear o uso do espaço. Os filmes foram cedidos gratuitamente por suas diretoras, mas a ideia é, futuramente, quando o cineclube crescer, ajudar a remunerar tanto os curtas, quanto as debatedoras que se engajam em discutir as obras conosco – fortalecendo e valorizando assim o espaço, o debate e a cadeia envolvida na distribuição de filmes.

O “Cineclube das Outras” vem se somar a iniciativas semelhantes espalhadas pelo país: Quase Catálogo  e Cineclube Delas (RJ), Feministas de Quinta (ES), Cineclube da aranha (BH), Cineclube Feminista do Coletivo Matilde Magrassi (periferia de São Paulo e Guarulhos), a Mostra das MINAS (Santos), as sessões de cinedebate organizadas pela SOF (SP), e outras tantas que devem rolar por aí. Isso, ao lado de núcleos de mulheres cineastas como o Coletivo Vermelha (SP), o Grupo das Mulheres no Audiovisual, o Grupo das Mulheres Negras no Audiovisual, a Afroflix, as Elviras etc etc…

O cineclube está aberto a pessoas e grupos ou entidades que queiram somar esforços. Estão todxs convidadxs!

No palco, a resistência cultural brasileira

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O lendário João Donato inaugura, nesta quinta, a Tupi or not Tupi

Na inauguração do espaço Tupi or not Tupi, os extraordinários João Donato e Arismar do Espírito Santo reafirmam refinamento e criatividade da tradição músical do país

“Estou na expectativa, bastante animado com o convite do Arismar para tocar nesse novo endereço em São Paulo” – a voz de João Donato soa entusiasmada ao telefone, do Rio de Janeiro.

O novo endereço é a casa de música Tupi or not Tupi, que será inaugurada nesta quinta, 16, com os geniais João Donato e Arismar do Espírito Santo. Uma rara oportunidade de ouvir ao vivo essas duas gerações de músicos de reconhecimento internacional, mágicos da resistente cultura brasileira. Continuar lendo

São Paulo prepara festival de culturas imigrantes

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El Pepino, espécie de rei momo da Bolívia, abre as festividades

Em tempos de xenofobia crescente, um contraponto: neste fim de semana projeto Visto Permanente exibe expressões dos povos que nos formam: da poesia à performance, da música ao teatro, da fotografia à dança
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Território Artístico Imigrante – Festival de expressões culturais de imigrantes
Sábado e domingo, 11 e 12 de fevereiro
Praça Coronel Fernando Prestes, Bom Retiro, São Paulo — metrô Tiradentes
(veja programação ao final)

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Trazer a cultura para a rua é uma reivindicação pelo direito imigrante de viver em paz e ver respeitadas sua cultura e cidadania. Partindo dessa ideia, o projeto Visto Permanente, um acervo digital de expressões artísticas de imigrantes em São Paulo, e outros coletivos ligados à questão da imigração organizaram um festival que acontece no próximo sábado e domingo, dias 11 e 12 de fevereiro, no tradicional bairro do Bom Retiro.

Expressões culturais de países como Angola, Bolívia, Cuba, Palestina, R.D. do Congo, Colômbia, Argentina, Guiné-Conacri, Chile ou Uruguai fazem parte da programação, uma amostra de como os imigrantes seguem construindo a cidade. Da poesia à performance, da música ao teatro, da fotografia à dança, o Território Artístico Imigrante é um momento de conexão criativa de artistas e grupos culturais com linguagens e propostas artísticas diferentes, que transformam e reinventam São Paulo – esse território imenso que é também de artes e culturas dos povos que se juntam a nós. Continuar lendo

Salvador abre série de diálogos sobre Literatura e Cinema


Casa 149 quer reunir um grupo aberto e diverso para leituras, projeções e debates. Estreia é hoje, com o filme Gueros“, que evoca rock, Cidade do México, apatia e tédio contemporâneos


Projeção e debate do filme Gueros, de Alonso Ruiz Palacios
Local: Casa 149, galeria de arte e espaço cultural
Endereço: Rua da Paciência, 149, orla do Rio Vermelho. Salvador-BA
Data: Dia 20/12 às 20 horas
Entrada gratuita, confirme presença no evento do Facebook
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Uma aventura pelas veredas das imagens e dos sentidos, esses mundos partilhados pela literatura e pelo cinema. Essa é a ideia da série de encontros gratuitos que serão realizados na galeria de arte e espaço cultural Casa 149, em Salvador, e para o qual estão convidados todos e todas amantes de livros e filmes. Reunir um grupo aberto, diverso, para discutir propostas de leituras e filmes a serem exibidos numa série de encontros é o objetivo desse evento.
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A reunião desta terça, dia 20, às 20 horas, será em torno do filme Güeros (2014), primeiro longa do mexicano Alonso Ruiz Palacios.
Na trama, três personagens marcados pela apatia e pelo tédio percorrem a Cidade do México em busca de um roqueiro obscuro, desconhecido e moribundo, que teria feito “Bob Dylan chorar”. O filme desdobra a relação entre cinema e experiência poética, revelando um domínio estilístico da especificidade cinematográfica.

O longa-metragem ganhou o prêmio de Melhor Filme Estreante em Berlim e o Melhor Filme Latino-Americano em San Sebastian. Por aqui, foi exibido no Festival Internacional de Cinema da Bienal de Curitiba, em 2015.

Todos são bem-vindos. Levem almofadas ou esteiras para sentar durante a projeção.

Memória e resistência: Mestre Ananias vive

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Mestre de capoeira, Ogã do candomblé, sambista de roda, Ananias Ferreira ajudou a dar visibilidade à riqueza do patrimônio espiritual e estético do negro brasileiro

Por Inês Castilho

A Conselheiro Ramalho estava enegrecida. Ocupada por homens, mulheres e crianças, a maioria morena, negra, cabelos crespos, turbantes. Uma cena da Bahia no Bixiga, bairro incomum de São Paulo, nascido de um quilombo. Mestre Ananias, cuja Casa e Ponto de Cultura é vizinha da redação de Outras Palavras, havia falecido na noite anterior e estava sendo velado.

O corpo chegou às 8 da manhã de quinta-feira, 21 de julho. Ao meio-dia, a rua fervia. Roupas brancas, dreadlocks, crianças no colo, no chão. Alguns brancos e brancas. Muitos capoeiras órfãos: mestres, contramestres, professores, aprendizes. O povo do bairro, curiosos se amontoavam na homenagem. Abraços, palavras de consolo, sorrisos, vozes baixas – a atmosfera não era exatamente triste, havia alguma alegria no encontro daquela comunidade.
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Dentro da sala, ali onde tantas vezes tocou seu atabaque de Capoeira e Ogã do Candomblé nas festas e rodas de samba, deitado no caixão, o rosto e as mãos muito negras brilham no branco das flores, no branco do véu, no terno branco que vestia. Quatro velas acesas.

Na parede amarela atrás do caixão, cinco coroas de flores ladeando a bandeira do Brasil e berimbaus alinhados. Bandeirolas coloridas de São João pendem do teto.

Ao lado do caixão, Brasília, mestre dos meus filhos, fecha os olhos, abaixa a cabeça, faz uma oração. Emoção. (Fotografia não.)

– Era meu amigo-irmão, camarada. Nos ensinou a ser mais tolerantes, deixa o exemplo do grande artista que era.

No chão de cimento queimado, uma estrela marcada em madeira.

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Contramestre Rafael: “Tchau, Mestre, obrigado por tudo!”

– Como é que posso te chamar? – pergunto.
– Rafael – responde.
Vestido de branco, contramestre formado pelo Mestre, Rafael fala.

– Mestre Ananias trouxe um grande legado da terra dele, o Recôncavo Baiano. Conviveu com os melhores da capoeira – se formou com mestre Canjiquinha depois que mestre Valdemar morreu. Com grandes nomes do samba de roda do Recôncavo e baluartes do candomblé. Era um Ogã feito de santo, um Ogã do Candomblé de Angola.

Sentado num canto, de branco – pés descalços, olhos cerrados –, turbante alto sobre as dreads, entre indiano e africano, um “orixá” balança o tronco devagar, pra lá, pra cá. Como encantado, em contato com a passagem entre a vida e a morte. Na passagem, acompanhando o Mestre.

Agora ao lado do caixão, Rafael faz sorrir até a neta do vô Ananias, olhos vermelhos. Fala dele, conta histórias.

O motorista do carro funerário da prefeitura quer ir embora, é hora de fechar o caixão.
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– Tchau, Mestre, obrigado! Obrigado por tudo! – a voz de Rafael soa por todos.
Na salinha lotada, uma salva de palmas irrompe e mantém a emoção no ar durante alguns minutos. A tampa desce até o caixão e um canto fúnebre de candomblé é puxado pela voz serena de Rafael. Um choro, um grito: Pai!

Sob aplausos do povo na rua, o carro funerário da prefeitura sai devagar às duas e meia, meia hora atrasado, para o cemitério de Itaquera.

Algumas pessoas saem atrás. Um povo fica ali, conversando. Mais abraços. A casa do Mestre já está fechada. Logo logo a rua estará novamente só a serviço dos carros.

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Rodrigo Minhoca e Mestre Ananias: a riqueza da cultura afro-brasileira

E da memória. A Casa Mestre Ananias – Centro Paulistano de Capoeira e Tradições Baianas – Associação Capoeira Angola Senhor do Bonfim, mantida com a luta incansável do sempre sorridente Rodrigo Minhoca, continua aqui. Viva no som do berimbau, do atabaque, do pandeiro e da viola, no jogo, no canto e na dança das crianças, nos projetos sociais, nas festas do bairro, nas bandeirolas que insistem em colorir a rua e embalam nosso fazer jornalístico. Apesar de tudo.

Embaixador da cultura afro-brasileira
A capoeira em São Paulo foi conduzida por mestres baianos como Ananias Ferreira, nascido em São Félix, no Recôncavo Baiano, em 1924, e aqui chegado em 1953. O Mestre manteve viva a ancestralidade africana no coração da cidade, a Praça da República, onde instituiu uma roda de capoeira dominical que acontece há mais de 50 anos. “Uma autêntica ágora, espaço de resistência, de confronto e diálogo dos talentos e dos estilos mais diversos, e também de aprendizagem. Poucos capoeiristas na cidade de São Paulo não conheceram de perto esta roda ou estiveram cientes da oportunidade de entrar livremente nela”, como diz em seu site.

Contribuiu para dar visibilidade à riqueza do patrimônio espiritual e estético do negro brasileiro, que durante tanto tempo foi criminalizado. Em São Paulo, onde conheceu o poeta e ativista Solano Trindade e o dramaturgo Plínio Marcos, passou a integrar o elenco de peças de teatro que apresentavam o candomblé, o samba e a capoeira ao grande público. Atuou na peça Balbina de Iansã, em 1970, e em Jesus Homem, em 1980, de Plínio Marcos, e participou do elenco da primeira encenação de O Pagador de Promessas, de Dias Gomes dirigida no TBC por Flávio Rangel em 1960 – em cujo filme (aqui, completo), dirigido por Anselmo Duarte e premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1962 – fez parte da trilha sonora.

Referência para diversas gerações da capoeira e do samba de roda na capital, Mestre Ananias conviveu, neste mais de meio século, com grandes capoeiristas baianos que viveram e passaram por São Paulo, tais como Zé de Freitas, Limão, Valdemar (do Martinelli), Hermógenes, Gilvan, Silvestre, Paulo Gomes, Suassuna, Brasília, Joel.
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Para conhecer Marguerite Duras e atualidade de sua obra

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Marguerite Duras e Delphine Seyrig durante filmagens de India Song. Atriz de diretores como Resnais, Truffaut e Buñuel, Delphine Seyrig foi também importante militante feminista na França

Em S.Paulo, palestras e filme relembram autora que fustigou moral burguesa e articulou feminismo, liberdade sexual e luta contra desigualdades. Encontro homenageia vinte anos de sua morte
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Palestras e bate-papo com Maria Cristina Vianna Kuntz e Maurício Ayer
Apresentação do filme India Song
18 de junho, sábado, das 15h às 20h
Inscrições: R$ 60,00
Participantes de Outros Quinhentos, estudantes e professores da rede pública: 30,00
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Há 50 anos, Marguerite Duras publicava um de seus principais romances, O Vice-cônsul, que permanece instigante e atual em sua escritura do desejo, da loucura, da liberdade sexual, da mulher, da política. Seu principal desdobramento é o longa-metragem India Song, obra-prima escrita e dirigida por Duras, em que o enredo é condensado em imagens e sons cindidos, que jamais se fundem. Neste evento, dois especialistas na obra de Duras vão abordar O Vice-cônsul e India Song em palestras e bate-papo, seguidos da projeção do filme (legendado).

No enredo do romance e do filme, um membro do Estado comete crime hediondo e seu superior procura uma saída para abafar o caso e devolver as coisas à “normalidade”, num clima de profunda deterioração moral; do outro lado das cercas e muros que protegem essa elite, assolam a fome, a miséria e doenças como a lepra e a peste. Percebe-se por que o romance O Vice-cônsul, publicado há 50 anos, e o longa-metragem India Song, principal filme escrito e dirigido por Marguerite Duras, mostram-se extremamente instigantes e atuais. Continuar lendo