Vem aí nova ditadura?

Alguns comentaristas estão vendo como inevitável uma onda de repressão brutal contra a esquerda, após as eleições. Pensar assim é entregar os pontos, antes da partida começar

Por Antonio Martins | Edição de vídeo: Gabriela Leite

[Leia a seguir a versão textual do comentário]

Renato Rovai, editor da revista Fórum e velho amigo de quem faz esta análise, postou em seu blog, na última sexta-feira, um texto amedrontador. Diz ele, em síntese: a) a esquerda sofrerá uma grande derrota, nas eleições de outubro; b) o resultado será a senha para uma perseguição em massa contra os movimentos de resistência ao golpe; c) quem puder, que prepare seu passaporte. Com todo respeito a Renato, esta perspectiva parece não apenas derrotista mas também incapaz de enxergar aspectos essenciais do cenário brasileiro.

Que a esquerda institucional será derrotada nas urnas, parece não haver dúvidas. O Valor de hoje traz, por exemplo, um conjunto de reportagens que apontam a desilusão dos eleitores do PT em cidades como São Paulo e seu entorno. Pesa uma série de fatores: do massacre da mídia, nas matérias sobre a Lava Jato, a problemas reais, de gestões que foram muito contemporâneas mas esqueceram-se das periferias. Há uma segunda verdade no comentário de Rovai. Haverá enorme exploração midiática dos resultados. Os jornais e TVs dirão que eles confirmam a necessidade urgente de “mudanças”. Chamarão assim contra-reformas como a PEC-241, que congela por vinte anos os gastos públicos; o aumento da idade mínima para aposentadoria, que levará milhões de brasileiros a procurar sistemas de previdência privados, para alegria dos bancos; e o ataque à CLT.

Mas julgar que um massacre contra os movimentos sociais será inevitável é um passo perigoso demais, por dois motivos. Primeiro, a ideia do “inevitável” desconsidera a luta e a inteligência sociais. Certamente, há setores no governo atuando em favor de uma repressão violenta. A presença de Alexandre de Moraes no ministério da Justiça é grave; assim como a relutância dos governos estaduais em apurar as violências cometidas pelas PMs.

Mas estes setores que querem repressão cruenta atingirão seus objetivos? Há, ainda, um enorme espaço para evitar que o façam e seria um enorme erro desprezar esta resistência – inclusive porque a maior parte dos que lutam não tem a opção de usar o passaporte. Há várias formas de lutar contra a repressão. A denúncia internacional é uma delas – e tem incomodado bastante o governo Temer. Mas mesmo no Brasil, a mobilização de procuradores dignos do Ministério Público Federal, impediu, por exemplo, que se repetisse, nas últimas manifestações contra o golpe, a selvageria dos primeiros atos.

E é possível atuar em muitos terrenos. Quais são os principais ataques a direitos tramados pelo governo ilegítimo? Que setores eles afetam? Como suscitar mobilização social? Os exemplos são múltiplos. O Palácio do Planalto já decidiu adiar para 2017 o envio, ao Congresso, das contra-reformas da Previdência e Trabalhista. Recuou por motivos muito concretos. Houve um início de rebelião no Congresso. Os parlamentares da própria base governista sabem que as medidas são muito impopulares. Temem desgastar-se. Continuarão temendo no próximo ano, a depender de nossa capacidade de comunicação, debate, mobilização.

É possível explorar contradições. Após os recuos, a grande pauta do governo, para 2016, é a PEC-241. Mas ainda ontem, surgiu um ruído, em São Paulo. Ao participarem de um evento, o ministro Eliseu Padilha, da Casa Civil, e o governador Geraldo Alckmin discordaram. Padilha diz querer a PEC “sem furos”. Alckmin retrucou. Segundo ele, da maneira que está redigida, a proposta causará enormes transtornos administrativos para Estados e Municípios. Não é uma contradição a ser explorada por quem defende os serviços públicos?

Esta questão remete a um segundo tema essencial. A possível derrota da esquerda institucional, em outubro, não pode ser vista como o fim de um projeto democrático de país. O que caracterizou as grandes manifestações contra o golpe foi, precisamente, o surgimento de uma nova configuração daquilo que podemos chamar de esquerda. As mesmas ruas que acolheram os militantes partidários e as estruturas sindicais receberam os sem-teto e os sem terra, a juventude rebelde e sem partido, as feministas, os LGTB, os que lutam pela democratização da mídia e tantos outros atores.

A novidade, agora evidente, é que os partidos já não comandam este enorme universo. E nosso principal desafio, nos próximos anos e meses, será construir formas de coordenação das lutas sociais em que estes mesmos partidos já não sejam protagonistas. Serão bem-vindos, é claro. Mas serão mais um sujeito – nunca mais o único, nem o central.

Quando estaremos prontos para esta nova fase? Não sabemos. Ela requer alguns movimentos complexos. De quebra de hierarquias: os partidos institucionais não podem mais enxergar a si mesmos como condutores automáticos do universo da esquerda. E de responsabilização: centenas de milhares de ativistas precisam compreender que não basta criticar os erros e insuficiências dos supostos dirigentes. Todos precisamos ser dirigentes agora, e precisamos nos coordenar.

É a este novo aprendizado que precisamos, todos, nos convidar. Haverá repressão muito dura? Não sabemos. Talvez. Depende também de nossas lutas. E é a esta aventura da formulação política coletiva – muito mais que à renovação dos passaportes – que precisamos todos, agora, nos entregar.

 

TEXTO-FIM

9 ideias sobre “Vem aí nova ditadura?

  1. Excelente artigo. Antecipando o meu comentário sobre o assunto, não vejo motivo para preocupações. A renovação de passaportes é necessária para férias no exterior. Nada mais do que isso. Aguardem o meu comentário sobre o assunto. Enquanto isso: DEIXEM O DALLAGNOL E O MORO TRABALHAREM!!! E…FORA TEMER!!!

  2. A despolitização do povo foi gigantesca, E os partidos não prepararam novos quadros.Além de uma serie de erros históricos, e erros bem mais comuns.

    E um discurso extraordinariamente equivocado, batendo na elite branca q inexiste no país, Em SP e paulistas qdo a cidade elegeu duas mulheres, e um afrodescendente. E foi berço do PT.

    Qdo foram os coxinhas q apoiaram o partido, e o alavancaram p o país , ou se preferirem a classe média alta paulistana. As perifas sempre votaram no Maluf. Agora estão c Russomano. No RJ c Crivella.

    Um pouco , ou melhor se for muita auto critica vai muitíssimo bem.

    A tendência é de retrocesso. Mas o partido ficou totalmente desfigurado, e descaracterizado há muito tempo. As alianças c Maluf, Collor etc foram chocantes. E se algo foi feito pelos menos favorecidos, muito mais foi feito por empreiteiros, banqueiros e montadoras.

    E p chegar lá expulsaram valorosas correntes mais a esquerda. Sempre fui pela união de tdas as forças progressistas independente das diferenças q tinha , ou tenho c as mesmas.

    Não dá p passar a mão na cabeça.

    Abrs.

  3. Impossivel nao enxergar os primeiros passos ensaiados por uma nova esquerda. O Levante Popular da Juventude reuniu mais de 7000 jovens em Bh para discutir um projeto p o Brasil. O ciclo eh outro. Os personagens tambem. Basta procurar para encontrar. Concordo com Martins.

  4. nesta quinta-feira (22/09) ocorreu uma representativa manifestação de protesto contra Temer e, principalmente as criminosas medidas que ele e sua quadrilha pretendem implementar. Para variar, a provinciana e medíocre imprensa local, associada menor da ridícula chamada grande imprensa nacional, não publicou uma linha seq

  5. No dia 22/09 ocorreu em Vitória ES, em frente a Assembléia Legislativa um grande ato de protesto contra Temer e as medidas que ele e suja quadrilha pretendem implementar. Para variar, a ridícula imprensa escrita local, associada menor à não menos ridícula imprensa nacional, não publicou uma linha para noticiar o fato.

  6. Parabéns pela excelente reflexão, Antônio!
    Suas palavras resgatam a necessária esperança que devemos cultivar juntamente com a continuidade do exercício de nossa prática social no dia a dia.
    Às ruas!

  7. Vamos à luta, todos, por uma sociedade mais justa, igualitária, solidária e humanizada.
    Vamos à luta, fora dos partidos, à margem das ideologias, religiões e ideólogos, por nossos direitos, por nossa qualidade de vida, por nossa felicidade, contra os grandes banqueiros, as grandes empresas especuladoras, pela liberdade de expressão, ação, escolha e direito de escolha dos limites de nossas liberdades.
    A luta é o único caminho que nos reserva o caminho de vencer.

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