O general falastrão e a esquerda imóvel

A mensagem do comandante Villas Boas é um desafio à democracia, que põe em xeque o STF e atola em lama o próprio Exército. Mas onde está a possível resposta?


Por Antonio Martins | Imagem: Mariza Dias Costa
Que falta faz Leonel Brizola. Em agosto de 1961, ele governava o Rio Grande do Sul quando dois generais – Odílio Denys, ministro do Exército, e Orlando Geisel – lançaram-lhe um ultimato. Exigiam que mandasse para casa as milhares de pessoas que convocara ao Palácio do Piratini, para enfrentar uma conspiração contra a posse do vice-presidente João Goulart, após a renúncia de Jânio Quadros. “Ninguém vai dar o golpe pelo telefone”, respondeu Brizola. Mandou guarnecer de barricadas as ruas do entorno do palácio e instalou ninhos de metralhadoras na laje. Sua força militar era ínfima. Mas seu gesto sinalizou, aos que resistiam à arrogância das oligarquias em todo o país, que não estavam sós, que havia como lutar. Denys e Geisel recuaram, a multidão permaneceu, Jango tomou posse.
Alguém soprou ontem ao general Eduardo Villas Boas, comandante do Exército, que faria sucesso se imitasse, 58 anos depois, a fanfarrice de seus antecessores. A armação foi pueril. Às 20h39, o general lançava, no Twitter, sua papagaiada covarde, sua tentativa de exigir do STF a condenação de Lula sem a coragem sequer de enunciar claramente a demanda. O texto é tão aguado que passaria em branco. A fala do boneco só ganhou sentido na voz do ventríloquo. A Rede Globo deu-lhe força na edição carregada do Jornal Nacional, na interpretação canastrã de Willian Bonner e no timing caprichosamente escolhido para a publicação: os últimos instantes da edição que antecedeu o julgamento do Supremo Tribunal Federal.
O general prestou-se ao papel de ator da família Marinho, mas o fez na condição de comandante do Exército. Por isso, as consequências de sua fala são vastas para três atores políticos: o STF, as Forças Armadas as esquerdas.
Submetido a pressão tão escancarada, o tribunal está obrigado a decidir, hoje, não apenas sobre o habeas-corpus do ex-presidente, mas sobre sua própria dignidade enquanto corte suprema. Se julgar segundo o script de Villas Boas, passará a ser visto, enquanto durar o atual período político, como mero cumpridor de ordens dos comandantes militares. Conservará o poder, mas perderá o verniz. Dará a Lula o status, agora evidente no Brasil e no exterior, de preso político; de homem privado da liberdade e afastado da política por exigência do poder armado. E passará o recibo: já não há democracia no país, sequer como máscara.
Pato na política, é provável que o general Villas Boas sequer tenha se dado conta – mas seus tuítes são um terrível desserviço ao Exército. Num país em crise prolongada, sem projeto e empobrecido, eles posicionam a força armada ao lado das quadrilhas que controlam o Estado: daqueles que entregam o pré-sal às petroleiras estrangeiras e a base de Alcântara e a Embraer aos EUA; que escondem milhões de reais em malas de dinheiro; que se livram de processos comprando e vendendo votos no Congresso Nacional; que arrancam direitos dos mais pobres para permitir que os empresários obriguem mulheres grávidas a trabalhos insalubres.
Na ditadura pós-64, os militares assumiram responsabilidades, mas tinham poder: a Presidência, os ministérios mais importantes, as estatais decisivas. No arremedo de 2018, se depender de gente como o general Villas Boas, eles se reduzem à condição de capitães do mato. Na época da escravidão, perseguiam os negros que se rebelavam ou fugiam. Agora, também nada decidem: apenas conservam seus poucos privilégios e garantem o poder das máfias parlamentares.
O golpe dentro do golpe, que o general Villas Boas enuncia sem comandar, é, por fim, desafio a uma esquerda acomodada. A intervenção no Rio de Janeiro, após o Carnaval, evidenciou uma paralisia anterior. Que novos projetos, que novas narrativas, os partidos que se chamam de progressistas enunciaram, desde que o lulismo entrou em crise? Reforma política, com alternativa às máfias parlamentares que controlam a política institucional? Tributação dos ricos? Ações contra a desigualdade? Reforma Urbana? Legalização das drogas “ilícitas”? Outra política de segurança pública? Políticas inovadoras de combate ao patriarcalismo? Garantia dos direitos das maiorias que vivem em periferia?
A população mobiliza-se. O discurso que fala de uma suposta “apatia” não se confirmou na prática. Centenas de milhares foram às ruas, quase espontaneamente, para protestar contra o assassinato de Marielle Franco. Quase não havia bandeiras dos partidos. Foi a ação dos que não querem permitir que o país se torne irrespirável. Passadas agora três semanas, o que se propôs a estas pessoas?
O velho Brizola não voltará. Muito menos seus programas, que buscavam enfrentar o capitalismo em outra fase, hoje superada. Outros projetos são necessários. Cabe a nós contruí-los. Mas vale, como inspiração ética, a determinação do governador gaúcho: em vez de lastimar o golpe, cabe enfrentá-lo. Ninguém está autorizado a nos derrotar pelo telefone.

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6 comentários para "O general falastrão e a esquerda imóvel"

  1. Luiz disse:

    O negócio é o seguinte, soltam o Lula e dão um golpe militar em seguida (general ameaçou o stf) ou o prendem e continua como está.

  2. JEFFERSON FERREIRA disse:

    Acha mesmo que o stf vai se curvar a um general do exército sucateado e diminuido depois de quase 30 anos de democracia? O STF vai votar conforme ideologia de cada ministro e torcemos para não afrouxarem mais ainda o que ja anda espanado.

  3. JORGE disse:

    Porque será que algumas pessoas insistem em acreditar que o lixo do judiciário do brazil é diferente do lixo em que se transformaram os militares do brazil? E ambos ainda, diferentes do lixo da elite do brazil???
    Não estiveram e estão todos juntos no GOLPE?

  4. Sonia Diemer disse:

    Olha, na verdade nunca vivemos a DEMOCRACIA, apenas como até onde os interesses de politiqueiros permitem, e quanto ao povo, nunca assumiu seu compromisso diante da Nação e de si próprio, que é o de se tornar cidadão. Creio que no momento, que o Povo acordar para o que é cidadania, cocaremos todos para Trabalhar, e deixaremos para trás o famoso “mama deitado”, faz de conta que está fazendo, blá blá blá… é simples assim.
    Ah, mas daí tem também as responsabilidades, não é só os direitos, a fanfarrice né?

  5. josé mário ferraz disse:

    É claro que militar quando se envolve em política dá a cagada que deu em 1964. Mas o general falastrão não disse mentira. Ou alguém duvida da necessidade de lutar contra a corrupção, a atuação político partidária do STF, as mordomias de todas as EXCELÊNCIAS com metade do ano legalmente fora dos locais onde fingem trabalhar pelo bem da sociedade, das intermináveis viagens de jatinhos e jatões?

  6. Ângela Broilo disse:

    Muito bom o texto!

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